Ọrúnmìlà



Pelo: Obaala Oluwo Olori Ifarunola


Ọrúnmìlá é a soma da sabedoria suprema, a vida e a morte, o nascimento da natureza, a visão total do mundo e da existência estabelecendo normas éticas que irão comandar as sociedades e os homens, e assim determinando uma conduta nobre diante de todas as forças que se formam contra o bem da humanidade.  É o equilíbrio que ajusta as força que conduz a sustentação do planeta.   Orunmilá representa a antiga sabedoria do Culto Yorubá.
Ọrúnmìlá é o òrisá senhor da sabedoria e do conhecimento, que tendo adquirido o direito de viver entre o órun (céu) e o aiye (terra), tudo sabe e tudo vê em todos os mundos.
Por isso, conhece todos os destinos e sabe como propiciar o sucesso em todos os âmbitos, além de revelar o òrisá pessoal de cada um, ou seja, a substância da qual cada um foi extraído na atual existência e como integrar o indivíduo neste princípio divino. Como elerii ipin (testemunha da criação), detém conhecimento do passado, presente e futuro de todos os habitantes do aiye e do órun.
Orunmilá é o interventor e defensor dos seres humanos, sempre tentando minorar os sofrimentos e dificuldades que enfrentam na saga das suas sucessivas existências na Terra.
Conta o itan que, após permanecer na Terra por algum tempo, Orunmilá retornou ao órun, esticando uma longa corda pela qual ascendeu.   Os seres humanos ficaram totalmente desorientados, o caos, a fome e a peste imperaram na Terra, já que ele era o porta-voz da vontade de Olodunmare. O ciclo de fertilidade das plantas e animais foi interrompido, trazendo ameaça de extinção.
O clamor pela sua volta não foi atendido, mas deixou com seus filhos os 16 ikin (coquinhos de dendezeiro), que se transformaram num importante instrumento de adivinhação. Entregou os ikin instruindo que sempre que desejassem as coisas boas e realizações positivas na vida, deveriam consultar os coquinhos. Daí nasceu o sistema oracular denominado Ifá, que auxilia o ser humano na resolução dos seus problemas cotidianos, nos conflitos e nas dúvidas existenciais, como mediador entre o humano e o divino.
Uma modalidade oracular mais popular é o Opelé Ifá. Apenas sacerdotes iniciados no culto de Orunmilá - os Oluwo Ifá e Babalawo – são credenciados para utilizar esses oráculos.
Os oráculos são baseados no sistema binário e comportam 256 combinações matemáticas que definem os caminhos de odú, com seus milhares de itans (mitos) e owe (parábolas). Sua missão foi organizar as relações humanas, e orientar em todo tipo de assunto, valendo-se para isto dos itans relatados pelos odús.
Todo o corpo filosófico da religião yorubá se resume nesses signos de Ifá – os odús, que por sua vez se subdividem em caminhos com os respectivos itans, que são mitos de instrução, orientação e aconselhamento.
Na tradição religiosa Ogboni-Ifá, nada se empreende sem prévia consulta ao oráculo, que é um instrumento de transmissão do aconselhamento divino para que situações sejam revertidas ou confirmadas.



A Sabedoria


Naquele tempo, Ọrúnmìlá não era mais que um jovem, de excepcional possuía apenas a vontade imensa de saber tudo o que pudesse.

Em suas andanças sobre os países então conhecidos, soube da existência de um grande palácio, onde havia 16 quartos, num dos quais encontrava aprisionada uma belíssima donzela denominada Sabedoria.

Muitos jovens aventureiros, guerreiros poderosos, príncipes e monarcas já haviam sucumbido na tentativa de resgatar a bela jovem.

Determinado a conquistar Sabedoria, Ọrúnmìlá dirigiu-se ao local onde estava edificado o palácio e no caminho encontrou um mendigo que lhe estendeu a mão pedindo um pouco de comida. Colocando a mão em seu embornal, Ọrúnmìlá dali tirou um pequeno saco com farinha de inhame, que era tudo que tinha para comer e de uma cabaça um pouco de epo (dendê), misturando tudo e dividindo com o mendigo, comendo uma pequena parte do alimento.

Depois de alimentar-se, o mendigo revelou a Ọrúnmìlá o seu nome, dizendo que se chamava Èsù e como agradecimento ofereceu ao jovem aventureiro um pedaço de marfim entalhado, dizendo:

“Com este marfim denominado Írófá deverás bater em cada uma das 16 portas do palácio, pois só assim elas se abrirão. Do interior de cada quarto ouvirá uma voz que te perguntará ‘quem bate? ’. Você se identificará dizendo que é Ifá, o senhor do Írófá. Pois só assim cada uma revelará o seu segredo.

A primeira porta – Éjì Ogbè
Representa o conhecimento da vida.
A voz perguntará então:
O que está procurando?
E você dirá, estando diante da porta do primeiro quarto, que deseja conhecer a vida, a competição entre os homens e que quer conquistá-la em nome de Éjì Ogbè, o princípio de tudo.
A porta então se abrirá e você conhecerá os segredos da vida.

