quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Ọșogbo – O reino de Òşún



A festa anual das oferendas a Òşún, realizada em Ọșogbo na Nigéria é uma reatualização do pacto que o primeiro rei local contraiu com o rio do mesmo nome.
“Laro”, o antepassado do atual rei, depois de prolongadas atribulações procurando um lugar favorável onde pudesse instalar-se com seu povo chegaram ao rio Òşún, onde a água corria permanentemente.
Segundo se conta alguns dias mais tarde uma das filhas desapareceu nas águas quando se banhava no rio e, passado algum tempo, delas saiu, esplendidamente vestida. Declarou aos seus pais que fora admiravelmente recebida e tratada pela divindade que ali morava.
Laro foi fazer oferendas de agradecimento ao rio. Muitos peixes, mensageiros da divindade, em sinal de aceitação, vieram comer o que o rei jogou na água. Um peixe de grande tamanho veio nadar perto do lugar onde ele se encontrava e cuspiu água.
Laro recolheu essa água em um cabaça e bebeu-a, celebrando assim um pacto de aliança com o rio. “Em seguida estendeu as mãos e o grande peixe saltou nelas e assim assumiu o título de Àtàója, contração da frase yorùbá” A le’wo gba eja (aquele que estende as mãos e pega o peixe).
A partir disso ele declara “Òşún gbo”, isto é, (Òşún encontra-se em estado de maturidade, suas águas sempre serão abundantes).
Daí originou-se o nome da cidade, Ọșogbo.
No dia da festa “Òdùn Òşún” o “Àtàója” vai com grande pompa até o rio. Leva na cabeça uma coroa monumental feita de pequeninas contas. Usa um pesado traje de veludo e caminha com gravidade e calma, rodeado por suas esposas e dignitários.
Uma filha do “Àtàója” carrega nessa procissão anual, uma cabaça de Òşún. Ela tem o título de “Arúgbó Òşún” (aquela que carrega a cabaça de Òşún) e só pode exercer essa função antes da puberdade.
Ela representa a menina que desapareceu outrora no rio. Sua pessoa é sagrada e o próprio “Àtàója” inclina-se diante dela.
O Àtàója vai sentar-se numa clareira e acolhe as pessoas que vieram assistir à cerimônia. Os reis e chefes das cidades vizinhas comparecem ou enviam seus representantes. A todo o momento chegam delegações precedidas por orquestras. Troca de saudações, prosternações e danças, como marca de cortesia recíproca que se sucede em crescente animação.
No final da manhã, o Àtàója, acompanhado de sua corte e convidados aproxima-se do rio Òşún e manda jogar nele, através da Iya Òşún e do Aworo, oferendas de comidas: “agídí” (massa feita de milho), inhames cozidos, ” iyanli” (espécie de sopa) etc.
Os peixes disputam as comidas sob o olhar atento das sacerdotisas de Òşún.
 A seguir o Àtàója vai ao recinto de um pequeno templo vizinho e senta-se em cima da pedra (Òkúta Laro) onde seu antepassado Laro repousou outrora.
O Àtàója está rodeado pelos dignitários do culto de Òşún:
Iya Òşún, a mulher que se encontra à frente das sacerdotisas.
Aworo, o homem que se encontra à frente dos sacerdotes e seus substitutos.
Jagun Òşún, a mulher guerreira de Òşún.
Balògun Òşún, o guerreiro de Òşún.
Ololigan Òşún, o homem que se encontra à frente de todos aqueles que fazem oferendas a Òşún.
Ìyàlódè Òşún, à mulher que se encontra à frente de todos os adoradores de Òşún, com exceção dos “Ìwòrò”.
Iyan gba Òşún, a mulher que, a cada quatro dias, vai procurar água para lavar os seixos de Òşún.
Àkùn Yungba Òşún, chefe dos cantores do culto a Òşún.
Prosseguindo ao cerimonial da festa a “Iya Òşún e o Aworo” realizam a adivinhação para saber se a divindade ficou contente com as oferendas que acabam de fazer-lhe e se tem alguma vontade a exprimir.
A seguir as pessoas cantam em torno do Àtàója, sentado no Okuta Laro. “Seguem-se então cantigas em louvor a Òşún seguido de cânticos em comemoração à ação de Òsànyìn cujas palavras evocam as virtudes simbólicas de certas folhas”.
Ìrókò, que produz calma.
Ògègè a árvore na qual se sobe para ficar protegido.
Òdúndún, sempre fresca.
A parte religiosa pública chegou ao fim. O Àtàója, seguido pela multidão volta à clareira onde recebe seus convidados e os trata com uma generosidade digna da reputação de Òşún.
Fora desta data anual são feitas oferendas a Òşún a cada quatro dias (semana yorùbá).
A festa anual (Òdùn Òşún) retorna portando a cada noventa e duas semanas yorùbá, perdendo um dia em cada ano solar normal e dois dias a cada ano solar bissexto.
O Àtàója, referindo-se a deusa Òşún diz:
“O povo de Ọșogbo e o Àtàója tem um pacto com o rio Òşún”.
Eles acreditam que o espírito de Òşún mora no rio Òşún e tem ali seu palácio, em lugar próximo de Ọșogbo. Pensam também que todos os lugares profundos do rio Òşún, a partir de “Ìgèdè” onde ele nasce até a laguna de “Leke” onde ele despeja suas águas, são habitados pelos espíritos de todos os seguidores, servidores e amigos quando ela vivia.
Esses lugares profundos recebem a denominação de “Ibú”.
Finalizando diz:
Todos os rios tributários que deságuam no rio Òşún são os dedos da deusa e todos os peixes que nele existem, bem como em seus afluentes são os mensageiros de Òşún.
Os tesouros de Òşún são guardados no palácio do “Àtàója” templo este que fica situado nas proximidades do rio Òşún.


Òsó Igbó pèlé o, gbogbo ìkòkò mi lé tí fo tan.
Feiticeiro da Floresta faça devagar, você já quebrou todos os meus vasos.
A tẹwọ gbáà eja.
O que deu origem a Àtàója
(Contração de frase yorùbá ele estende as mãos e recebe o peixe).

Àtàója declarou então:
Òşún gbó!
Sélèrú àgbò, àgbàrá àgbò,
L’Òşún fi we ợmợ rè
Kí dókítà ó tó dé

Òşún está em estado de maturidade,
Suas águas são abundantes.
Torrentes de poções
É onde Òşún banha seus filhos
Antes que venham os doutores.


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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.