sábado, 9 de abril de 2016

Òşún é multifacetada

Dedico este trabalho a todos os nossos belos negros (as) e pardos (as) irmãos (ãs) de toda a diáspora. Nossas mães, que trabalharam incansavelmente, que sofreram em silêncio, que levaram um povo em suas costas por 400 anos. Òşún pode inspirá-lo para mantê-lo em movimento, com confiança e energia positiva, quando você olha para o seu irmão, você se vê e você ama a si mesmo.
Eu e todos os irmãos amamos, nossas irmãs, nossas mães.
Àse.

Louvor a Deusa do Mistério
Espírito que me limpa de dentro para fora
Louvor a Deusa do rio
Espírito que me limpa de dentro para fora
Louvor a Deusa da Sedução
Espírito que me limpa de dentro para fora
Mãe do Espelho
Espírito que me limpa de dentro para fora
Mãe da Dança
Espírito que me limpa de dentro para fora
Mãe da Abundância
Nós cantamos seus elogios.
Àse.


Ìbà Òşún

A filha de Ifè, onde o sol nasce.
A mãe que dá presentes em abundância
O suave coração
A fonte de água
A filha de Ìjeșá
A água a quem o rei se prostra para receber um presente.

A maioria das pessoas, quando pensam em Òşún, pensam nela como uma deusa do rio ou uma deusa da fertilidade, "A Vênus Africana”.
No entanto, ela é muito, muito mais do que isso. Òşún é o ponto central para o pensamento yorùbá e seus costumes.
Seu poder é multidimensional.
A palavra Òşún significa "fonte". Que vem da frase: "Ori sùn." A fonte de um rio, de um povo, de crianças, de riqueza, de vida. Òşún representa a fonte perpétua de renovação da vida. Como o poder Elemental da água, é ela que torna a vida possível.
Òşún dá o filho e cura com o poder da água. Ela é o "rio azul" (o período da gestação), o canal de nascimento. O que algumas pessoas se esquecem, é que Òşún também é o proprietário do Ẹẹ́rìndínlógún, 16 cowries de adivinhação. Ela é também a fonte e o poder político, como líder da Àjé '(as Mães, Ìyàámi Òsòròngà). Como tal, ela é uma das fundadoras da Sociedade Ògbóni, o conselho de anciãos que concedem realeza. Como Èşù, ela pode mudar à vontade.
Ela pode ser a loquaz e linda jovem que consegue flertar e matar você com gentileza ou a mulher de idade, mortal e séria, proprietária do "olho espiritual" (poder místico), ela pode ser rica ou pobre, amorosa ou vingativa. Ela é a Mãe Benevolente e a guerreira feroz. Ela cura com suas águas frias e destrói indiscriminadamente com inundações furiosas. Ela é a criadora das crianças, a que concede fertilidade, porém, ela também é a líder de espíritos vingativos, mas não vai atingir qualquer criança com a queda de um chapéu. Ela é defensora feroz de seus filhos (sacerdotes e sacerdotisas).
Ela chora quando ela está feliz, e ri quando está triste. Para acentuar suas naturezas duais (o yorùbá é intenso em suas dualidades, polaridades e etc.), Òşún carrega um leque de bronze (Abèbe) em uma mão e um cutelo de bronze na outra. Força e compaixão, bronze e mel.
Em Lucumi/Candomblé, existem caminhos diferentes ou estradas de Òşún. Estas são indistintamente diferentes tipos de Òşún, cada uma com suas próprias narrativas, rituais e músicas. Há Òşún Yèyé Moro, a bela dançarina, Òşún Olo lodi, a adivinha, Òşún Ibú Kolé, o falcão-poderoso (Àjé) e etc., mas só há uma Òşún, um Òrìsà, dinâmico e multifacetado.
Na Nigéria, o Òrìsà serve como o elemento que une a comunidade. Cada vila ou cidade tem uma narrativa fundadora que inclui o Òrìsà fundador, fatos entrelaçados, mitos e metáforas. Estes mitos históricos criam uma "nave comunidade", que é tão forte quanto o sentido maior de cidadania. Ìjeșá que fica em no estado de Òşún, Nigéria, é o centro do culto de Òşún. É o lugar do maior festival anual de Òşún. As pessoas vêm de todo o mundo para participar e ser abençoado e/ou curado pelas águas sagradas do rio Òşún, na cidade de Ọșogbo.
No mito histórico de Ọșogbo, diz-se que um príncipe (Ola róyè) de Ilesa, saiu para fundar uma nova cidade devido a uma escassez de água em Ilesa. Ele partiu com o amigo dele, um caçador chamado Timehin e levou o grupo expedicionário em busca de uma fonte de água. Eles vieram até o rio Òşún. Para não entrar em uma longa história vamos encurtar: Eles se estabeleceram ali com a benção e proteção (ela sozinha colocou para correr os Tápà invasores, guerreiros do norte) de Òşún.

