quarta-feira, 29 de março de 2017

A Ira de Ợbatálá



Dentro de Ifá e as observações de seus Awo, o verso/Itọn, abaixo, tem muito mais a mostrar do que apenas a dificuldade em acalmar Ợbatálá (Oşàlá).
A intenção nesse caso é mostrar o quanto é difícil para um ser humano tentar reaver a confiança e o perdão das divindades, principalmente Ợbatálá (Oşàlá) e podemos inclusive levar essa característica para os seus iniciados.
Pessoas difíceis de perdoarem, pessoas exigentes com conduta e comportamento social, mesmo que não estejam sendo observadas.
Fica o ensinamento que essas pessoas nascidas para equilibrarem as relações, a família, os embates e mesmo as brigas, devem ser respeitadas pelo seu senso de justiça e equilíbrio.
Mas, por favor, não levantem a ira de Ợbatálá e nem de seus iniciados.
É o inferno na Terra.

Um verso de Ògúndá mèjì diz:

Abe-Sekete era o filho de Ògún. Ele estava muito próximo a Ợbàtálá, que por sua vez era muito carinhoso com Abe. Não havia lugar que Ợbàtálá não fosse que não levasse Abe com ele. Muitas pessoas achavam que Abe era filho biológico de Ợbàtálá. Não havia nada na vida de Ợbàtálá que Abe não soubesse.
No entanto, um dia Ợbàtálá se casou com uma mulher jovem, essa mulher era muito atraente e tinha uma atitude submissa. Ela era carinhosa com Abe e por isso, Ợbàtálá estava muito satisfeito. Sempre que Ợbàtálá não estava presente, ele costumava enviar Abe a sua casa para fazer companhia a sua esposa e cuidar de suas necessidades. Abe fazia isso com entusiasmo. Sem Ợbàtálá saber, eles dois haviam desenvolvido uma infame luxuria um pelo outro e Abe começou a trair Ợbàtálá ao dormir constantemente com a mulher. Enquanto isso acontecia Ợbàtálá não desconfiava de nada. Logo a situação chegou a um ponto em que eles se mostraram imprudentes e descuidados. Um dia Ợbàtálá foi a uma reunião, era esperado que ele chegasse tarde da reunião, enquanto na reunião, Ợbàtálá se deu conta que havia esquecido algo em casa e ele pediu permissão para ir busca-la, quando ele chegou a residência e abriu a porta e encontrou Abe e sua esposa no auge da paixão. Ele ficou totalmente triste e desiludido por Abe o ter traído dessa forma. Ele disse a Abe que nunca mais voltaria de novo a ter relações com ele e que ele estava cortando todo e qualquer contato com Abe. Ele pegou o que tinha vindo buscar e regressou a reunião. Abe estava extremamente envergonhado de si mesmo. Ele retornou para casa como um homem preocupado, triste, assustado e solitário. Ele começou a planejar o que fazer para buscar os favores de Ợbàtálá novamente.
A jovem esposa empacotou suas coisas e fugiu antes do retorno de Ợbàtálá da reunião e ela não foi vista novamente.
Abe-Sekete esperou por 17 dias e começou suplicar a Ợbàtálá. Ợbàtálá recusava aceita-lo em sua presença e nem sequer escutava o que Abe tinha a dizer. Ele repetiu sua visita à casa de Ợbàtálá por vários dias, porém, ele sempre era expulso. Ao final, ele decidiu ir buscar pessoas influentes que estariam seguras que Ợbàtálá não poderia ignorar interceder a seu favor.

Abe foi implorar a Sakí em Ekiti
E foi implorar a Erìnmì das terras de Owo
Ele foi implorar a Antete das terras de Ìkòyí
Mesmo assim Ợbàtálá recusou
Ele declarou que ele nunca mais teria qualquer contato com Abe

Quando Abe usou tudo que ele sabia para amenizar a situação com Ợbàtálá, não houve resultado positivo. Ele viajou à Ado Ekiti e rogou a Saki, um dos confidentes mais próximos de Ợbàtálá para que lhe ajudasse a apelar a Ợbàtálá. Saki foi e suplicou por vários dias, porém, Ợbàtálá recusou escuta-lo.
O passo seguinte foi viajar as terras Owo para implorar junto a Erìnmì de Owo, alguém altamente respeitado e Chefe de Owo, além de ser um amigo íntimo de Ợbàtálá, ele queria ser ajudado junto a Ợbàtálá. Erìnmì de Owo e Ợbàtálá tinham uma estima mutua, eles nunca desejaram ofender um ao outro por causa de qualquer assunto. Erìnmì de Owo viajou todo o caminho a Ìrànjé-Ile onde vivia Ợbàtálá e implorou a seu amigo por vários dias, mesmo assim Ợbàtálá recusou firmemente mudar seus pensamentos sobre Abe-Sekete.
Abe-Sekete novamente foi a cidade de Ìkòyí e implorou a Antete para que o ajudasse a apelar junto a Ợbàtálá para que perdoasse sua ofensa. Antete era uma personalidade altamente influente na comunidade. Sua reputação viajou para longe e chegou a todas as partes e alcançou todas as partes das terras yorùbá e além. Ele era um amigo íntimo de Ợbàtálá. Atente viajou a Ìrànjé-Ile e implorou a Ợbàtálá por vários dias, ele se recusou a mudar de opinião.
Depois que todas essas pessoas fracassaram em mudar a opinião de Ợbàtálá, Abe Sekete lhes agradeceu e decidiu tratar por outros meios e apelar para Ợbàtálá. Ele sentiu que Ợbàtálá se recusava a ouvir suas apelações, por que ele o havia traído terrivelmente e Ợbàtálá sentiu tudo em seu amago. Abe sentiu que quanto maior o amor, maior a inimizade que envolvia a situação. Ele decidiu mandar outras pessoas.

