sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Abraçando o Sofrimento

Por: Sobonfu Somé, de Burkina Faso

Tradução: Odé Olaigbò

Entregar-se à sua tristeza tem o poder de curar as mais profundas das feridas. Para muitas pessoas o luto é uma opção. Olhando para minha própria vida, eu percebi que é uma questão de vida e morte. Na verdade, ao longo da minha vida, o luto tem sido um tema importante, desde chorar por comida como uma criança, ou lidar com a dor profunda de perdas enquanto eu crescia e perdia meus mais velhos. Minha primeira lembrança de profundo luto foi quando eu era uma menina, cerca de 5 ou 6 anos de idade.
Quando um dos meus companheiros morreu. Fiquei tão chocada e confusa com todo o acontecido, especialmente quando me disseram que eu nunca mais iria vê-lo em sua forma física novamente. Eu sofri por um longo tempo e ele não saía de minha cabeça, afinal meu amigo tinha morrido. Todos os dias eu tentava ir brincar com ele, eu tinha a esperança de brincar com ele, mas ele não estava lá.
Minha aldeia me dizia gentilmente:
Você se lembra que ele morreu?
E eles me apoiaram e sofreram comigo. Embora eu tenha sofrido por um longo tempo, durante um ano, esse sofrimento foi aceito como uma parte normal da minha vida.
Nunca fui perguntada:
Você ainda não terminou de luto?
Pelo contrário, eles diziam:
Você já sofreu o suficiente?
Já chorou o bastante?
Para o meu povo, a tribo Dagara de Burkina Faso na África Ocidental, vemos que na vida é necessário lamentar as coisas que já não nos servem e depois deixá-las ir. Quando me entristeço, sei que estou cercada por uma família que me assegura que o luto vale a pena e posso afligir-me tanto quanto desejo. Experimentamos conflitos, entes queridos morrem ou sofrem, os sonhos/desejos nunca se manifestam, as doenças ocorrem, os relacionamentos se rompem e há desastres naturais inesperados. É muito importante conhecer maneiras de liberar essas dores para manter a limpeza de nós mesmos. Pendurar a velha dor só faz crescer, até sufocar, nossa criatividade, nossa alegria e nossa capacidade de se conectar com os outros.
Pode até nos matar!
Muitas vezes minha comunidade usa rituais de dor (aqui vemos um ritual interno que é ministrado por um especialista, comumente chamado de Oluwo Olori) para curar feridas e nos abre para o chamado do espírito.

Eu pensei que essa perspectiva sobre a dor fosse natural para todos, até que eu vim para os EUA. Eu estava com uma amiga que estava tendo um conflito com sua família e eu sabia que a situação não era fácil para ela. Mas um dia eu a ouvi sozinha no banheiro chorando!
Eu disse, através da porta:
Você está bem?
Ela disse:
Sim, estou bem!
Eu disse a mim mesmo:
Oh meu Deus, algo não está bem aqui.
As pessoas que deveriam apoiá-la não estavam lá.
Eu me senti em conflito e me perguntei o que minha avó faria nessa situação?
Eu estava na minha adolescência quando minha avó morreu. Eu fui dominada por uma dor devastadora que eu não conseguia me livrar dela. Eu estava presa no sentimento de raiva, traição e até ódio.
Eu me perguntava:
Como minha avó poderia fazer isso comigo?
Quando eu sofri, todo mundo estava sofrendo ao meu redor. Embora eu não quisesse me juntar a eles, eles reservaram um espaço para mim. Todo mundo se revezava, eles cuidam uns dos outros quando se sofre.
Felizmente, os três dias de luto habitual foram esticados para mais de cinco dias. Quando o tempo terminou, eu ainda tinha muito a chorar e as pessoas ainda estavam lá para mim.
Embora meu luto tenha durado todo esse tempo, não houve descontentamento daqueles que estavam em torno de mim. É natural que as pessoas ao seu redor comecem a sofrer quando você sofre. Sabemos que quando você tem uma dor não é uma dor pessoal, é uma dor de todo o grupo. Experimentamos uma partilha coletiva, de modo que um indivíduo não precise suportar todo o peso do sofrimento.

