terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Sociedades Secretas

A Sociedade Orò

O Culto a divindade Òró é antiquíssimo e secreto, surgiu quando da fundação de Kwara State na Nigéria, esta Sociedade Secreta foi elaborada através de Ìjímèrè o macaco vermelho. O Culto a Òró é tido como mais proeminente e importante que o próprio Culto de Egúngún devido as suas atribuições. Os membros desta Sociedade Secreta eram os aplicadores da justiça capital imposta aos infratores condenados pela Sentença proferida pela Corte da Sociedade Ogboni. É sabido que quando ele sai à rua pela noite, os não iniciados devem permanecer trancados em suas casas sob o risco de morte. Em Ọyọ o povo Require e Jabata, são aqueles que adoram a divindade Òró. Anualmente se realizam festivais que tem a duração de sete dias para que se faça a sua adoração, neste período as mulheres e os não iniciados trancam-se em suas casas, excetuando-se alguns momentos diurnos onde se permite sua saída as compras de mantimentos, más isso não ocorre no sétimo dia, quando então é expressamente proibida a circulação de todas as pessoas alheias ao Culto, sob pena de execução sumária, não importando seu status social ou qualquer justificativa. Para chegar a entender o conceito do que para os Yorùbá representam as sociedades secretas, devemos entender que estas chegaram a semear o terror em épocas passadas. Em realidade, o poder estava menos nas mãos dos reis e anciãos, do que de numa Sociedade secreta poderosa, cujos emissários se ocultavam embaixo de máscaras, o que lhes permitia conseguir sem resistência alguma o que desejavam. A sociedade secreta Orò, chegou às mãos dos homens através do seguinte raciocínio:
Olódùmarè, o deus criador, deu à primeira mulher, Odù, a capacidade de deleitar-se com a vida. Não obstante, ela fez mal uso deste poder, e todos os que a olhavam na face corriam o perigo de acabar cegos.
Ợbàtálá se dirigiu então a Orunmila, o deus das profecias, este lhe aconselhou a través do Oráculo de Ifá que tivesse paciência.
ODÙ pediu a Ợbàtálá que fosse a sua casa viver com ela e visse o que fazia. Um dia Ợbàtálá ofereceu como sacrifício alguns caracóis (ìgbìn). Ele comeu a baba de um deles e ofereceu também a Odù. A mucosidade do caracol abrandou o coração de Odù, de forma que Ợbàtálá pode conhecer todos seus segredos, incluído o da sociedade Orò e Egúngún. Deste momento em diante, estas sociedades, estão em poder dos homens. Odù recomendou buscar a benevolência e a aceitação das mulheres para que estas seguissem sendo mães. Assim se fez e os homens tiveram poder sobre as mulheres, porém estas tiveram em suas mãos o poder sobre a vida. Se não tivesse sido assim, não haveria nascimentos...
A sociedade Orò é considerada entre os yorùbá a mais poderosa. Entre os Ọyọ e os Ègbá (capital Abeokuta) seu poder político supera as exigências religiosas. Orò possui o direito de vigiar se os governantes respeitam os preceitos morais divinos. Em suas mãos está a salvaguarda da ordem tradicional, o conhecimento e cuidado dos mitos, o folclore e a história. Seu saber encerra a sabedoria da sociedade. Orò antes do período colonial tinha o direito de condenar a morte em tribunais secretos e justiçar os condenados. Não obstante Orò desempenha também outras funções sociais. Os membros de sua sociedade se preocupam em enterrar adequadamente os mortos e conseguir que suas almas cheguem com segurança ao reino dos mortos; e dá também sepultura aquelas pessoas que tenham tido uma má morte, por exemplo: assassinados ou por acidente.
Orò está basicamente a serviço dos espíritos dos mortos e por isso só aparecem de noite. Seu emblema é um pedaço plano de ferro ou madeira (sobre tudo de madeira de Ọbọ ou Kam, que as Àjé) não podem ver nem farejar, presa a um cabo com corda, o que a converte em uma madeira que zumbi, ecoa (emitindo um som todo particular ao ser manuseado). Cada sociedade dispõe normalmente de dois tipos destes utensílios. Um é pequeno e se conhece com o nome de Ise (moléstia) e o tom estridente que produz, se conhece como Ejà Orò (Peixe de Orò). Os outros provem das madeiras grandes chamados Agbe (espada) e emite um tom surdo que é considerado como a mesma voz de Orò, este som anuncia que a morte está ameaçando alguém. Orò reproduz a voz dos mortos e por isso se diz que são eles que os chamam. Antigamente havia sete dias do ano, (às vezes eram nove) dedicados a adoração de Orò sempre em época de lua nova. Os adeptos da sociedade (entre os de Abeokutá), costumavam levar máscaras de madeira, porém estas não chegam a cobrir todo o rosto da pessoa. Òró, divindade que reside na profundeza dos bosques, também denominado deidade do mistério, do awo (segredo), do retiro ou ainda, do encanto. O nome que atribuem os Sacerdotes de Ifá a deidade Òró são: Òró Eku, Eminalè ou ainda Òrìsà Orifin.
Seu Odù Isalayè, ou seja, aquele Odu que o acompanhou do Ợrùn ao Ayè é Ọwọrin’Òsá. Sua morada era no local denominado Orifin quando veio morar no Ayè, más pouco tempo depois foi condenado por Obatala a viver eternamente nas profundezas de Igbo (Floresta), o que hoje conhecemos como Igbo Òró ou Floresta de Òró.