A segunda porta – Òyèkú Mèjì
Representa o conhecimento sobre a morte.
No segundo quarto, quando a voz te perguntar o que deseja, depois de ter se identificado como antes, dirá que deseja conhecer Ikú, a Morte e que deseja dominá-la. Aprender a dependência das almas com a Morte e a reencarnação por intermédio de Òyèkú Mèjì. Então a porta se abrirá e você conhecerá a Morte, seus horrores e seus mistérios.
Se não demonstrar medo em sua presença irá adquirir o domínio absoluto sobre ela.

A terceira porta – Ìwòrì Méjì
Representa o conhecimento da vida espiritual com as forças do Òrun.
Na terceira porta encontrará um guardião denominado Ìwòrì Méjì, o anjo exterminador que, depois de reverenciado, colocará diante dos seus olhos a determinação do criador sobre a Terra, os mistérios da vida espiritual e dos nove espaços do Òrun, onde habitam deuses e sombras e todas as classes de espíritos que irá conhecer.

A quarta porta - Òdí Méjì
Representa o domínio da matéria sobre o espírito.
Na quarta porta você reclamará por conhecer o domínio da matéria sobre o espírito, a lei do Karma e a formação do gênero humano. O guardião desta porta chama-se Òdí Méjì, a quem deverá demonstrar respeito e submissão. É necessário que não se deixe encantar pelas maravilhas e os prazeres que se descortinarão diante de teus olhos, pois podem te escravizar para sempre, interrompendo sua busca.

A quinta porta - Ìròsùn Méjì
Representa o domínio do homem sobre seus semelhantes.
Na quinta porta quando for indagado dirá, diante de Ìròsùn Méjì, que procura o acaso da vida. O domínio do homem sobre seus semelhantes através do uso das forças físicas e imposições dos homens. Aprenda, mas não utilize jamais as técnicas reveladas para o mal. Apenas como defesa, para não se tornar vítima delas.

A sexta porta - Òwónrín Méjì
Representa o equilíbrio que deve existir no Universo.
Na sexta porta será recepcionado por um gigante do sexo feminino que deve ser saudado por Òwónrín Méjì a quem solicitará ensinamentos relativos à possessão espiritual, à cura dos seres vivos e ao equilíbrio que deve existir no Universo. Compreenderá então o valor da vida e a necessidade da morte, o mistério que envolve a existência das montanhas e das rochas. Ali será tentado pela possibilidade de obter muita riqueza, mulher, filhos e bens incomensuráveis. Resista a estas tentações ou verá ser reduzida a uns poucos dias de luxúria.

A sétima porta - Òbàrà Méjì
Representa o poder da realização dos desejos e sonhos do ser humano.
Agora estará diante da sétima porta. O habitante deste quarto chama-se Òbàrà Méjì, é velho e se apresenta de aparência bonachona. Poderá te ensinar prestígios da cura, soluções para os problemas mais intrincados e te dará a possibilidade de realizar todos os desejos dos humanos. Tome cuidado, pois o domínio desses conhecimentos podem te conduzir à prática da mentira, à falta de escrúpulos e o desequilíbrio mental.

A oitava porta - Òkánrán Méjì
Representa o poder da palavra do ser humano.
No oitavo quarto deverá solicitar a permissão de Òkánrán Méjì para conhecer o poder da fala humana, que infelizmente é muito mais usada na prática do mal do que para o bem e o encadeamento das forças. Este guardião te falará em muitas línguas e de sua boca só ouvirá lamúrias. Aprende depressa e depressa foge deste local, onde imperam a falsidade e a traição.

A nona porta - Ògúndá Méjì
Representa os malefícios da corrupção e da decadência no ser humano.
Diante da nona porta, pedirá permissão ao seu guardião, Ògúndá Méjì para conhecer a corrupção e a decadência, que podem levar os seres humanos aos mais baixos níveis de existência. Naquele quarto, encontrará os vícios que assolam a humanidade e que a escravizam em correntes inquebráveis. Verá o assassinato, a ganância, a traição, a violência, a covardia e a miséria humana, brincando de mãos dadas com muitos infelizes que se tornam seus servidores.

A décima porta - Òsá Méjì
Representa o poder do fogo e da influência dos astros no ser humano.
No décimo aposento deverá apresentar reverências a uma poderosa feiticeira, cujo nome é Òsá Méjì. Ela vai contar o poder que a mulher exerce sobre o homem e o porquê deste poder. Conhecerá seres poderosos que praticam o bem e o mal, denominadas Ajé que vão lhe oferecer seus serviços maléficos. Caso aceito fará de você o mais poderoso e o mais odiado ser da face da Terra.
Aprenderá a representação do tempo, a dominar o fogo, a utilizar a influência dos astros sobre o que acontece no mundo. Saberá das relações entre o sol e a Terra e a Terra e a Lua, principalmente a influência da Lua sobre os seres vivos. Cuide para que estes segredos não te transformem em um feiticeiro maldito.