Abe foi implorar a complexidade negra do Agbe
O filho de Olókun Seniade, a divindade dos oceanos
E foi implorar ao vermelho Àlùkò
O filho de Olòòşà, a divindade das lagoas.
Mesmo assim, Ợbàtálá recusou.
Ele novamente jurou nunca mais ter contato com Abe

No curso de tentar reconciliar-se com Ợbàtálá, Abe viajou até a margem do oceano para implorar a Ọlọkún e pedir que ele enviasse seu filho, Agbe-dudu para que ele o ajudasse a implorar a Ợbàtálá que o perdoasse em sua ofensa. Ọlọkún enviou Agbe-dudu que viajou a Ìrànjé-Ile com Abe. Agbe dudu suplicou a Ợbàtálá por vários dias em favor de Abe, em nome de seu pai Olókun Seniade, porém Ợbàtálá recusou ouvi-lo. Logo Abe foi a Olòòşà, a divindade da lagoa, para implorar que mandasse seu filho Aluko-Dòdòòdò, para que o ajudasse a implorar junto a Ợbàtálá, para que o perdoasse em sua ofensa. Ela concordou, Aluko-Dòdòòdò implorou junto a Ợbàtálá para que perdoasse Abe, Ợbàtálá se recusou a ouvi-lo. Ợbàtálá novamente jurou que nunca mais perdoaria Abe pelo o que ele fez.
Quando Abe viu que todas essas personalidades de alta patente, respeitadas e influentes não conseguiram mudar o pensamento de Ợbàtálá, Abe decidiu ir solicitar a ajuda de Ọrúnmìlà. Ele agora viajou para Ile-Ife para implorar a Ọrúnmìlà que o ajudasse. Ọrúnmìlà consultou Ifá e Ògúndá mèjì foi revelado.

A Abe foi dada o seguinte conselho, ofereça ebo.
Ele obedeceu imediatamente. Depois disso Ọrúnmìlà foi procurar um pouco de vegetais èbùrẹ e saiu para a casa de Ợbàtálá em Ìrànjé-Ile.

Abe então, recorreu a si mesmo
E foi buscar ajuda de Ọrúnmìlà
Quando Ọrúnmìlà estava indo
Ele pegou um ramo de vegetal Èbùrẹ

Porém, Ợbàtálá era reconhecido por sua cuidadosa observação e dedução do que estava acontecendo
Edun-Beleje, o macaco esbelto, que era filho da divindade da floresta, estava atuando como chefe de companhia de Ợbàtálá.

Quando Ọrúnmìlà está prestes a chegar à casa de Ợbàtálá
Ợbàtálá estava dormindo
Ọrúnmìlà gritou as saudações
Edun-Beleje, o filho de Olu-Igbo disse que Ợbàtálá não havia acordado
Eles perguntaram por que?
Ọrúnmìlà disse que Saki já havia despertado em Ado-Ekiti
E Erìnmì já havia acordado nas terras de Owo
E Antete já havia acordado nas terras Ìkòyí
E Agbe-dudu já havia acordado na margem do oceano
Enquanto Aluko-Dòdòòdò já havia acordado nas margens da lagoa

Quando Ọrúnmìlà estava prestes a chegar a Ìrànjé-Ile, a casa de Ợbàtálá, Ợbàtálá que tinha a reputação de ser altamente dotado na área de fazer cuidadosas observações e deduções cuidadosas, que era o que estava a ponto de acontecer no futuro, já que tinha observado que alguém maior que todas as nações, maior que todas as pessoas tinha sido enviado por Abe e estava se aproximando de sua casa, portanto, ele mesmo se induziu ao sono e deixou uma mensagem com Edun Beleje, para informar a quem chegasse que ele estava dormindo. Quando Ọrúnmìlà chegou, Edun Beleje disse que Ợbàtálá ainda não tinha se levantado. Ọrúnmìlà disse que o acordaria imediatamente. Quando lhe perguntaram por que, Ọrúnmìlà disse que Saki de Ado, Erìnmì de Owo, Antete de Ìkòyí, Agbe-dudo o filho de Ọlọkún e Aluko-dòdo o filho de Olòòşà já haviam despertado. Não havia razão portanto para Ợbàtálá não acordar nesse momento.
Quando Ọrúnmìlà escutou que Ợbàtálá estava dormindo, ele disse que a pessoa que ele tinha vindo ver estava em casa, ele ordenou que Ợbàtálá deveria se levantar de seu sono. Quando ele perguntou por que, ele deu as razões do por que Ợbàtálá deveria despertar. Ợbàtálá despertou, porém, insistiu em não abrir a porta para Ọrúnmìlà entrar em sua casa.
Ọrúnmìlà ordenou a Ợbàtálá que abrisse a porta para ele, quando ele perguntou por que, Ọrúnmìlà disse que era a pálpebra que abre a porta dos olhos, é a parte de baixo que indica o trabalho que abre a porta do parto para um novo recém-nascido. Ele disse que, a menos que essas declarações não fossem verdadeiras, então, Ợbàtálá não deveria abrir a porta, mas, se suas declarações eram um fato, ele deveria abrir a porta imediatamente.

Ợbàtálá, então, abriu a porta
Ele disse que ainda que a porta fosse aberta

Ele nunca mostraria o rosto para Ọrúnmìlà
Ọrúnmìlà disse que ele mostraria o rosto a ele (Ọrúnmìlà)
Quando ele perguntou, por que
Ele disse que as solas dos pés não conhecem o caminho de volta
A unha não vira as costas para o dedo.
A unha do dedão do pé não dá as costas ao mesmo dedo
Aquele que alivia seus intestinos em um monte, não dá as costas para o monte.

Quando Ợbàtálá escutou o que Ọrúnmìlà disse quando chegou, ele supôs que estas eram declarações de fato, ele, portanto, abriu a porta de má vontade. Quando a porta se abriu, ele insistiu que Ọrúnmìlà não veria seu rosto para discutir nada, sobre qualquer assunto. Ọrúnmìlà ordenou que ele o olhasse, quando ele perguntou por que, Ọrúnmìlà declarou que o pé não dava as costas ao caminho, a unha não dava as costas ao dedo e a unha do dedão do pé não dava as costas ao mesmo dedo, a pessoa que esvazia seus intestinos no monte, não pode dar as costas ao monte. Ọrúnmìlà declarou que se todas essas declarações fossem verdadeiras, então Ợbàtálá deveria voltar seu rosto em favor de Abe-Sekete, pelo qual ele tinha vindo.

