Ợbàtálá




Òrìșàlá (Ợbàtálá/Òòsáálá/Ọbàrìşà)
 
Òrìșànlá / Ợbàtálá na Nigéria


“Òrìșànlá ou Ợbàtálá, “O Grande Òrìșà” ou” Rei do Pano Branco”, ocupa uma posição única e inconteste do mais importante òrìşà e o mais elevado dos deuses yorùbá. Foi o primeiro a ser criado por Òlódùmarè, o deus supremo. Òrìșànlá-Ợbàtálá é também chamado Òrìsà ou Obà-Ìgbò, o Òrìşà ou o Rei dos Igbò E Rei da \floresta, igbo. Tinham um caráter bastante obstinado e independente o que lhe causava inúmeros problemas.

Òrìșànlá foi encarregado por Òlódùmarè de criar o mundo com o poder de sugerir (àbá) e o de realizar
(ase), razão pela qual é saudado com o título de Aláàbáláàse. Para cumprir sua missão, antes da partida,
Òlódùmarè entregou-lhe o “ saco da criação”. O poder que lhe fora confiado não o dispensava, entretanto,
de submeter-se a certas regras e de respeitar diversas obrigações como os outros òrìşà.

Uma história de Ifa conta-nos como, em razão de seu caráter altivo, ele se recusou a fazer alguns sacrifícios
oferendas a Èşù, antes de iniciar sua viagem para criar o mundo.

Òrìșànlá pôs-se a caminho apoiado num grande cajado de estanho, seu Opá Sòrò ou Pasòrò, o cajado para fazer cerimônias. No momento de ultrapassar a porta do Além, encontrou Èşù, que entre as suas múltiplas obrigações, tinha a de fiscalizar as comunicações entre os dois mundos. Èşù, descontente com a recusa do Grande Òrìşà em fazer as oferendas prescritas, vingou-me fazendo-o sentir uma sede intensa. Òrìșànlá, para matar sua sede, não teve outro recurso senão o de furar, com o seu Pasòrò, a casca do tronco de um dendezeiro, Igi Òpę. Um líquido refrescante dele escorreu: era o vinho de palma, Emu. Ele bebeu-o ávida e abundantemente. Ficou bêbado, diga-se enfeitiçado por Èşù, não sabia, mas onde estava e caiu adormecido. Veio então Ọlọfin - Odùdúwà, criado por e depois de Òrìșànlá é o maior rival deste. Vendo o Grande Òrìşà adormecido, roubou-lhe “o saco da criação”, dirigiu-se à presença de Òlódùmarè para mostrar-lhe seu achado e lhe contar em que estado se encontrava Òrìșànlá. Òlódùmarè exclamou: “Se ele está neste estado, vá você, Odùdúwà! Vá criar o mundo! ” Odùdúwà saiu do Além e se encontrou diante de uma extensão ilimitada de água. Deixou cair à substância marrom contida no “ saco da criação”. Era terra. Formou-se então um montículo que ultrapassou a superfície das águas.

Aí, ele colocou uma galinha cujos pés tinham cinco garros. Esta começou a arranhar e a espalhar a terra sobre a superfície das águas. Onde ciscava, cobria as águas, e a terra ia se alargando, cada vez mais, o que o ioruba se diz ilè nfé, expressão que deu origem ao nome da cidade de Ile Ife. Odùdúwà retornou ao Ợrùn, prestou conta de sua tarefa e tornou-se assim o Rei da terra. (Odùdúwà òrìşà do princípio feminino).

Quando Osalá acordou não mais encontrou ao seu lado o “saco da criação”. Preocupado, voltou a Òlódùmarè. Estes, com castigo pela sua embriaguez (feitiço), proibiram ao Grande Òrìşà, assim como aos outros de sua família, os òrìşà funfun, ou “òrìşà brancos”, beber vinho de palma e mesmo de usar azeite-de-dendê, nesta frase existe uma confusão do autor pois sendo Ọrúnmìlá um òrìşà funfun colocamos muito dendê em seu igba e suas comidas. Confiou-lhe, entretanto, como consolo, a tarefa de modelar no barro o corpo dos seres humanos, aos quais ele, Òlódùmarè, insuflaria a vida com seu Emi, sopro divino.