A décima primeira porta - Ìká Méjì
Representa o mistério da reencarnação e o domínio sobre os espíritos.
Bata agora com o seu Írófá na décima primeira porta e a voz do guardião Ìká Méjì lhe dirá onde os peixes povoaram os mares, o gigante em forma de serpente te fará estremecer. Saúde-o respeitosamente e solicite dele a permissão para conhecer o mistério que envolve a reencarnação, o domínio sobre os espíritos Àbíkú que nascem com o destino de uma vida curtíssima. Aprenda a dominar este segredo e desta forma poderá livrar muitas famílias do luto e da dor.

A décima segunda porta - Òtúúrúpòn Méjì
Representa os segredos da criação da Terra.
Esta porta te reserva sustos e surpresas sem fim. Seu guardião se chama Òtúúrúpòn Méjì e é do sexo feminino. Possui forma arredondada, mas se parecendo com uma grande bola de carne quase disforme. Trata-se de um gênio muito poderoso que poderá lhe revelar todos os segredos que envolvem a criação da Terra, além de te ensinar como obter riquezas inimagináveis. Aprenda com ele o segredo da gestação humana e a maneira como evitar abortos e partos prematuros. Depois parta respeitosamente em busca da próxima porta.

A décima terceira porta - Òtúrá Méjì
Representa o pleno poder sobre a matéria, a força mágica.
Bata com cuidado e muito respeito, neste quarto reside um gigante chamado Òtúrá Méjì, que costuma comunicar-se de forma íntima e constante com a energia da criação. Aprenda então como nasceu à raça humana, o domínio do homem sobre todos os animais e como é possível separar as coisas.
Domine os mistérios de dissociar os átomos, adquirindo assim pleno poder sobre a matéria. Aprenda também a utilizar a força mágica que existe nos sons da fala humana, mas use esta força terrível com muita sabedoria.

A décima quarta porta - Ìretè Méjì
Representa o poder dos segredos dos espíritos da Terra.
Já diante da décima quarta porta, irá se deparar com Ìretè Méjì, que nada mais é do que o próprio espírito de Ilé, a terra. Faça com que desvende seus mais íntimos segredos, aguarde-o e preste lhe permanente reverência e sacrifício. Saiba como ir e voltar do reino de Ikú. Contate por seu intermédio os espíritos da terra, “Onilé”, transformando-os em seus aliados. Aprenda com ele o poder da cura.

A décima quinta porta - Òsé Méjì
Representa os males físicos do ser humano.
Na décima quinta porta será recepcionado por Òsé Méjì, que irá te ensinar sobre degeneração, decomposição, doenças, perdas e putrefação. Aprenda que é perdendo que se ganha, siga sempre pelo caminho mais modesto.
Aprenda a sanar estes males e saia daí o mais depressa possível para não ser também vitimado por tanta negatividade.

A décima sexta porta - Òfún Méjì
Representa a união dos poderes dos outros 15 Odù de Ifá.
Finalmente a décima sexta porta, o último dos obstáculos que te separam da sua desejada musa. Aí reside Òfún Méjì, o mais velho e terrível dos 16 guardiões, aquele que ressuscita os mortos, saúde-o com temor, dizendo “Epá imọlẹ” só assim poderá aplacar a sua Ira.
Contemple-o, mas não o encare, observe que ele não é como os outros que você já conheceu durante a caminhada. Ele é a reunião de todos os demais e que nele habitam e que nele se dissipam, somente de forma ilusória. Conhecê-lo é conhecer todos os segredos do Universo.

“Se for está a sua busca, então você encontrou a “Sabedoria”, leve-a consigo até a eternidade. ”

Àse, Àse, Àse O.






Conceito dos Mandamentos de Ifá.

Muitos andam pela vida sem rumo e acaba indo buscar os conselhos de Ifá. 
Este era o caso dos ancestrais que buscaram cobrar de Ifá a promessa feita por Olódùmarè (Deus), que dava a eles uma vida longa.

Assim Ifá advertiu:

1 - Não diga o que não sabem (èsúrú pode ser tanto uma conta sagrada como um nome de uma pessoa);

2 - Não façam ritos que não saibam fazer (novamente avisa não troquem a conta sagrada pelo nome);

3 - Não enganem as pessoas (trocando a pena de papagaio por morcego);

4 - Não conduzam as pessoas a uma vida falsa (mostrando a folha de ìrókò e dizendo que é folha de oriro);

5 - Não queiram ser uma coisa que vocês não são (não queiram nadar se vocês não conhecem o rio);

6 - Não sejam orgulhosos e egocêntricos;

7 - Não busquem o conselho de Ifá com más intenções ou falsidade (Àkàlà é um título usado para (Òrúnmìlá);

8 - Não rompam (não mudem) ou revelem os ritos sagrados, fazendo mal uso deles;

9 - Não sujem os objetos sagrados com as impurezas dos Homens; busquem nos ritos sagrados somente coisas boas;

10- Os templos devem ser lugares puros, onde a sujeira do caráter humano deve ser lavada;

11- Não desrespeitem ou inferiorizem os que têm maior dificuldade de assimilar conhecimentos ou deficiências no caráter, ajude-os a mudar;

12- Não desrespeitem os mais velhos, a sabedoria está com eles, à vida os fez aprender;

13- Não desrespeitem as linhas de condutas morais;

14- Nunca traiam a confiança de seu semelhante;

15- Nunca revelem segredos que lhe são confiados; falar pouco e somente o necessário demonstra sabedoria;

16- Respeitem os que possuem cargos de responsabilidade maior; o Babaláwo é um Pai, portanto, é devido grande respeito aos Pais.