Ợbàtálá, então, voltou seu rosto para Ọrúnmìlà.
Ele disse que embora ele o tenha encarado
Ele nunca sorriria sobre esse assunto
Ọrúnmìlà ordenou que Ợbàtálá sorrisse sobre o assunto
Quando ele perguntou por que
Ele declarou que uma viúva se conhece por seus sorrisos consoladores
Uma mulher obscena se conhece por sua estupidez, porém, tem tentadores sorrisos
Sorrisos estupidamente tentadores são a marca de uma prostituta
É com sorriso que as pessoas acendem o fogo, para preparar a bebida
E é com sorriso que a inundação se torna uma torrente
Quando a árvore do algodão produz sua lã
É com sorriso que o fazendeiro faz a colheita

Quando Ợbàtálá eventualmente voltou seu rosto para Ọrúnmìlà para uma conversa cara a cara sobre o assunto de Abe Sekete, Ợbàtálá declarou que não importava o que Ọrúnmìlà diria, ele nunca ficaria satisfeito para chegar ao ponto de sorrir sobre o assunto. Ọrúnmìlà ordenou que ele sorrisse, quando ele perguntou por que, Ọrúnmìlà disse que uma mulher a quem seu esposo recentemente tivesse morrido, ele somente sorriria para consolar a ela mesma e para consolar os outros e dizer que não é o fim da vida, uma prostituta usa seus estrupidos, porém, tentadores sorrisos para convidar seus clientes e a qualquer outro pedestre, os preparadores de bebidas sorriem ao acender o fofo para produzi-las, a inundação sorri quando se junta a torrente e quando a lã do algodão germina e se abre, o fazendeiro as colhe com sorrisos. Ọrúnmìlà declarou que se tudo isso que ele falou não eram fatos, então, Ợbàtálá estava livre para não sorrir sobre o assunto, por outro lado, se as declarações fossem verdadeiras, então, Ợbàtálá não teria outra opção que não fosse sorrir sobre o assunto de Abe-Sekete.

Ợbàtálá então sorriu
Ele declarou que mesmo que tenha sorrido
O assunto não havia deixado sua mente completamente
Ọrúnmìlà ordenou que o assunto deveria ser removido completamente de sua mente

Quando ele perguntou por que
Ele disse que o cão sempre tenta lamber a água
Ele disse, quando o coador de bebidas liquidas se enchem de água totalmente
Quando se afunda o coador, quando sai a água desce em retirada
E quando a armadilha de pesca é submergida na água, a água será removida completamente da armadilha quando ela for removida
E se uma mulher se envolve em negócios de frutos verdes de palmeira
É bastante cansativo

Quando Ợbàtálá sorriu e insistiu que era impossível para ele tirar completamente o assunto de sua mente, Ọrúnmìlà, no entanto, ordenou que o retirasse completamente de sua mente. Quando ele perguntou por que tinha que ser assim, Ọrúnmìlà disse que o coador, quando é submergido em água, ficará cheio de água, será completamente esvaziado de água. A mesma coisa se aplica com a armadilha de pesca, ele também disse que nenhuma mulher se envolve no negócio de frutos de palma não maduras para que alguém descanse. Ele declarou que se isso não fosse verdade, então Ợbàtálá estaria livre para hospedar rancores contra Abe-Sekete. Por outro lado, se estas declarações fossem corretas, então Ợbàtálá deveria limpar completamente sua mente sobre o assunto.

Ợbàtálá declarou que mesmo que todas as coisas estivessem presas em sua mente
Porém, ele disse que nunca ficaria feliz com esse assunto
Ele disse que sua mente havia se tornado um formigueiro
E suas costas estavam cheias de agulhas
Enquanto que sua parte do meio do corpo havia se tornado uma espinha
Ọrúnmìlà declarou que verdadeiramente as coisas estavam presas em sua mente.
Sua mente deveria se voltar para as folhas Òdúndún
E suas costas deveria se voltar para as folhas Tete
Enquanto a parte do meio de seu corpo deveria se voltar par as folhas rinrin.

Quando Ợbàtálá disse à Ọrúnmìlà que o assunto havia sido removido completamente de sua mente, ele no entanto, declarou que ele nunca estaria feliz com Abe-Sekete novamente. Ọrúnmìlà então declarou que se o assunto foi removido completamente de sua mente, então, não havia razão pela qual ele não poderia estar feliz com Abe-Sekete, então ele estaria albergando animosidades contra ele, a qual era uma completa contradição com sua declaração de que havia perdoado completamente seu seguidor favorito. Assim foi como Ọrúnmìlà limpou a mente de Ợbàtálá sobre esse assunto e consegui que Abe-Sekete fosse perdoado desde o ponto mais profundo de sua mente.
Assim foi como Ọrúnmìlà convidou Abe-Sekete e o reconciliou com Ợbàtálá. Ọrúnmìlà lhe entregou as folhas Èbùrẹ a Abe-Sekete que a entregou a Ợbàtálá como símbolo de perdão e reconciliação.