Por essa razão, Osalá é também chamado de Alámérere, o “proprietário da boa argila”. Pôs-se a modelar o corpo dos homens, mas não levava muito a sério a proibição de beber vinho de palma e, nos dias em que se excedia, os homens saíam de suas mãos contrafeitos, deformados, capengas, corcundas. Alguns, retirados do forno antes da hora, saíam mal cozidos e suas cores tornavam-se tristemente pálidas: eram albinos. Todas as pessoas que entravam nessas tristes categorias são-lhe consagradas e tornam-se adoradoras de Orișálá. (Vemos uma outra versão, pois nos é dito que Oşalá, quando faz esse tipo de deformação está marcando seus filhos diletos).

Mais tarde, quando Òrìșànlá e Odùdúwà reencontraram-se, eles discutiram e se bateram com furor. A lembrança dessas discórdias é conservada nas histórias de Ifá, das quais algumas podem ser encontradas em outra obra. As relações tempestuosas entre divindades podem ser consideradas como transposição ao domínio religioso de fatos históricos antigos. A rivalidade entre os deuses dessas lendas seria a fabulação de fatos mais ou menos reais, concernentes à fundação da cidade de Ifé, tido como o “ berço da civilização ioruba e do resto do mundo”. Ợbàtálá teria sido o rei dos Igbo, uma população instalada perto do lugar que se tornou mais tarde a cidade de Ifé. “A referência a esse fato não se perdeu nas tradições orais no Brasil, onde Orișálá e frequentemente mencionado nos cantos como Òrìşà Igbo ou Babá Igbo, “ou òrìşà” ou “ o rei dos Igbò”. Durante seu reinado, ele foi vencido por Odùdúwà, que encabeçava um exército, fazendo-se acompanhar das dezesseis personagens, cujos nomes variam segundo os autores. Estes são conhecidos pelo nome de awọn àgbagbà, “ os antigos”. Esses acontecimentos históricos corresponderiam à parte do mito onde Orișálá foi enviado para criar o mundo (enquanto, na realidade, ele tornou-se o rei dos Igbò) e foi no mito que Odùdúwà tornou-se o rei do mundo, por ter roubado a Orișálá o “ saco da criação” (enquanto, na realidade, ele destronou Òrìșànlá-Obà-Ìgbò, usurpando-lhe o reino).

Odùdúwà teria vindo do leste, (nota-se outra distorção, pois sabemos de Odùdúwà o òrìşà e Odùdúwà fundador e pai da nação ioruba, não são a mesma pessoa, este que vem do Leste tinha o nome de Ninrod e saiu da cidade de Meca no oriente-médio) no momento das correntes migratórias causadas por uma invasão berbere no Egito. Esse fato provocou deslocamentos de populações inteiras, expulsando-se progressivamente, umas às outras, em direção ao oeste, para terminar em Borgu, também chamada região dos Bariba.

Segundo uns, Odùdúwà teria vindo de uma longínqua região do Egito ou mesmo de Meca e, segundo outros, de um lugar perto de Ifé, chamado Okè-ara, onde os invasores teriam habitado durante várias gerações.

Não foi sem resistência que Òrìșànlá-Ìgbò perdeu seu trono. Ele reagiu com energia e chegou mesmo a expulsar Odùdúwà de seu palácio, onde já se encontrava instalado. Foi ajudado por seus partidários, Orolúéré e Obawinni, mas foi uma vitória de curta duração, pois, por sua vez, foi expulso por Obamèrì, partidário de Odùdúwà, e, assim, Òrìșànlá teve que se refugiar em Ideta-Oko. Obamèrì instalou-se na estrada que ligava esse lugar a Ifé para impedir, durante muito tempo, a volta de Òrìșànlá a esse lugar. Tendo este perdido o seu poder político, conservou funções religiosas e voltou mais tarde para instalar-se em seu templo em Ideta-Ile. A coroa de Òrìșànlá-Obà-Ìgbò, tomada por Odùdúwà, teria sido conservada até hoje no palácio do Ọòni, rei de Ifé e descendente de Odùdúwà. Essa coroa, chamada Ade, é elemento essencial na cerimônia de entronização de um novo Ọòni. Os sacerdotes de Òrìșànlá desempenham um papel importante nessas ocasiões. Eles participam de certos ritos, durante os quais eles próprios colocam a coroa na cabeça do novo soberano de Ifé. Este também, antes da sua coroação, deveria dirigir-se ao templo de Òrìșànlá. Durante as festas anuais, celebradas em Ifé para Òrìșànlá, os sacerdotes desse deus fazem alusão à perda da coroa de Obà-Ìgbò, lembrando seu antigo poder sobre o país antes da chegada de Odùdúwà e da fundação de Ifé. Além disso. O Ọòni deve enviar todos os anos seu representante a Ideta-Oko, onde residiu Òrìșànlá. O representante deve levar oferendas e receber instruções ou a benção de Òrìșànlá.