Mas os ancestrais não cumprem as determinações de Deus, trazidas e mostradas por Òrúnmìlá. Deus usa os Òrìsà para advertir o Homem, mas não obtém sucesso. O Homem não ouve os conselhos.
Mesmo assim, em erro, o Homem ainda acusa a Òrúnmìlá. Mais uma vez não reconhecendo seus próprios erros. O Homem tem esse hábito, o de culpar os outros pelas suas maneiras erradas.
Diante de tais atitudes, Deus fica desobrigado de cumprir Sua palavra com o Homem, permitindo então que o Homem morra idoso e venha a renascer jovem, para que uma nova caminhada de aprendizados se inicie, em outra vida, em outro lugar, e quem sabe assim, nessa nova etapa, o Homem aprenda os mandamentos de Ifá pondo fim a esse ciclo sofrido.
Assim se repetirão esses ciclos, até que o Homem aprenda a mudar, tornando-se um Eégúngún Àgbà (Ancestral Ilustre) que recebe funções mais importantes no Òrun (no Além)!




O corpo literário de Ifá é uma importante fonte de informações sobre o sistema de crença e valores Yorubas. Como porta voz de outras divindades, Ifá é depositário de todos os mitos e dogmas morais das outras divindades. O Povo Yoruba crê que Òrúnmìlá estava presente quando Olódùmarè(Deus todo poderoso) criou o céu e a terra. Portanto, Ifá conhece a história do céu e da terra e domina as leis físicas e morais com as quais Olódùmarè governa o universo. Por isso Òrúnmìlá é tido como sábio conselheiro, historiador e tutor da sabedoria divina. Por isso, entre seus nomes de honra está:

Akónilóran bí ìyekan eni,
Ogbón ile ayé,
Òpìtàn ilè ifè[1]

Aquele que ensina alguém com sabedoria, como se fosse de sua família
A sabedoria da Terra,
O historiador da terra de Ifè[2]

Os importantes conceitos filosóficos personificados no corpo literário de Ifá incluem o conceito de Orí (cabeça espiritual ou interior), ebo (sacrifício) e Ìwàpèlè (bom caráter). Esses três conceitos são muito relacionados e complementares entre si.  Orí é a essência da sorte e a mais importante força responsável pelo sucesso ou fracasso humano. Além disso, Orí é a divindade pessoal que governa a vida e se comunica, em prol do indivíduo, com as demais divindades. Qualquer coisa que não tenha sido sancionada pelo Orí de uma pessoa, não pode ser aprovado pelas divindades. Isso que quer dizer a declaração encontrada em Ògúndá Méjì:
Orí, pèlé,
Atèténíran;
Atètègbenikòòsà
Kò sóòsa tíí dá ‘ níí gbè léyìn orí eni[3] 

(Orí, o saúdo
Você que sempre abençoa rapidamente os seus
Você, que abençoa o homem antes de qualquer òrìsá,
Nenhum òrìsá abençoa uma pessoa sem o consentimento de seu Orí)

Ebo (sacrifício) é uma forma de comunicação simbólica e ritual entre todas as forças do universo. Os yoruba acreditam que, além do próprio homem, existem duas grandes forças em oposição no universo, uma benevolente em relação aos seres humanos e outra hostil. As forças benevolentes são, coletivamente, conhecidas como ìbo (as divindades), e as malevolentes são conhecidas como ajogun[4] (guerreiros opositores ao homem). As àjé (as bruxas) estão também em aliança com os ajogun para a destruição do homem e de sua obra. Os humanos necessitam oferecer sacrifício às duas forças para sobreviver. O Homem necessita oferecer sacrifício às forças benéficas para continuar gozando de seu apoio e bênçãos. Necessita também oferecer sacrifício aos ajogun e às àjé com o objetivo de não encontrar sua oposição quando estiver prestes a realizar algum projeto importante.

A divindade que age como mediador entre as três partes mencionadas acima é Èsù, que partilha um pouco dos atributos das forças benéficas e maléficas. É o policial do universo. Além disso, é imparcial, uma vez que só irá dar apoio ao homem ou divindade que tenha feito sacrifício. Isso é o que quer dizer a afirmação: eni ó rúbo l Èsùú gbè. Uma vez recebido o sacrifício prescrito, ele proibirá os ajogun de prejudicar o suplicante. Èsù é o guardião do àse, semelhante à autoridade e o poder divino  com os quais Olódùmarè criou o universo. Èsù é, consequentemente, o verdadeiro administrador do universo, o princípio da ordem e da harmonia e agente da reconciliação. Sua esposa, Agbèrù, recebe todos os sacrifícios em seu nome. Após tirar sua parte de aárùún (cinco búzios) e um pouco de todos os outros materiais oferecidos em sacrifício. Èsù leva as oferendas para as divindades ou os ajogun envolvidos. O efeito , normalmente, a restauração da paz e a reconciliação entre as partes conflituosas.