Odù Ògúndá mèjì
Aquele que tem coador para filtrar a cerveja
A espessa planta em torno do pescoço do elefante
Elas duas, devem estar ali, juntas
Vigorosas marteladas no metal, caracterizam uma ferraria
E incessantes abanos caracterizam o grito
Para colocar o rosto contra o calor do fogo
E as costas contra o calor do Sol

Estes eram os Áwo residentes de Onitenku
Eles foram os que lançaram Ifá para Onitenku
Aquele que ofendeu e foi expulso
Eles se juntaram para lançar Ifá para Abe-Sekete
O filho de Ògún
Quando ele foi fazer amor com a esposa de Ợbàtálá
Ợbàtálá se recusou e disse que nunca mais teria relações com Abe novamente
Abe foi implorar a Saki em Ekiti
E foi implorar a Erìnmì das terras de Owo
Ele foi implorar a Antete das terras de Ìkòyí
Mesmo assim Ợbàtálá recusou
Ele declarou que ele nunca mais teria qualquer contato com Abe
Abe foi implorar a complexidade negra do Agbe
O filho de Olókun Seniade, a divindade dos oceanos
E foi implorar ao vermelho Àlùkò
O filho de Olòòşà, a divindade das lagoas
Mesmo assim, Ợbàtálá recusou
Ele novamente jurou nunca mais ter contato com Abe
Abe então, recorreu a si mesmo
E foi buscar ajuda de Ọrúnmìlà
Quando Ọrúnmìlà estava indo
Ele pegou um ramo de vegetal Èbùrẹ
Porém, Ợbàtálá, era reconhecido por sua cuidadosa observação e dedução do que estava acontecendo

Edun-Beleje, o macaco esbelto, que era filho da divindade da floresta, estava atuando como chefe de companhia de Ợbàtálá.

Quando Ọrúnmìlà está prestes a chegar à casa de Ợbàtálá
Ợbàtálá estava dormindo
Ọrúnmìlà gritou as saudações
Edun-Beleje, o filho de Olu-Igbo disse que Ợbàtálá não havia acordado
Eles perguntaram por que?
Ọrúnmìlà disse que Saki já havia despertado em Ado-Ekiti
E Erìnmì já havia acordado nas terras de Owo
E Antete já havia acordado nas terras Ìkòyí
E Agbe-dudu já havia acordado na margem do oceano
Enquanto Aluko-Dòdòòdò já havia acordado nas margens da lagoa
Òrìşànlá, portanto, levantou-se
Ele disse que tinha acordado
Porém, não abriu a porta para que Ọrúnmìlà entrasse
Ọrúnmìlà disse: Ợbàtálá, abra a porta
Por que Ipepereju,
Porque Ipepereju, a pálpebra é quem abre a porta dos olhos para ele ver.
E a parte baixa que indica o trabalho que abre a porta do parto para um novo recém-nascido.
Ợbàtálá, então, abriu a porta
Ele disse que ainda que a porta fosse aberta
Ele nunca mostraria o rosto para Ọrúnmìlà

Ọrúnmìlà disse que ele mostraria o rosto a ele (Ọrúnmìlà)
Quando ele perguntou, por que
Ele disse que as solas dos pés não conhecem o caminho de volta
A unha não vira as costas para o dedo.
A unha do dedão do pé não dá as costas ao mesmo dedo
Aquele que alivia seus intestinos em um monte, não dá as costas para o monte.
Ợbàtálá, então, voltou seu rosto para Ọrúnmìlà.
Ele disse que embora ele o tenha encarado
Ele nunca sorriria sobre esse assunto
Ọrúnmìlà ordenou que Ợbàtálá sorrisse sobre o assunto
Quando ele perguntou por que
Ele declarou que uma viúva se conhece por seus sorrisos consoladores
Uma mulher obscena se conhece por sua estupida, porém, tem tentadores sorrisos
Sorrisos estupidamente tentadores são a marca de uma prostituta
É com sorriso que as pessoas acendem o fogo, para preparar a bebida
E é com sorriso que a inundação se torna uma torrente
Quando a árvore do algodão produz sua lã
É com sorriso que o fazendeiro faz a colheita
Ợbàtálá então sorriu
Ele declarou que mesmo que tenha sorrido
O assunto não havia deixado sua mente completamente
Ọrúnmìlà ordenou que o assunto deveria ser removido completamente de sua mente
Quando ele perguntou por que
Ele disse que o cão sempre tenta lamber a água
Ele disse, quando o coador de bebidas liquidas se enchem de água totalmente
Quando se afunda o coador, quando sai a água desce em retirada
E quando a armadilha de pesca é submergida na água, a água será removida completamente da armadilha quando ela for removida
E se uma mulher se envolve em negócios de frutos verdes de palmeira
É bastante cansativo
Ợbàtálá declarou que mesmo que todas as coisas estivessem presas em sua mente
Porém, ele disse que nunca ficaria feliz com esse assunto
Ele disse que sua mente havia se tornado um formigueiro
E suas costas estavam cheias de agulhas
Enquanto que sua parte do meio do corpo havia se tornado uma espinha
Ọrúnmìlà declarou que verdadeiramente as coisas estavam presas em sua mente.
Sua mente deveria se voltar para as folhas Òdúndún
E suas costas deveria se voltar para as folhas Tete
Enquanto a parte do meio de seu corpo deveria se voltar par as folhas rinrin.
Ợbàtálá disse que todas as coisas, realmente, haviam sido removidas de sua mente
Que sua mente havia se voltado para Òdúndún
E suas costas a Tete
E meio de seu corpo para rinrin
Aqui vem as folhas de èbùrẹ, o símbolo do perdão
Se vemos uma pessoa importante
Alguém aceitará seus argumentos
Você já aceitou as desculpas de Abe
Além das desculpas de Oko
Quando vemos uma pessoa importante
Nós deveríamos aceitas as desculpas.

Ire Àláàfíà.

Texto Ifá Dida 1
Oluwo Popoola

Tradução: Odé Ợlaigbo

sábado, 25 de março de 2017

Noção de pessoa e linhagem familiar entre os Yorùbá




Pierre Fatunmbi Verger

Comunicação apresentada no Coloquio Internacional La Notion de Personne em
Afrique Noire, Paris, 1971.
Edição do Centre National de La Recherque Scientifique, n. 544 – 1981


Introdução

 A Noção de pessoa entre os yorùbá, como inúmeras outras etnias africanas, está profundamente ligada à organização social do grupo de que ela faz parte.
A ideia de que passaremos em revista – a das almas (origens) múltiplas, a da diversidade dos nomes, a da crise de possessão pelo deus (Òrìşà) – enfatizam a dependência do indivíduo à linhagem familiar e à comunidade, que engloba os vivos e os mortos, os ancestrais próximos e remotos, que se perpetuam em seus descendentes, aos quais transmitiram seus genes.
Escreve Hubert Deschamps (1965, p. 19):
Para o africano, o isolamento é inconcebível. Sua força vital encontra-se em constante relação com a dos ancestrais e membros do grupo. A maior das calamidades consiste em ser separado dela, e assim, ser reduzido a uma existência precária, e sem proteção, votada ao nada.