Òşún, como o líder das Àjé (Ìyàámi), está muito envolvida na política da realeza. A coroa do rei é encimada por um pássaro, símbolo das Elẹyẹlé, as proprietárias dos pássaros, a Àjé. O Obá tem normas a seguir, a critério destas Mães e seus olhos vigilantes. As magias que ativam a potência espiritual do rei, seu àse, são colocadas dentro da coroa. Diz-se que estas magias são tão poderosas que a simples visualização delas poderia cegar uma pessoa. Um pedaço de seu Oríkì ilustra sua masculinidade, coragem e bravura onde mostra sua dupla natureza de mãe benevolente (Òşún é um Òrìsà bondoso como Ợbàtálá, Ọsányìn e etc., ao contrário dos Òrìsà gun como Ògún e Şàngó) e punitiva como um guerreiro:

Muitos Odù falam de Òşún como a Mãe Benevolente, que dá dinheiro e riquezas as pessoas. Um destes exemplos pode ser encontrado no Odù Ìrẹtẹ Ọbàrà.

Òşún tinha ido a um sacerdote de Ifá muito pobre chamado Ojiyaomegun quando ela não tinha filhos. Ojiyaomegun trabalhou e tornou possível para ela ter filhos. Òşún queria recompensá-lo e os seus dois aprendizes, Ifọn Sacerdote de Ifá de Ido e Duuru, sacerdote de Ifá de Liki. Então, ela pegou dinheiro, contas e roupas caras para Ojiyaomegun e seus aprendizes, mas Ojiyaomegun não estava por perto. Ela esperou muito tempo, mas ele não apareceu. Então, ela deixou os presentes com os aprendizes e foi para casa. Ela ordenou a seus empregados a cavarem um buraco profundo (ao longo da margem do rio), e colocar os presentes de Ojıyaomegun.
É por isso que temos um oríkì que contém estas palavras:

Òşún, a Deusa que usa coroa com a plumagem fantástica do pavão.
Deusa do rio
Salve Òşún mãe benevolente
Ela, que cava e escava a areia,
E mantém o seu dinheiro lá (para ela e seus filhos)
Oh Mãe querida, você que cuida das crianças com bronze (riquezas).
Sábia, proprietária do bronze que nunca dorme (energia eterna).
Você vive com sabedoria e a dá livremente (através do Ẹẹ́rìndínlógún)
Òşún, por favor, dê-me o meu próprio dinheiro.
Não enterre meu dinheiro na areia.
Oh! Obrigada querida Mãe!

Na invocação de abertura acima para o festival de Òşún pelo Ọba, uma das estrofes diz:
"Somente Òşún pode moldar meu Ori”.
Sabemos que Àjàlá Mòpin é o modelador de cabeças e que ele trabalha com Ợbàtálá na moldagem dos seres humanos, de que modo este Oba é referido?
Òşún fornece a água que Ợbàtálá (e Àjàlá Mòpin) usam para alisar a argila com as quais ele molda os seres humanos. A tradicional ocupação de Òşún é trançar os cabelos, que é uma marca de honra do Orí. O estilo do cabelo frisado de Òşún é semelhante ao padrão tecido para a confecção do Ilè-Orí, casa de Ori, uma estrutura coberta de búzios que serve como ìgbà Ori. A estrofe do oríkì:
"Òşún é proprietária do pente de cabelo que frisa o cabelo de mulheres bonitas" isto é alusivo ao Orí. Este aspecto de Òşún é muitas vezes esquecido, mas é importante para seu papel como proprietário dos 16 cauwries usados na adivinhação (Ẹẹ́rìndínlógún, ou Dilogun), e da eficácia do ebo (sem o consentimento de Orí nenhuma divindade pode abençoar uma pessoa).

Odo gbogbo l’agbo
Todos os rios são medicamentos de Òşún.

Ợbàtálá modela o corpo, Àjàlá Mòpin modela a cabeça, Òlódùmarè fornece a respiração (Emi). Òşún fornece a água. Sendo assim Òşún é parte integrante da criação humana. O ìgbà de Òşún contém pedras (ota Òşún) do rio Òşún. Ao lado do ìgbà existe um jarro especial para as águas que são apanhadas de madrugada (antes que alguém chegue lá) em uma nascente e que contém uma de suas pedras. Esta água é chamada de Agbo e é usada para a cura, a fertilidade, a segurança, sucesso, proteção, progresso e etc.
Na Diáspora usamos este oríkì de um Ẹsẹ Odù para invocar o espírito de Òşún nas águas.

Aquele que inesperadamente vem ao mundo
Será admitido pela água.
Aquele que lentamente vai voltar para o céu
Será recebido pela água.
É com a água que tomamos banho.
É a água que bebemos
Ninguém faz um inimigo com a água.
Àse.