Um questão emerge imediatamente quando analisamos o que foi dito até agora. Qual o papel reservado aos seres humanos no universo Yorubá, onde o indivíduo não pode agir de forma independente de seu Orí e está à mercê de dois poderosos conjuntos de forças sobrenaturais aos quais ele deve oferecer sacrifícios incessantemente para poder sobreviver. O indivíduo realmente importa em tal sistema? É aí que o conceito de Ìwàpèlè entra. Juntamente com um conjunto de princípios menores como àyà e esè, o princípio de Ìwàpèlè, em certo grau, liberta o homem dessa estrutura de universo autoritária e hierárquica  e, de qualquer forma, provém a ele com um conjunto de princípios com os quais regular sua vida, com o intuito de evitar colisões com os poderes sobrenaturais e com seus companheiros humanos. Segue-se uma pequena descrição e interpretação do princípio de Ìwà relacionado com os as crenças dos Yorubas já citadas acima.

A palavra Ìwà é formada a partir da raiz verbal wà (ser ou existir) adicionada do prefixo deverbativo “i”. O sentido original de Ìwà pode, então, ser interpretado como “o fato de ser, viver ou existir”. Assim, quando Ifá fala de

Ire owó
Ire omo
Ire àikú parí ìwà,[5]

O significado de ìwà nesse contexto é exatamente o referido acima.

Tenho a impressão de que o outro significado de ìwà (caráter, comportamento moral) é originário da utilização idiomática deste sentido léxico original. Se este for o caso, ìwà (caráter) é, portanto, a essência de ser. O ìwà de um ser humano pode ser usado para caracterizar sua vida, especialmente em termos éticos.

Além disso, a palavra ìwà (caráter) pode ser usada para se referir a ambos, bom e mau caráter. Para exemplificar de forma declarativa, alguém poderia dizer:

Ìwà okùnrin náà kò dára
O caráter do homem não é bom.

Ìwà okurin náàá dára
O caráter do homem é bom.

Mas, às vezes, a palavra ìwà pode ser usada para se referir unicamente ao bom caráter.

Obìnrin náàá ní ìwà
A mulher tem bom caráter.

Pode-se dizer também:

1-    Ìwà pele  (caráter bom, ou manso)
2-    Ìwà búburú (mau caráter)

Este estudo é sobre Ìwà pele, que pode ser traduzido como caráter manso, gentil, ou, em um sentido amplo, bom caráter.

Como mencionado acima, ìwà é tido como um dos muitos objetivos da existência humana  para o Yorubá. Todo indivíduo deve empenhar-se para ter ìwà pele, com o objetivo se ser capaz de ter uma boa vida num sistema dominado por muitos poderes sobrenaturais e numa sociedade controlada pela hierarquia nas autoridades. O homem que possui ìwàpele não colidirá com nenhum dos poderes, sejam humanos ou sobrenaturais e, desta forma, viver em completa harmonia com as forcas que governam tal universo.

É por isso que o Yoruba tem ìwàpele como o mais importante de todos os valores morais e o maior de todos os atributos de qualquer homem. A essência da prática da religião para o Yoruba consiste, assim, em empenhar-se em cultivar Ìwàpèlè. Isso é o que quer dizer o ditado:

Ìwà Lèsin
(Ìwà é um outro nome para a devoção religiosa)

No corpo literário de Ifá, ìwà é representada por uma mulher. Ogbè Alárá, um dos Odù Ifá menores diz que Ìwà era uma mulher de máxima beleza com a qual Òrúnmìlá se casou, após ela já ter se separado de diversas outras divindades. Apesar de sua beleza, Ìwà   não tinha um bom comportamento. Ela tinha péssimos hábitos e uma língua incontrolável. Além disso, ela era preguiçosa que sempre fugia de suas responsabilidades.


Após eles estarem casados há algum tempo, Òrúnmìlá já não podia mais tolerar seus maus costumes. Assim, ele a mandou embora. Porém, quase imediatamente após ela sair de casa, ele se deu conta de que mal não poderia viver sem ela. Ele perdeu o respeito de seus vizinhos e foi desprezado por sua comunidade. Além disso, todos  os seus clientes o abandonaram e a prática da divinação não gerava mais lucros. Faltava-lhe dinheiro para gastar, roupas para vestir e outros utensílios necessários para que vivesse uma vida boa e nobre.