Èmi, a alma, o sopro vital, e ojiji, a sombra

Afirmam os yorùbá que o corpo das pessoas foi criado e moldado no barro por Olódùmarè (Deus, ou Força Suprema). A cabeça (orí) foi moldada por Obátàlá, que recebeu de Olódùmarè o poder de criar e de talhar os olhos, o nariz, a boca, e as orelhas. Em seguida, a respiração (èmí)4, foi insuflada por Olódùmarè.
Em outras lendas, Ợbatálá desempenha um papel mais importante enquanto divindade da criação, e é designado como alábalàse (ele sugere, ele tem o poder), isto é, quando ele fala, o que propõe se torna realidade. Ele também é saudado pelo oríkì (frase de louvor) Ợbatálá Aláàse, “Ợbatálá senhor do poder” (Verger, 1957, p. 416).
As pessoas são constituídas por uma parte material, o corpo (ara), e por uma parte imaterial (èmí), a respiração, a alma, o princípio vital, o espírito. Diz-se que èmí Olójà nínu ara (a respiração é a rainha do corpo). Afirma Idowu (1962, p. 169), que “a diferença entre um corpo vivo e um cadáver, é a presença ou ausência de èmí. ”
Èmí é representada [também] por Ojiji, a sombra das pessoas. É aquilo que os fon denominam ye. Ojiji é relativamente vulnerável. Pode-se causar mal às pessoas fazendo “trabalhos” em sua sombra. “Diz-se que existem três espécies de sombra. De manhã cedinho, as pessoas têm duas, uma à esquerda e outra à direita; ao meio-dia, ela se torna uma só; às seis horas da tarde existem três.” (Verger, 1957, p. 508).
A sombra (Ojiji) é enterrada com o morto, e, decorridos três dias, transforma-se em areia, no fundo do túmulo. No nono dia, a alma (èmí) deixa-o, para tornar-se a sombra de um recém-nascido. A cada dia ocorrem, em princípio, duzentos enterros e duzentos nascimentos (duzentos é uma cifra simbólica na enumeração ioruba).



Orí, a cabeça

 A alma (èmí) pode ir para qualquer família. A cabeça (orí) retorna na mesma família, quando existe um recém-nascido. Orí reside “alternativamente” na terra (aiyé), onde a pessoa é aráiye (habitante da terra), e na região dos mortos (ợrùn), onde ela se torna ara ợrùn (habitante do além).
Entre os yorùbá, inúmeras crianças recebem o nome de Babatúnde (o pai voltou), ou de Ìyátúndé (a mãe voltou). Por ocasião de seu nascimento, elas são consideradas a reencarnação do avô ou da avó recentemente falecidos.
[…]
Orí é a sede da inteligência (ọgbọn) e recebe um culto. Todos os anos, numa cidade yorùbá, o rei, em determinada data, faz oferendas à sua cabeça (ibo orí). No dia seguinte, todos os dignitários e as pessoas que detêm títulos fazem seu próprio ìborí, e depois, seu exemplo é seguido pelos diversos chefes de família.
“Orí”, segundo William Bascom (1956), é a “alma ancestral guardiã”. De acordo com certos informantes, esta “alma ancestral guardiã” reside no topo da cabeça (àtàrí, àwùjè). Um informante de Ifé explicou a esse autor, que podia-se ver o pulso bater naquele ponto, nas crianças, e que era também de lá que o espírito (èmí) se retirava do corpo por ocasião da morte.
Segundo outros informantes, ela, a alma ancestral guardião, reside na fronte (iwájú orí) associada à sorte individual, que é uma parte do destino. O guardião ancestral também está associado à parte posterior da cabeça, o occipício (ìpàkó ợrùn), que olha para trás e para o passado. Ele protege contra o mal feito, em lugares por onde a pessoa passou certa vez.
Para evocar a ideia de alma, de espírito, de consciência, emprega-se algumas vezes o termo okàn, coração, ou o termo inú, ventre, estômago, matriz, entranhas, com a acepção de interioridade (nínú nínú). A alegria se exprime através da expressão inú mi dún (meu interior está suave, doce, delicioso, prazenteiro, agradável). São, os [bons] sentimentos experimentados interiormente.


Egúngún, as almas dos mortos

 Considera-se que a alma dos mortos volta para a terra, em certas famílias, sob a forma de Eégúngún (Verger, 1957, p. 507). Elas aparecem para seus descendentes debaixo de belos panos decorados com retalhos bordados e enfeitados com búzios e lantejoulas. Sociedades estritamente reservadas aos homens cuidam destes Eégúngún, invocando-os durante as cerimônias em que os mortos da família devem ser honrados.
Os Eégúngún, saindo do ìgbàlè, vem saudar seus descendentes com voz rouca e profunda (segi), garantindo-lhes sua proteção e prodigalizando-lhes bênçãos. Dançam de bom grado ao som dos tambores bàtá e ọgbọn. Considera-se que o contato com os planejamentos dos Eégúngún é fatal para os seres vivos, e por isso os màrìwò e os oje, membros da sociedade, os acompanham sempre, empunhando compridas varas (isan), para afastar os imprudentes. Por outro lado, considera-se benfazejo o vento provocado pelos panos, quando um Eégúngún dança, girando.
Por ocasião do funeral de um màrìwò, um oje ou um Olòrìşà (pessoa dedicada a um orixá), realiza-se uma cerimônia noturna no nono dia, quando èmí abandona seu corpo, no fundo do túmulo. Os oje e os membros da sociedade Eégúngún vão até um lugar deserto, nos confins da cidade, quebrar uma cabaça que contém certos elementos, enfatizando assim, a libertação da alma de seu antigo companheiro. Faz parte destes elementos, a água utilizada numa forja para esfriar os ferros do ferreiro, e com a qual lavou-se o corpo do defunto, dessa forma, apagando simbolicamente todas as tatuagens, diversas escarificações, cortes de cabelo e ferimentos recebidos durante a guerra. Todas estas marcas se devem a Ògún, deus dos ferreiros, guerreiros, barbeiros, agricultores e de todos aqueles cujas atividades os levam a empregar o ferro.