Os deuses da família de Òrìșànlá-Ợbàtálá, o “Òrìşà” ou o “Rei do Pano Branco”, deveriam ser sem dúvida, os únicos a serem chamados òrìşà, sendo os outros deuses chamados por seus próprios nomes ou, então, sob a denominação mais geral de ẹbọra para os deuses masculinos. O termo “Imole”, empregado por Epega, abrangeria o conjunto dos deuses yorùbá, menos os òrìşà funfun.

Essa família de òrìşà funfun, os òrìşà brancos, é daqueles que utilizam o Efún (giz branco) para enfeitar o corpo. São-lhe feitas oferendas de alimentos brancos, como pasta de inhame, milho, caracóis e limo da costa. O vinho e o azeite, provenientes do dendê, e o sal são as principais interdições. As pessoas que lhe são consagradas devem sempre se vestir de branco, usar colares da mesma cor e pulseiras de estanho, chumbo ou marfim.

Os òrìşà funfun seriam em número de cento e cinquenta e quatro, dos quais citamos alguns nomes:

Òrìsà Olufon Ajígúnwà koari, “aquele que grita quando acorda”;

Òrìşà Ogìyán Ewúléèjìgbò, “Senhor de Éjìgbò”;

Òrìşà Obaníjìta;

Òrìşà Àkìrè ou Ìkirè, um valente guerreiro muito rico que transforma em surdo-mudo aquele que o negligencia;

Òrìşà   Eteko Oba Dugbe, outro guerreiro muito ligado a Òrìșànlá;

Òrìşà Aláse ou Olúorogbo, que salvou o mundo fazendo chover num período de seca

Òrìşà Olójo;

Òrìşà Àrówú;

Òrìşà Oníkì;

Òrìşà Onirànjé;

Òrìşà Ajagémó, para o qual, durante sua festa anual em Édé, dança-se e representa-se com mímicas um combate entre ele e Olunwi, no qual este último sai vencedor e aprisiona seu adversário. Mas tarde Òrìşà Ajagémó é libertado e volta triunfante para seu templo, Ulli Beier sugere que nesta representação poderia haver uma espécie de reconstituição da conquista do reino Igbo por Odùdúwà, da derrota de Orișálá no plano temporal e de sua vitória final no plano espiritual.

Òrìşà Jayé em Jayé;

Òrìşà Ròwu em Owu;

Òrìşà Olóbà em Obá;

Òrìşà Olúófin em Iwófin;

Òrìşà em Oko;

Òrìşà Eguin em Owú, etc.

William Bascom observa que o ritual da adoração de todos esses òrìşà funfun é tão semelhante que, em alguns casos, é difícil saber se trata de divindades distintas ou simplesmente de nomes e manifestações diferentes de Òrìșànlá.

Òrìșànlá-Ợbàtálá é casado com Yemoo. Suas imagens são colocadas uma ao lado da outra e coberta por traços e pontos desenhados com Efún, no ilé sìn, local de adoração desse casal no templo de Ideta- Ilê, no bairro de Itapa, em Ile-Ife.

Yemoo foi à única mulher de Òrìșànlá-Ợbàtálá. Um caso excepcional de monogamia entre os òrìşà e irunmọlẹ, muito propensos, como vimos nos capítulos precedentes, a ter aventuras amorosas múltiplas e a renovar facilmente seus votos matrimoniais. (Convém notar que lendas são criadas e a sua idade vai lhe dar verossimilidade).


Cerimônias para Òrìșànlá-Ợbàtálá


As cerimônias públicas para Òrìșànlá em Ilê-Ifé comemoram acontecimentos históricos. Antigamente, as festas duravam nove dias e foram posteriormente reduzidas para cinco. Como estão em concordância com a semana yorùbá de quatro dias, começam e terminam no dia consagrado a Ợbàtálá.

Nos dois casos observados, começaram no dia imediato ao primeiro quarto da lua.