Òrúnmìlá, então colocou sua roupa de Egúngún e saiu em busca de Ìwà. Ele visitou as casas dos dezesseis mais importantes chefes do culto à Ifá porém não encontrou sua esposa. Ele permaneceu do lado de fora da casa de cada um dos chefes e cantou a seguinte canção:

Sabedoria da mente, sacerdote de Ifá da casa de Alárá
Consultou Ifá para Alárá,
Apelidado de Ejì Òsá,
Descendente daqueles que usam bastões de ferro para fazer trinta gongos.
Grande compreensão, sacerdote de Ifá de Ajerò
Consultou Ifá para Ajerò,
Descendente do homem valente que se recusa completamente a entrar em uma briga.
Onde você viu Ìwà, me diga
Ìwà, Ìwà, é a você que estou buscando.
Se você tem dinheiro,
Mas não tem um bom caráter,
O dinheiro pertence a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Se alguém tem filhos,
Mas lhe falta com caráter,
Seus filhos pertencem a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Se alguém possui uma casa
Mas lhe falta bom caráter,
Sua casa pertence a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Se alguém tem roupas,
Mas lhe falta bom caráter
Suas roupas pertencem a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Todas as boas coisas da vida, que um homem tiver,
Se lhe falta bom caráter,
Pertencem a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando[6].

Após uma longa busca, Òrúnmìlá encontrou Ìwà na casa de Olójo que havia desposado ela novamente. Quando chegou à casa de Olójo, ele cantou a mesma cantiga e Olójo veio para o lado de fora para o encontrar. Òrúnmìlá disse a ele que estava em busca de Ìwà, sua esposa, que o havia abandonado. Olójo se recusou a devolve-la para Òrúnmìlá e uma disputa seguiu-se, na qual Òrúnmìlá atingiu Olójo com a pata de uma cabra com a qual havia feito sacrifício antes de sair de casa. O impacto jogou Olójo a muitas milhas de distância. Òrúnmìlá,  então, pegou sua esposa de volta, em paz. A história sobre ìwà  contada acima é importante por diversas razões. Em primeiro lugar, é digno de nota que o símbolo de bom caráter seja uma mulher. No folclore Yorùbá, a mulher representa os dois lados opostos do envolvimento emocional. As mulheres são símbolo do amor, cuidado, devoção, suavidade e beleza. Ao mesmo tempo são, especialmente as bruxas, símbolo da maldade, do endurecimento, desfaçatez e deslealdade. Uma vez que ìwà é um atributo que pode ser tanto mau como bom(conforme explicado acima) somente as mulheres, às quais os Yorùbá já atribuem tal visão moral estereotipada, podem ser usadas como símbolo de ìwà. Usando tal símbolo, o que Ifá quer que entendamos é que todo indivíduo deve tomar cuidado com seu caráter como toma conta de sua esposa. Assim como uma esposa pode ser um fardo para seu marido, um bom caráter pode ser um fardo para o justo e fiel, porém estes nunca devem se esquivar de sua responsabilidade. As mulheres podem ser tidas como bruxas e mentirosas, porém o Yorùbá sabe que sem elas a sociedade humana não pode sobreviver. Da mesma forma, o bom caráter pode ser difícil de se possuir como atributo, porém se ninguém o tivesse, o mundo seria um lugar muito difícil de se viver.

Em segundo lugar, é importante notar também que a própria Ìwà, é uma mulher que lhe falta um bom caráter e que se permite péssimos hábitos. Isso significa que um homem que aspire ter bom caráter deve estar preparado para suportar aquilo que os Yorùbá chamam de ègbin( coisa suja ou indecente). O homem que aspire ter bom caráter deve saber que algumas vezes se encontrará em situações desagradáveis, as quais ofenderam seu senso de dignidade e de decência. Ainda assim ele não deve se afastar do caminho do bom caráter sob pena de perder a própria essência e o valor da vida.

O verso de Ifá citado acima compara ìwà com outras coisas valiosas que o homem também aspira conquistar – dinheiro, filhos, casas e roupas. Ifá posiciona ìwà acima de todas essas coisas de valor. Um homem que possua todas essas coisas mas que não tem ìwà, as perderá rapidamente, provavelmente, para outro que tenha ìwà e que sabia cuidar de tudo isso. Ìwà é, portanto, o mais valioso bem entre tudo aquilo que é valioso no sistema de valores Yorùbá.

Outro verso de Ifá sobre ìwà, citado pelo Sr. Modupe Alade, em sua moradia, no Egbé Ijinlè Yorùbá (Sociedade Cultural Yorùbá ), Lagos, em 31 de agosto de 1967 e publicado na revista de cultura Yorùbá, Olókun[7], nº8, de agosto de 1969, se diferencia em alguns detalhes signficantes do visto anteriormente. O seguinte é extraído desse poema:

Se pegarmos um objeto de madeira rágbá[8] e batermos com ele numa cabaça,
Vamos saudar Ìwà  
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa cabaça,
Vamos saudar Ìwà  
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa pedra,
Vamos saudar Ìwà
Ifá foi consultado para Orunmilá,
Quando nosso pai ia se casar com Ìwà.
Primeira vez que Òrúnmìlá casava com uma mulher,
Ìwà foi com quem ele casou,
Ìwà mesma
Era filha de Sùúrù (paciência).
Quando Òrúnmìlá propôs casamento a Ìwà,
Ela disse que estava de acordo.
Ela disse que se casaria com ele.
Mas que havia uma coisa que ele deveria observar.
Ninguém deveria mandá-la embora de seu lar nupcial.
Mas ela não deveria ser usada de forma descuidada, como alguém usa a água da chuva.
Ninguém deveria puni-la desnecessariamente...
Òrúnmìlá exclamou: Deus não permita que eu faça tal coisa.
Ele disse que cuidaria dela.
Disse que a trataria com amor,
E que a trataria com gentileza.
Então, ele casou com Ìwà.
Após um longo tempo,
Ele se tornou infeliz com ela..
Então começou a perturbar Ìwà.
Se ela fizesse uma coisa,
Ele reclamava que ela havia feito de forma errada.
Se ela fizesse outra coisa,
Ele também reclamaria.
Quando Ìwà percebeu que aquilo era demais para ela,
Disse: Tudo bem.
Voltou para a casa de seu pai.
Seu pai era o primogênito de Olódùmarè.
Seu nome era Sùúrù, o pai de Ìwà.
Ela, então, reuniu seus utensílios de cabaça,
E partiu para sua casa.
Ela foi para o òrun.
Quando Òrúnmìlá retornou, disse:
Saudações ao povo de dentro de casa.
Saudações ao povo de dentro de casa.
Saudações ao povo de dentro de casa.
Porém Ìwà não apareceu.
Nosso pai então perguntou por Ìwà.
Os outros habitantes da casa disseram que não a viram.
“Onde ela foi?
Foi ao mercado?
Ela foi a algum lugar?”
Ele perguntou isso durante muito tempo, até que
Juntou dois búzios com três,
E foi para a casa de um sacerdote de Ifá.
Disseram a ele que ela havia fugido.
Ele foi aconselhado a ir e encontrá-la no lar de Alárá.
Quando ele chegou a casa de Alárá, disse:
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e
batermos com ele numa cabaça,
É Ìwà que buscamos.
Vamos saudar Ìwà.
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e
batermos com ele numa cabaça,
É Ìwà que buscamos.
Vamos saudar Ìwà.
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e
batermos com ele numa pedra,
É Ìwà que buscamos.
Vamos saudar Ìwà.
Alárá, você viu Ìwà, diga-me?
É Ìwà que buscamos.
Ìwà.
Alárá disse que não havia visto Ìwà.
Nosso pai foi, então, para a casa de Òràngún, rei da cidade de Ilá
Descendente de um pássaro com muitas penas.
Ele perguntou se Òràngún tinha visto Ìwà.
Mas Òràngún disse que não tinha visto.
Mal haviam outros lugares onde procurar.
Após muito tempo,
Ele voltou,
E indagou a seus instrumentos divinatórios.
Ele disse que procurou por Ìwà na casa de Alárá.
Ele a procurou na casa de Ajerò,
Ele a procurou na casa de Óràngún.
Ele a procurou na residência de Ògbérè, sacerdote de Ifá de Olówu,
Ele a procurou na residência de Àséégbá, sacerdote de Ifá de Ègbá.
Ele a procurou na residência de Àtàkúmòsà, sacerdote de Ifá de Ìjèsà.
Ele a procurou na residência de Òsépurútù, sacerdote de Ifá de Rémo
Mas ele disseram que Ìwà tinha ido para o òrun.
Ele disse que iria lá e a traria de volta.
Eles disseram: tudo bem,
Providenciaram para que ele realizasse sacrifício.
Disseram a ele que oferecesse uma rede,
E desse mel a Èsù.
Ele ofereceu o mel em sacrifício a Èsù.
Quando Èsù provou o mel,
Disse: O que é isso que é tão doce?
Òrúnmìlá então, entrou em sua roupa de Egúngún,
E foi para o céu.
E começou a cantar novamente.
Èsù fez um jogo de desfaçatez,
E foi para onde Ìwà estava.
Ele disse: um certo homem chegou no céu,
Se você ouvir sua canção,
Ele diz tais e tais coisas...
É você que ele está procurando...
Ìwà então partiu (de seu esconderijo),
E foi os encontrar no local onde cantavam.
Òrúnmìlá estava em sua roupa Egúngún.
Ele viu Ìwà através da rede da roupa.
Ele a abraçou.
Aqueles que transformam a má sorte em boa, então, abriram a roupa.
Ìwà, porque você se portou de tal maneira?
Me deixou na Terra e foi embora.
Ìwà disse: É verdade.
Ela disse que foi por causa da forma que ele a maltratou
Que ela fugiu.
Para que ela tivesse paz em sua mente.
Òrúnmìlá então implorou para, por favor,
Que ela tivesse paciência com ele.
E voltasse com ele.
Mas Ìwà se recusou,
Mas disse: Tudo bem
Ela ainda podia fazer alguma coisa.
Ela disse: Você, Òrúnmìlá,
Volte para a Terra
Quando você chegar lá,
Todas as coisas que eu disse que você não fizesse,
Não tente fazer.
Comporte-se muito bem.
Comporte-se com bom caráter.
Cuide de sua esposa,
E cuide de seus filhos.
De hoje em diante, você não colocará mais os olhos em Ìwà.
Mas eu estarei com você.
Mas, o quer que você faça para mim,
Irá determinar quão ordenada será sua vida.