Ìpilẹsẹ

Ìpilẹsẹ, (aquilo que encontramos, vindos de nossos ancestrais, quando chegamos ao mundo) liga-se ao conceito de Isese. Os yorùbá declaram: Ìpilẹsẹ ẹnia ni a npè Isese, isto é, “a origem de alguém é aquilo que denominamos Isese, onde estão incluídos ao mesmo tempo, orí, a cabeça, o pai, a mãe, e Ifá.
Quando morre uma pessoa idosa, pai de muitos filhos, e tendo cumprido plenamente o que veio fazer na terra (ayé), instala-se no altar familiar uma estatueta de argila num prato branco. Junta-se a esta argila um pouco de areia do túmulo representando seu èmí, e ela é moldada sob a forma de um cone, no qual se esboçam vagos traços humanos, os quais consistem, em depressões para os olhos e a boca, e uma saliência para o nariz. É o Isese do velho defunto, ao qual se oferecem anualmente, carneiros. Diz-se que Isese é “um pouco do poder de Olódùmarè, que fica na casa”.
Isto pode ter pontos de semelhança com o “se” pessoal dos fon, que, enquanto vivem, mantém em sua casa um cone de argila, semelhante ao Isese dos yorùbá, misturado com caolim, colocado sobre um prato.
Para Bernard Maupoil (1943, p. 401), o conjunto dos pequenos “se” pessoais e imateriais [dos fon], forma o Grande Se, conceito de que o Padre Segurola (1963, p. 40) traduz por Deus, parte poderosa e essencial de um ser, espírito, princípio vital, destino, sorte.


Ifá, sorte e destino

Ifá, entre os yorùbá, Fa, entre os Fon (Verger, 1957, p. 568), é um sistema divinatório que permite ao bàbáláwo (Bokonon, entre os fon), “Pai do Segredo”, resolver para as pessoas os diversos problemas que elas possam ter. As soluções lhes são ditadas pelos signos (Odù) de Ifá obtidos pela manipulação, que obedece a certas regras, nozes de dendezeiro (Elais guineensis, var. Idolatrica). Existem, ao todo, duzentos e cinquenta e seis Odù. Cada pessoa está ligada a um deles.
No momento em que nasce uma criança, seus pais solicitam ao babalaô que procure saber qual é o signo (Odù) que rege o destino do recém-nascido. Mais tarde, este novo ser saberá quais são seus interditos e terá a revelação de sua identidade profunda.
Ifá (ou Fa) oferece a cada homem a possibilidade de saber qual o destino que marcou sua alma antes mesmo de encarnar na Terra e de prestar culto a esta alma. No que diz respeito a Ifá (ou Fa), não se trata de uma divindade compassiva. É a voz de Deus, que encerra o homem em seu determinismo.
A posse de um signo de Ifá (ou Fa) é concebida como uma aliança com uma divindade ligada pessoalmente ao aliado mortal, e satisfaz no homem, a necessidade de segurança e de certeza. Ele se torna como que um aliado íntimo, testemunha do ser que o possui (Maupoil, 1943, p. 17).




Ìpònrí, origem e destino

Ìpònrí (Kpoli, entre os fon) está ligado à origem e ao destino. É, ao mesmo tempo, o signo de Ifá obtido pelo iniciado quando ele chega à idade adulta, após realizar uma consulta na floresta sagrada (Maupoil, 1943, p. 16) e símbolo de sua “alma exterior” e de seu espírito tutelar.
Materialmente, Ìpònrí é constituído pela areia ou pó ìyèrósùn onde o signo de Ifá do iniciado foi traçado na floresta. Esse ìyèrósùn, amassado com caolim e determinadas folhas pertencentes ao signo, é encerrado num saquinho de tecido branco, decorado no exterior com contas e búzios.
Outras vezes, a cabeça, os pés e as mãos do iniciado são postas em cima desse pó. Todos os babalaôs presentes saúdam o signo (Odù) obtido, narram suas histórias (itọn), fornecem indicações sobre seu significado e sobre os interditos que ele contém. Formulam votos de felicidade ao iniciado, pegando a cada vez um punhadinho de ìyèrósùn, pondo-o aos poucos numa pequena cabaça, que será a representação material do Ìpònrí. A cabaça será colocada no altar de Ifá particular do iniciado e receberá oferendas e sacrifícios, a partir do momento que as indicações forem dadas pelo jogo divinatório.
Ìpònrí liga-se ao conceito de origem das pessoas e representa as seis gerações precedentes, pertencendo o proprietário do Ìpònrí, a sétima geração.
Este mesmo nome – Ìpònrí – é dado aos ancestrais, os quais, segundo se supõe, residem no dedão do pé das pessoas. Por ocasião das oferendas à cabeça (ìborí), são oferecidos sacrifícios aos pais ou avós falecidos. Algumas gotas de sangue dos animais sacrificados são derramadas no dedão do pé direito e esquerdo, representando a alma do pai (ou do avô) e da mãe (ou da avó), se acaso já morreram. Os espíritos dos ancestrais, assim evocados, estarão presentes na cerimônia, sendo saudados pelo oríkì Ìpònrí (Bascom, 1956, p. 408), isto é, por saudações e elogios feitos ao mesmo tempo a esses ancestrais, e por direito de filiação, à pessoa que faz oferendas à sua cabeça.
Bolaji Idowu (1962, p. 171) propõe a etimologia ìpín orí para Ìpònrí, com o significado de “escolha da cabeça”.


Orírun, a origem da cabeça, e ìwọ, o cordão umbilical, a placenta

Existe uma relação entre Ìpònrí, orírun, [ambos origem da cabeça], e ìwọ, o cordão umbilical. O ìwọ, após o nascimento é colocado num pote (iṣasun) e instalado no quintal, a fim de que orírun fique num lugar fresco, não muito distante da casa, e ali se planta um dendezeiro. A criança, ao alcançar a idade adulta, sempre cuidará dele com muita dedicação.