No itọn abaixo do Odù Òsétúrá, somos apresentados ao poder real de Òşún. Quando Òlódùmarè enviou os primeiros Irunmọlẹ (força tarefa de Deus) para a Terra, ele enviou 16 homens e o Òrìsà Òşún. De acordo com as instruções de Òlódùmarè, eles começaram a criar o mundo, mas eles não incluíram Òşún, em qualquer uma de suas atividades. O resultado foi que tudo o que fizeram foi um fracasso total. A chuva não caiu, as mulheres ficaram estéreis, a doença prevaleceu, houve amargura e inquietação em todo o mundo. Os 16 Òrìsà masculinos voltaram a Òlódùmarè para descobrir o que estava acontecendo. Eles disseram que estavam vivendo na Terra, de acordo com as instruções de Òlódùmarè, mas nada que eles fizeram foi bom.
Òlódùmarè perguntou a eles se haviam incluído Òşún em tudo que estavam fazendo. Eles disseram que não, eles não haviam se preocupado com ela, afinal, ela era apenas uma mulher.

Òlódùmarè ni Dànidàni l’oun, oun e dání lee mèjì.
O ni e padà sóhùún, o ni e ree be e, ko maa yin l’ọwó si nkan. O ni gbogbo nnkan yin o si maa gun.
Ela disse:
E maa be ori yin ateledaaa yin pe Òyun ti n be ninu oun yii, koun o bi I l’ọkùnrin, nnkan yin oògùn. Amo tòun ba bi l’òbínrin, e Kangun.

Òlódùmarè disse que ele é o Criador, mas ele nunca iria criar qualquer pessoa ou coisa duas vezes.
Ele disse a Ọrúnmìlà para voltar aos seus colegas e que todos eles deveriam implorar pelo perdão de Òşún, para que ela concordasse em se envolver em seus assuntos.
Ele assegurou-lhes que os assuntos, então, teriam bom andamento.
Assim, os 16 Òrìsà masculinos foram a Òşún e imploraram por perdão, mas ela não cedeu até que Ọrúnmìlà fez seu apelo pessoal.
Ela disse:
Comece a pedir a seu Ori e ao seu Criador, para que o feto que está em meu ventre seja uma criança do sexo masculino.
Ela garantiu que se fosse uma criança do sexo masculino, as suas questões a partir de então seriam uma linha reta (sem obstáculos), porém, se fosse uma criança do sexo feminino, a guerra iria começar a sério.
Ợbàtálá usou seus poderes para espiar o ventre de Òşún e viu que era uma menina. Ele (Ợbàtálá é andrógino) apontou o àsúre ado em seu ventre e ordenou a mudança de sexo do feto para um macho. Òrìşànlá foi o primeiro a segurar o bebê quando este nasceu. Então Ọrúnmìlà o pai, levou o bebê e chamou-lhe Òsétúrá, que se tornou o Odù Òsétúrá, o Odù que dá o àse e é usado para se invocar Èşù.
Eles disseram:
Se alguém estiver pilando inhame sem o conhecimento de Òşún, seu inhame não será bom. Se alguém está preparando oka sem envolver Òşún, o oka não vai sair bem.
Vamos envolver Òşún em tudo que fazemos. Vamos envolver Òşún em todas as nossas deliberações.

Nossa Grande Mãe, que deve estar presente em cada deliberação importante.

Nós envolveremos Òşún em todas as deliberações
Foi lançado Ifá para Òşún Sengesi
Proprietária do pente de cabelo decorado com iyùn
Quando ela estava em um lugar secreto
Ela estragou o ebo de outras divindades
Que estavam realizando ebo.
Sem envolver o proprietário do ebo?
Òşún, cujo outro nome é Ẹwùji,
Estamos todos de joelhos
Estamos todos implorando
Todos nós estamos ajoelhados e prostrados diante da mulher.
Todos nós nascemos das mulheres
Antes de sermos reconhecidos como seres humanos,
Àse.

Nada se move sem Òşún!
Ore yèyé O!
Ògún não pode sequer começar seu trabalho evolutivo sem Òşún.

Òşún completa o princípio feminino e masculino no universo. Òşún é a beleza estética, um lembrete das maravilhas da criação e tudo o que é bom no universo. Òşún, a deusa da fertilidade, protetora das crianças, curadora, a calma, doadora de riqueza.
Òşún como líder da Ìyàámi, é o potencial da destruição. Ela pode destruir a "noite", com o incrível poder das Ẹléyẹ, ou durante o "dia", com o incrível poder do dilúvio. Òşún como guerreira feroz, defensora do seu povo, líder de revoluções e revoltas.
A Deusa da Água, a fonte perpétua da renovação da vida. Òşún transforma através da água e através do "canal azul", o mistério do nascimento.
Òşún palavra que vem de Ori sún "A Fonte".
Òşún é a personificação do poder místico das mulheres, o poder real dentro da cosmologia yorùbá.
A capacidade de controlar as forças físicas e espirituais, criar a vida através da procriação e do sustento à vida, estes atributos são considerados o poder supremo na cosmovisão Yorùbá. É esse poder secreto, que os homens nunca puderam entender e que levou os homens a tentar controlar as mulheres ao longo dos tempos.
É o poder de Ìyàámi.


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