São realizados sacrifícios de cabras no templo de Ợbàtálá, no ilé sìn de Ideta-Ilê, onde se encontram as imagens de Ợbàtálá-Òrìșànlá e de sua mulher Yemoo. Uma parte do sangue é derramada sobre as imagens que, em seguida, são lavadas com infusão de folhas colhidas na floresta de Yemoo. Essas folhas são de diferentes variedades, entre as quais figuram as plantas calmantes: Òdúndún (Kalanchoe crenata), Àbámodá (Bryophyllum pinnatum), òwú (Gossypium sp.), Efinrin (Ocimun viride), rinrin (Peperomnia pellucida), Teteregun (Costus afer), etc. Em seguida, as duas imagens são enfeitadas com uma série de traços e pontos brancos feitos com Efún. O sacerdote mais importante, o Ọbalase, guarda de Ợbàtálá e Ọbalase, guarda do Òrìsà Aláse, dança por muito tempo nesse primeiro dia ao som dos tambores ìgbìn, próprio do culto de Òrìșànlá. São tambores pequenos e baixos, apoiados sobre pés, um macho e outra fêmea. O ritmo é marcado pelos eru, ferros achatados em forma de “T” “T”, batidos uns no outro.
No dia seguinte, Ọbalálé e Ọbalase fazem abluções com as mesmas infusões que serviram na véspera para Òrìșànlá e Yemòwó; seus corpos são igualmente enfeitados com desenhos feitos com Efún. As imagens são bem enroladas em pano branco e levadas, de manhã cedinho, em procissão desde Ideta- Ilê até Ideta-Oko. Todos os ingredientes da oferenda — ibó òrìşà — a ser feita são levados até lá. Essa oferenda consta de dezesseis caracóis, dezesseis ratos, dezesseis peixes, dezesseis nozes de cola e limo da costa. O dia será passado em Ideta-Oko, lembrando o exílio de Òrìșànlá-Obà-Ìgbò quando teve de deixar o palácio de Ifé.

No momento da chegada à floresta, faz-se uma pequena parada diante de uma árvore ìsìn, “a que é adorada”, e o cortejo penetra mais adentro numa vasta clareira, cercada de grandes árvores e margeada de montículos de terra que parecem ser ruínas de construções antigas. No centro, encontra se uma espécie de grande pote emborcado com um pequeno furo à meia altura, através do qual pode se ver o crânio de animais sacrificados nos anos anteriores. As imagens são desenroladas e colocadas no chão, de costas para o pote; Òrìșànlá à direita e Yemòwó à esquerda, como no ilé sìn em Ideta-Ilê.

Todos os participantes sentam-se em silêncio na floresta calma e sombria. Pouco a pouco a multidão se amontoa. Os tambores ìgbìn tocam de vez em quando, acompanhando os cantos e os oríkì de Ợbàtálá e Yemoo. Sacrifica-se uma cabra. Faz-se uma adivinhação, com as quatro partes de uma noz de cola, para saber se os deuses estão satisfeitos. A cabeça do animal é separada do corpo e jogada embaixo do grande pote. Recomeçam os cantos acompanhados pelos tambores. Os sacerdotes dançam. Ợbàtálá, com ar distante e crispado, está em transe, possuído por Òrìșànlá.

No entardecer, dois mensageiros do Ọòni de Ifé chegam e param à entrada da floresta, perto da árvore ìsìn. Traz da parte de seu senhor, descendente de Odùdúwà, uma cobra como oferenda; antigamente era um ser humano que deveria ser sacrificado. O animal é levado para uma pequena clareira, contígua ao local da reunião. Já quase à noite e a cabeça do animal é presa no chão por uma forquilha. Ọbalase, com o rosto tenso e entorpecido pelo transe, dança ao redor da pequena clareira e faz várias idas e vindas ao local onde estão as imagens dos òrìşà. Em seguida, ele pega um dos ferros eru, em forma de “T” “T”, e com ele bate com força na cabeça da cabra, matando-a. Molha suas mãos no sangue que escorre do corte e vai passá-las na cabeça das imagens de Òrìșànlá e Yemòwó.

Um ajudante de Ọbalase arrasta, com a forquilha, a cabra abatida, evitando tocá-la, e a lança no mato.

A multidão grita: “Gbákú ló, gbárùn ló!!!”

“Leva a morte para longe, leva as doenças para longe"

Em contraste com a primeira cabra sacrificada, cuja carne foi cozida e distribuída para ser ritualmente comida pelos presentes, em comunhão com os deuses, a carne da segunda cabra, que substituiu a vítima humana, não pode ser tocada nem comida, pois seria atrair sobre si a morte e as doenças... e praticar antropofagia.