O verso de Ifá relatado acima confirma o anterior em alguns aspectos. Em ambos Ìwà é uma mulher e foi esposa de Òrúnmìlá. Além disso, em ambas histórias, Òrúnmìlá teve que ir procurar por Ìwà depois que ela o deixou. A canção que Òrúnmìlá cantou em ambos os poemas, enquanto buscava Ìwà é, em certo grau, similar. Apesar disso tudo, os poemas são diferentes. O segundo poema diz que Ìwà é filha Sùrùú (Paciência) que foi o primogênito de Olódùmarè. Esse detalhe fundamental falta ao primeiro poema e portanto é necessário ressaltá-lo.

 O segundo poema liga Ìwà com Paciência e também com o próprio Deus. O significado disso é que o homem, para obter o bom caráter, deve em primeiro lugar, ter paciência. É por isso que temos o ditado:
Sùrùú ni baba ìwà (Paciência é o pai do bom caráter). De todos os atributos que um homem com bom caráter deve ter[9], paciência é o mais importante se todos porque a pessoa que é paciente terá tempo para meditar sobre as coisas e sempre chegar a justas e honestas conclusões. Devemos, então, ser paciente com as pessoas e aprender a ser tolerantes para podermos ter bom caráter. Se Òrúnmìlá tivesse aprendido a ser paciente, ele não teria perdido sua esposa, Ìwà.

O segundo poema liga Ìwà com Olódùmarè, que, na história, é seu avô. O significado disso é muito claro. Significa que Olódùmarè é a personificação do bom caráter. Ele, então, espera que os seres humanos também tenham bom caráter. É um pecado contra a divina lei de Olódùmarè que qualquer um se desvie do caminho do bom caráter. A pessoa que faça isso será punida pelas divindades a menos que ofereça sacrifício, o qual mostrará que se arrependeu e restaurará a paz e a harmonia na desgastada relação que seu desvio cria entre a pessoa e as forças sobrenaturais. Isso, então, é a razão pela qual o Yorùbá tem o bom caráter como a essência da religião.

O corpo literário de Ifá pode, então, ser tomado como um conjunto de poemas míticos e históricos que nos oferece, através do uso da analogia, imagens e símbolos o que fazer no intuito de estar em paz com Deus, as forças sobrenaturais, nossos vizinhos e, em verdade, consigo mesmo. Todos esses preceitos e advertências podem ser reduzidos a um pensamento: Atenha-se fortemente ao cultivo do bom caráter para que sua vida seja boa.

O conceito Yorùbá de existência transcende o tempo do indivíduo na Terra. Vai além de sua época e inclui as memórias que o homem deixa após sua morte. Portanto, é fundamental ser um homem de bom caráter para que deixe boas lembranças quando se for. Numa sociedade que eleva os mortos a condição de ancestrais e que armazena homenagens a eles em sua arte verbal, a única recompensa durável para o homem de bom caráter reside nos poemas, nas máscaras e nas cerimônias anuais que serão feitas em sua homenagem após morte.

A importância posta, pelos Yorùbá,  no princípio de ìwà mostra que as religiões tradicionais africanas são baseadas em profundos valores morais que sustentam as crenças inerentes a essas religiões.
Freqüentemente, ouvimos dos seguidores ignorantes do Cristianismo e do Islã, que as religiões tradicionais africanas não são baseadas em nenhum valor ético. Nada pode ser mais distante da verdade.

O princípio de ìwà mostra que as religiões tradicionais africanas são baseadas em profundas e significativas  idéias filosóficas.




[1] Esse poema foi coletado do Chefe Fádáyìíró, Olúwo de Akéètàn, Òyó durante o mês de agosto, 1963

[2] A terra de Ifè aqui citada, significa o conjunto das terras Yorùbá.

[3] Wande Abímbolá, Ìjìnlè Ohùn Enu Ifá Apá Kìíní, Collins Glasgow, 1968, p 100

[4] Entre os ajogun estão incluídos Morte, Doença, Perda e outras coisas terríveis que afetam o andamento da vida humana.

[5]De uma não publicada coleção de gravações de diversos sacerdotes de Ifá, incluindo Oyedele Ilá, Beesin Compound, Òyó.

[6]Coletado de Oyedele Ilá, Beesin Compound, Òyó, dezembro, 1973

[7] Parte do artigo original do Sr. Alade é escrito em prosa, mas apresentei em sua forma de poema. Fiz ligeiras modificações em sua ortografia.

[8] Rágbá,  nome de uma planta freqüentemente usada para preparações herbais.

[9] Os outros atributos incluem òtìtó (verdade), inúrere (mente tranqüila com os demais), ikonimóra(atitude calorosa para com os demais), Ífé (amor), ìbòwòfágbà (respeito aos mais velhos), etc.


POR: Wande Abimbola




2 comentários:

  1. Ola kolofê? gostaria de saber ma sobre a {Apetibi}..pf abraçoss

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  2. Apetebi é a esposa do Babalawo, conta o itan que Osun foi a primeira Apetebi.
    Apetebi não é cargo dentro do culto de Ifá, porém requer ser inicada para tal função.
    Procure aqui no blog post sobre o assunto.

    Ire o.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.