Muitos anos mais tarde, enquanto nos Estados Unidos, eu tive uma crise de relacionamento. Senti como se estivesse morrendo. Eu percebi que estava me sentindo sozinha em meu pesar com a minha alma, coração e mente colidindo continuamente. Eu não estava acostuma a dar uma explicação intelectual ao meu sofrimento. Eu encontrei um grande alívio nas várias comunidades daqui e quando cheguei em casa todo mundo se juntou a mim na dor repentina, então, eu me senti mais leve.

Há um preço em não expressar o seu sofrimento. Imagine se você nunca lavou suas roupas ou tomou banho. As toxinas que seu corpo produz apenas a partir da falta de assepsia diária seria construir um odor muito forte. Isso é como as toxinas emocionais e espirituais também atuam em você. O que devemos lembrar é que, quanto mais essas toxinas aumentam, mais tendemos a culpar ou prejudicar os outros à nossa volta. As pessoas nunca prejudicam os outros por alegria, elas espalham dor aos outros porque também estão feridas ou com dor.

Pode haver tanta tristeza que ficamos entorpecidos pelas emoções não sentidas e não expressadas que carregamos em nosso corpo. A dor não expressada prejudica nossa alma e pode estar ligada diretamente ao nosso senso geral de seca espiritual e confusão emocional, para não mencionar as muitas doenças que experimentamos em nossas vidas.
Muitos de nós sofre por problemas médicos que estão relacionados com o luto. O sofrimento, seja privado ou comunitário, tem muitos benefícios para a saúde que são cientificamente comprovados, desde a redução da pressão arterial e os riscos de ataques cardíacos até simplesmente ter uma melhor qualidade de vida.

Precisamos começar a ver a dor não como uma entidade estrangeira, como um alienígena a ser preso ou enjaulado, mas como um processo natural. Como uma encomenda que é endereçada a alguém e também devemos entender que é saudável para alguém expressar sua dor.

No mundo de hoje, a maioria de nós carrega uma tristeza e nem sequer sabe disso. Nós fomos treinados em uma idade muito jovem a não senti-la. No Ocidente, muitas vezes nos ensinam que, para sermos boas meninas e meninos, temos de "engolir isso".
As consequências são que, mesmo com seus amigos mais íntimos e confiáveis, você pode sentir como:
Estou sobrecarregando-os.
Por muitas vezes é um fruto proibido.
Aprendemos a compartimentar nossa dor porque expressá-la em um lugar não acolhedor só levará a mais sofrimento. Somos ensinados que as pessoas que estão mais próximas de nós não têm como nos segurar quando nos desmoronamos.
(Acrescentaria que poucas pessoas estão interessadas na sua vida ou nos seus problemas, todos têm olhos somente para sua individualidade, nota do tradutor).

No entanto, nascemos plenamente sabendo como sofrer. Choramos naturalmente para nos sentirmos melhor, para nos livrarmos de nós mesmos e tirar alguns quilos de nossos ombros e almas.
Se houvesse uma maneira para que todos pudessem se afligir abertamente, eu acredito que também diminuirá a culpa e a vergonha que brota entre as raças. Quando você está na presença de alguém que está sofrendo, você não vê cores, é uma linguagem universal. Estamos todos com dor. Não há necessidade de culpar os outros. Culpa, vergonha e dor são incapazes de expressar nossa dor corretamente.
Como podemos fingir ser felizes, pacíficos e amorosos quando temos tanta dor e sofrimento?

Acredito que o futuro de nosso mundo depende muito da maneira como lidamos com nossa dor. Expressões positivas de nossa dor ajudam na cura. No entanto, a falta de expressão do nosso pesar ou a sua libertação imprópria é o que está na raiz da infelicidade geral e depressão que as pessoas sentem e que tudo isso pode levar à guerra e crimes.

Há coisas que podemos fazer em sociedade para ajudar a curar as pessoas. Eu vi isso em diferentes comunidades nos Estados Unidos e funcionou. Templos podem ter espaços onde as pessoas possam externar suas dores.


O sofrimento comunal (da maioria) oferece algo que não podemos obter quando nos entristecemos sozinhos. Através da validação, do reconhecimento e do testemunho, o sofrimento comunal nos permite experimentar um nível de cura que está profundamente sendo liberado. Cada um de nós tem o direito humano básico a esse amor genuíno,  a felicidade e a liberdade.