Terminada a cerimônia desse dia, as imagens dos deuses são novamente enroladas nos panos brancos, levadas a Ideta-Ilê e reinstaladas no ilé sìn até o ano seguinte.

No último dia, consagrado a Yemoo, os sacerdotes e seus auxiliares vão à floresta sagrada dessa divindade, a Ita-Yemoo. Levam para ali um acento de madeira esculpida, àgá Yemòwó, devidamente lavado e purificado com a infusão de folhas e enfeitado com traços brancos. Um dos sacerdotes, dedicado a Yemoo, entra em transe, possuído por essa divindade. As expressões de seu rosto, com seu ar distante, lembram o transe de Ọbalase na floresta de Ideta-Oko, porém mais calmo e tranquilo. Transformando-se momentaneamente em Yemoo, o sacerdote é revestido com um grande pano branco e amarra em sua cabeça um turbante também branco. Seguida por uma grande multidão, na qual predominam as mulheres, algumas das quais tiveram filhos por sua intercessão, Yemoo, encarnava, vai sentar-se em sua cadeira, em frente ao palácio de Ọòni. Porém o descendente de Odùdúwà não se apresenta e Yemoo retira-se para o templo de Ideta-Ilê. Esta visita de Yemoo é repetida duas vezes mais sem que o Ọòni apareça; entretanto, a cada vez, ele envia nozes de cola a Ideta-Ilê por um mensageiro.

Não obtivemos explicação sobre o sentido preciso dessa parte do ritual. Parece tratar-se de uma referência aos esforços sucessivos que antigamente fez Yemoo para restabelecer a paz entre Òrìșànlá e Odùdúwà e a acolhida reticente reservada por este último aos esforços de pacificação.


Ọşàlufọn (Òrìsà Olùfọn)


Òrìsà Olùfọn, Òrìsà funfun, velho e sábio, cujo templo é em Ifọn, pouco distante de Ọșogbo. Seu culto permanece ainda relativamente bem preservado nessa cidade tranquila, que se caracteriza pela presença de numerosos templos, igrejas católicas e protestantes e mesquitas que atraem, todas elas, aos domingos e sextas-feiras, grandes números de fiéis de múltiplas formas de monoteísmos importados do estrangeiro. Em contraste, infelizmente, com essa afluência, o dia da semana ioruba consagrado a Òrìșànlá só interessa atualmente a pouca gente. Exatamente um pequeno núcleo de seis sacerdotes, os Ìwèfà méfà (Aàjà, Ááwa, Oluwin, Gbògbò, Alata e Ajibodu) ligados ao culto de Òrìsà Olùfọn e uns vinte olóyè, os dignitários portadores de títulos, que fazem parte da corte do rei local, Ọba Olùfọn.

A cerimônia de saudação ao rei de dezesseis em dezesseis dias pelos Ìwófà e pelos Olóyè é impressionante pela calma, simplicidade e dignidade. O rei, Olùfọn, espera sentado à porta do palácio reservada só para ele e que dá para o pátio. Ele estava vestido com um pano e um gorro brancos. Os Olóyè avançam vestidos de tecido branco amarrado no ombro esquerdo, e seguram um grande cajado. Aproximam-se do rei, param diante dele, colocam o cajado no chão, tiram o gorro, ficam descalços, desatam o tecido e amarram-no à cintura. Com o torso nu em sinal de respeito, ajoelha-se e prostra-se vária vez, ritmando, com uma voz respeitosa, um pouco grave e abafada, uma série de votos de longa vida, de calma, felicidade, fecundidade para suas mulheres, de prosperidade e proteção contra os elementos adversos e contra as pessoas ruins. Tudo isso é expresso em uma linguagem enfeitada de provérbios e de fórmulas tradicionais. Em seguida, os Olóyè e os Ìwèfà vão sentar-se de cada lado do rei, trocando saudações, cumprimentos e comentários sobre acontecimentos recentes que interessam à comunidade. A seguir, o rei manda servir-lhes alimentos, dos quais uma parte foi colocada diante do altar de Ọşàlufọn, para uma refeição comunitária com o deus.