Àiyalé, o peito da casa

Nas regiões yorùbá, no lugar situado diante da residência, encontra-se um ponto denominado àiyalé (o peito da casa) ou ìjoriwolè (encontro com os mortos da terra). É ali que se fincam os osun (asen, entre os fon), feitos de hastes de ferro ornamentadas, que formam altares portáteis, com a finalidade de prestar culto aos mortos. É nesse lugar que os vivos “encontram os mortos da família para adorá-los”. Ele, em geral, é rodeado por plantas, àkókò (dracaena fragrans), ou Ológùnsesè (erythrina senegalensis).
Diante do templo dos Òrìşà, ele [osun] recebe o nome de idomosun. Durante as cerimônias, os deuses encarnados nos Olòrìşà vem por diversas vezes saudar ritualmente os osun, ali fincados [como altares móveis] para representar a alma dos Olòrìşà falecidos.
Nas casas, entre os yorùbá, o culto aos mortos se realiza no ilésein, onde estes últimos são representados por potes colocados sobre uma bancada de terra. Fileiras de búzios pendem sobre eles, e um isan (vara de atori, glyphea lateriifolia) fica encostado na parede. Entre os fon, o culto é feito no dehoho, onde são fincados os asen. Ali se oferecem libações [ocasionais] aos mortos.


Diversidade dos nomes

A identidade das pessoas é definida pelos nomes. Eles assumem um valor particular, em sociedades baseadas na oralidade, nas quais se atribui grande poder à palavras. Em tais sociedades, as palavras são consideradas verdadeiras locuções encantatórias, dotadas de poder e capazes de influenciar o futuro.
Veremos a seguir, como os nomes de uma pessoa são ligados aos nomes de seus ancestrais, nas regiões yorùbá, outrora ágrafa.
Os yorùbá recebem três nomes a quatro nomes (Johnson, 1921, p. 79), e, pelo menos, três deles são indispensáveis, sendo o primeiro, facultativo.


Orúkợ amúntòrunwa:

 É o nome trazido do além pela criança, quando circunstâncias particulares de seu nascimento, podem ser exprimidas por meio de um nome aplicável a todas as crianças, nascidas nas mesmas circunstâncias. Entre eles, citem-se:
Táíwo e Kéhìndé – nomes dados aos gêmeos.
Idowu – criança que nasce depois dos gêmeos.
Igé – crianças que nascem pelos pés.
Ojo – meninos que nascem com o cordão umbilical em volta do pescoço
Àìná – idem, para as meninas.
Dada – crianças que nascem com cabelos encaracolados.


Orúkợ àbíso

São nomes baseados em considerações relativas à própria criança e relacionado com a situação da família no momento do nascimento. Samuel Johnson (1921, p. 79) classifica os àbíso em:
a) Nomes que se referem diretamente à própria criança, e indiretamente à família.
Para os meninos:
Ayòdélé – a alegria entra na casa.
Akínyele – um menino enérgico convém à casa.
Para as meninas:
Moréniké – tenho alguém a quem acariciar.
Etc.
b) Nomes que se refere mais à família do que a criança.
Ogúndalénù – nossa casa foi devastada pela guerra.
Òtègbèyè – os inimigos privaram-nos da honra.
Olábisi – a honra aumentou e etc.
c) Nomes compostos com Adé (coroa), Olú (chefe) e Oyè (título), denotam que a criança pertence a uma família principesca ou titulada.

Adébíyìí – foi a coroa quem o fez nascer.
Oyéyémi – o título me convém e etc.
d) Nomes que carregam um nome de Orixá, indicando que a família o cultua.
Sàngóbùnmi – Sàngó deu-o para mim.
Òsuntókí – vale a pena louvar Òsun
Ogúndípè – Ogún, console-me com este aqui.


Oríkì

É um nome qualificativo, indicando as características da criança, ou aquelas que lhe são desejadas para o futuro.
Nos oríkì dos meninos se fazem pequenos conceitos de valentia e força:
Àjàmú – aquele que se apodera após a batalha
Àjàní – aquele que possui, após a batalha
Alào – aquele que divide e esmaga
Os oríkì das meninas evocam ternura e graça:
Ayòká – aquela que cria alegria à sua volta
Àbèbí – aquela que nasceu após súplicas
Os pais chamam frequentemente os filhos por seus oríkì, mas seria considerado, grave falta de etiqueta e inconcebível grosseria, se uma criança chamasse seus pais pelos oríkì deles.


Orílè

Não se trata de um nome propriamente dito. O orílè indica a origem longínqua da linhagem familiar e tem uma importância muito grande para situar o “pedigree” de alguém.
Quando são enunciados, o orúkợ, o oríkì e o orílè de uma pessoa, ela é identificada, e sua família se torna conhecida. Estes orílè são, e, geral, nomes de animais: Erin (elefante), Ekùn (leopardo), Òkín (garça); ou de objeto: Òpó (mastro).
Cada um destes orílè possui compridos oríkì (saudações de louvores), cujo sentido algumas vezes permanece obscuro (Verger, 1965, p. 239). As mães os recitam para seus filhos, as mulheres da casa saúdam, por meio deles um parente distante da família, que está de visita; ou os Eégúngún enuncia-os, com sua voz roufenha, quando cumprimenta seus descendentes durante as cerimônias realizadas para evocá-lo.