Osogiyan (Òrìsà Ogìyán)


Òrìsà Ogìyán é um òrìşà funfun jovem e guerreiro, cujo templo principal encontra-se no Éjìgbò. Foi a esse local que este òrìşà chegou, depois de uma viagem que o fez passar por vários lugares; num deles, Ìkirè deixou um de seus companheiros que se tornou o opulento Òrìsà-Ìkirè.

Chegando ao ponto final de sua viagem, tomou o título de Eléjigbò, rei de Éjìgbò. Porém, uma característica deste òrìşà era o gosto descontrolado que tinha pelo inhame pilado, chamado iyán, que lhe valeu o apelido de “Òrìşà-Comedor-de-Inhame-Pilado”, o que se exprime em ioruba pela frase Òrìsà-jé-iyán e pela contração Òrìsà jiyàn ou Òrìsà giyàn. Comia inhame dia e noite; de fato, o inhame era-lhe necessário há todas as horas. Dizem que ele foi o inventor do pilão para facilitar a preparação de seu prato predileto. Também, quando um Elégun desse òrìşà é possuído por ele, traz sempre na mão, ostensivamente, um pilão com alusão a sua preferência alimentar. Esse detalhe é conhecido no Brasil pelas pessoas consagradas a Osogiyan que, quando estão em transe durante suas danças, agitam com a mão, infalivelmente, o pilão simbólico. Além disso, a festa que lhe oferecem todos os anos chama-se “o Pilão de Osogiyan”.

Por ocasião das cerimônias anuais em Éjìgbò, a tradição exige que os habitantes de dois bairros da cidade, Osolò e Oke Mapò, lutem uns contra os outros a golpes de varas durante várias horas. Uma história de Ifá explica a origem desse costume com a seguinte lenda:

“Certo Awoléjé, babalawo companheiro e amigo de Eléjigbò, havia-lhe indicado o que deveria fazer para transformar a aldeia de Éjìgbò, recentemente fundada, em uma cidade florescente. Em seguida, dirigiu-se para outro lugar. Em alguns anos, a aglomeração tornou-se uma grande cidade, cercada de muralhas e fossos, com portas fortificadas, guardas, um palácio para Eléjigbò, numerosas casas, um grande mercado para onde vinham de muito longe, compradores e vendedores de mercadorias diversas e escravos. Eléjigbò vivia em grande estilo e era costume, quando se falava de sua pessoa, designá-lo pelo termo bajulador Kábiyèsí (‘Sua Majestade Real’). Ao cabo de vários anos, Awoléjé voltou e, embora babalawo, nada sabia da grandeza de seu amigo, o ‘Comedor-de-Inhame- Pilado’. Chegando ao posto da guarda, na porta da cidade, pediu familiarmente notícias do Ojiyan. Os guardas surpresos e indignados com a insolência do viajante para com o soberano do lugar agarraram Awoléjé, bateram-lhe”. Cruelmente e o prenderam. O babalawo ferido vingou-se utilizando seus poderes. Éjìgbò conheceu então anos difíceis: não chovia mais, as mulheres ficaram estéreis, os cavalos do rei não tinham mais pasto e outros dissabores. Eléjigbò fez uma pesquisa e soube da prisão de Awoléjé. Ordenou imediatamente que o pusessem em liberdade e pediu-lhe para perdoar e para esquecer os maus-tratos de que fora vítima. “Awoléjé concordou, mas com uma condição: ‘No dia da festa de Osogiyan, os habitantes de Éjìgbò deveriam lutar entre si, com golpes de varas, durante várias horas’”.

Esta flagelação expiatória realiza-se todos os anos em presença de Eléjigbò, enquanto as mulheres consagradas ao òrìşà cantam os oríkì e batem no chão com o ìsàn, varinhas de Atori (Glyphaea laterifolia), para os mortos, e fazê-los participar da cerimônia. Elas exortam Osogiyan a fazer reinar a paz e a abundância em sua cidade e a mandar chover regularmente. Os àse do deus são trazidos da floresta sagrada, onde se encontra seu templo. Terminada a luta, forma-se um cortejo, precedido por Eléjigbò. A multidão entra dançando no palácio, onde os ase ficaram por algum tempo. Depois, retornarão acompanhados por Eléjigbò e seu séquito até o templo de Osogiyan, em sua floresta sagrada. A multidão enche logo a clareira, levando gamelas com oferenda de alimentos, onde figura em lugar de destaque, a massa de inhame bem pisada nos pilões e que será comida em comunhão com o Òrìsà.