Òrìşà e Vodoo

Além dos ancestrais diretos da família, os yorùbá cultuam os Òrìşà (Vodoo para os fon), seus ancestrais longínquos, cuja lembrança se perdeu mais ou menos na noite dos tempos e cujo caráter divino é mantido sobretudo por seus descendentes atuais.
Retomando o texto de certos autores, recordemos que, confirmando tal ponto de vista, Le Hérissé (1911, p. 97) declara que “todos os vodoo são os ancestrais maravilhosos das tribos que contribuíram para a formação do Daomé”.
Leo Frobenius (1913, p. 54), escreve que “o sistema religioso dos yorùbá baseia-se no conceito de que cada pessoa é o representante do deus (Òrìsà) ancestral. A filiação se dá pela linha masculina. Todos os membros de uma mesma família são posteridades de um mesmo deus”.
Bernard Maupoil (1943, p. 57) confirma que “entre essas divindades, parecem ser numerosas aquelas que viveram outrora na Terra: o elemento terrestre e o celeste se reconhecem melhor um no outro, e semelhante crença exprime a secreta e recíproca nostalgia que parece inclinar os vodoo a se tornarem novamente humanos, e os homens a se elevarem ao nível do conhecimento ou ao exercício das coisas divinas”.
William Bascom (1956, 408), afirma que “um orixá é uma pessoa que viveu na Terra quando esta foi criada, em tempos primordiais, e da qual descendem as pessoas de hoje.
Quando tais Òrìşà desapareceram, seus filhos começaram a oferecer-lhes sacrifícios e a dar sequência a todas as cerimônias que eles mesmos realizaram quando se encontravam na Terra. Esse culto passou de uma geração a outra, e hoje um indivíduo considera o orixá que ele adora, o ancestral do qual ele descende.
Diferentemente dos mortos da família, os Òrìşà (e vodoo) manifestam-se aos seres humanos por meio de transes de possessão em alguns de seus descendentes, eleitos pelos deuses para lhes servirem de médiuns. São os Olòrìşà. Bernard Maupoil (l943, p. 53) acrescenta que “o caráter essencial da divindade (òrìşà ou vodoo) parece estar na propriedade que ela tem de apoderar-se da sua cabeça: vodoo wata tiwe me – vodoo vem na sua cabeça”.
A possessão pelo deus durante as cerimônias celebradas para os Òrìşà e vodoo, coloca admiravelmente em evidência a estreita ligação que existe entre a pessoa yorùbá (ou fon) e seus ancestrais.
O Olòrìşà em estado de transe, exibe em seu comportamento as características possuídas por esse ancestral (orixá ou vodoo), e cujos genes ele carrega, por intermédio da hereditariedade.
As circunstâncias da existência e as pressões da organização social do meio à que ele pertence “facilitaram o predomínio de certos genes, acentuados por uma ou outra paternidade” (Aucher, 1968, p. 65), em detrimento de alguns outros genes, com os comportamentos que daí decorrem.
A iniciação permite a alguns dentre esses genes, que a pessoa tem escondidos (o ancestral orixá), manifestarem-se e revelarem-se diante de todos. Nesse outro estado [alterado de consciência], nada existe que seja alheio à natureza profunda do Olòrìşà. A iniciação exerce sobre ele um efeito comparável à de certas drogas.
Sabemos que “nenhuma droga introduz uma nova função no organismo, mas que ela simplesmente acentua, inibe ou modifica de certo modo funções já existentes” (Seymour, 1961).
Pode-se pensar que, por ocasião da iniciação, banhos e beberagens à base de plantas dadas aos noviços contenham drogas. Elas [as beberagens] se destinam não tanto a fazer os iniciados entrar em transe, [mas sim] provocar um estado de torpor, durante um longo período (alguns meses), tempo os quais os noviços são “treinados para adquirir os reflexos condicionados”, tais como o de entrar em transe ao ouvir certos ritmos de tambores, e então se comportar como o ancestral. Tal comportamento, no fundo seria apenas um dos aspectos de sua própria personalidade, de certa maneira, “acentuada, inibida ou modificada”, para chegar àquela personalidade que eles carregavam em si, em estado latente.
Em outras palavras, conforme a pessoa esteja em estado de vigília ou transe, ela representa alternativamente sua personalidade atual ou a de seu ancestral (Verger, 1954, p. 338).

Pierre Verger

Comunicação apresentada no Coloquio Internacional La Notion de Personne em
Afrique Noire, Paris, 1971. Edição do Centre National de La Recherque Scientifique, n. 544 – 1981
Publicado em: Saída de Iaô, cinco ensaios sobre a religião dos Òrìşà – Pierre Verger, Organização de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Fundação Pierre Verger
Editora Axis Mundi, 2002.
Tradução:
Carlos Eugênio Marcondes de Moura

Transcrição: Luiz L. Marins

quinta-feira, 2 de março de 2017

Owe - Continuação

Se não importa onde você vai, de qualquer maneira, o caminho não importa.



Comentário:
O culto do Òrìşà é baseado na crença profunda de que cada pessoa que nasce no mundo escolhe um destino pessoal.
Esta crença é uma extensão da crença em àtúnwá a palavra yorùbá para a reencarnação.
A tradução literal de àtúnwá seria a pessoa nasce de novo.
Entre as encarnações do Ẹmí Ợrùn.
A emissão da palavra significa viver, a respiração é o termo usado para descrever a essência de Ifá dentro de uma pessoa, ou o que é conhecido no ocidente como a alma.
A palavra Ợrùn refere-se ao reino invisível dos antepassados. Quando Ifá fala de antepassados ​​não é apenas se referindo aos humanos que morreram; antepassados ​​incluem os passos que levam à existência humana.
Durante este período de espera, o emitente escolhe o destino que você quer experimentar durante a próxima vida. Ifá ensina que os detalhes desta eleição são esquecidos durante a viagem através do “Rio Azul” canal do útero. Quando alguém viaja é assistido pelo Òrìşà e sempre estará baseado na suposição de que o Òrìşà guiará o destino escolhido.
Ifá é baseado na crença de que viver em harmonia com o destino traz as bênçãos de abundância, vida longa e filhos.
Para dizer que não importa onde você se vai, sugere que não há crença no destino, nenhuma crença no poder do Òrìşà e nenhuma preocupação para o desenvolvimento do bom caráter. Na cultura yorùbá tradicional, a falta de crença no destino, sem Òrìşà e bom caráter é quase impensável.

Ifá ensina que quem está em tal estado de ser, vai vagar sem rumo pela vida, sem nunca chegar a lugar nenhum.

Ire

Por: Áwo Falokun Fatunmbi
Tradução: Odé Ợlaigbò