Por: Chief Ifálade membro da Sociedade Orò.





Sociedade Ògbóni

Na Nigéria existe uma tendência muito forte de formar associações e corporações devido a sua grande extensão de terras e também uma forte expressão política, estas associações são formadas com o interesse comum de proteger a população em economia, política, recriação e religião.  A sociedade secreta Ògbóni é encontrada em terras Yorùbá, e sustentada pela tradição de ter surgido nos primórdios de Ilé Ifè.  Venera a terra como fonte da vida, simbolizada pelo orixá Edan...”
Segundo um itan do Odù Ìròsùn ‘Ìwòrì, num antigo período da história da humanidade, esta vivia em total anarquia, promovendo sucessivos incidentes de roubos, assassinatos e violações de toda ordem de abuso aos códigos éticos ditados pelos ancestrais. Alguns habitantes pediram a interferência de Ọrúnmìlá, para que colocasse um paradeiro naquela situação alarmante. Ọrúnmìlá ordenou que se realizassem sacrifícios e aqueles que cumpriram as instruções de Ifá prosperaram em segurança.  Depois disso, Ọrúnmìlá retirou-se aos céus, entregando a Edan a responsabilidade sobre a Terra.  Edan firmou um pacto e aqueles que juraram mantê-lo, puderam viver em paz, harmonia, justiça e prosperidade.
Após longo tempo de permanência na Terra, Edan retornou aos céus, delegando a um grupo de pessoas responsáveis a tarefa de supervisionar e fazer cumprir as leis estabelecidas. Este grupo se uniu em fraternidade, tornando-se a conhecida Sociedade Secreta Ogboni.
Ainda hoje, Ogboni mantém ritual iniciatico baseado num pacto que estabelece e faz cumprir o seu elevado código ético, zelando pela justiça, verdade, lealdade e proteção.

A justiça de Ogboni é firmada com a própria Terra – Onilé, que detém a prioridade em todos os ritos.   Dela sai o sustento de todos os seres que nela habitam, dela saiu o barro primordial com que Ợbàtálá modelou o ser humano. Dela viemos, nela nascemos e recebemos a oportunidade da vida, dela somos alimentados e a ela alimentaremos, por ocasião da morte.
Conta o itan que Òlódùmarè concedeu cada reino da natureza a um òrìşà, assim, sempre que um ser humano expressasse alguma necessidade relacionada a um dos reinos, deveria pagar uma prenda em forma de sacrifício ao òrìşà correspondente.   Restou, de todos os reinos, o próprio planeta Terra, que foi concedido a Onilé. O seu tributo seria a própria vida, pois nela repousam os corpos e restos de tudo o que já não vive. Onilé deveria ser propiciada sempre, para que o mundo continuasse a existir, gerando continuamente, nova vida e assegurando a continuidade do planeta.
Com o objetivo de promover a harmonia com a natureza, Ogboni venera Onilé – os senhores da Terra - como fonte da Vida, simbolizada pelo òrìşà Edan.    Daí resulta que todo aquele que transgredir o pacto estabelecido pela Lei de Ogboni, deverá, – incondicionalmente, prestar contas à Edan – a própria Terra.
Outra atividade dessa sociedade é a de detectar as ofensas feitas aos Orixás, para logo penalizar rigorosamente os culpados. A cerimônia feita por essa sociedade mística se realiza em um lugar sagrado e nesse lugar são depositadas inúmeras oferendas.
Graças a seu poder espiritual os Ògbóni podem alcançar posições em nível social e políticos. Eles são facilmente reconhecidos porque usam um Opa-Edan, feito de ferro nas extremidades, ressaltam as figuras de uma mulher e outra de um Homem.  O chefe do culto de Ogboni é um iniciado que atinge o grau de Oluwo (pai do segredo) e é portador do șaki – uma estola que o distingue como detentor de honra e respeito.




Por Oluwo Ifarunola Adesanya.

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Culto Gèlèdè

Segundo os mitos da tradição afrodescendente, já que o mito é o discurso em que se fundamentam todas as justificativas da ordem e da contraordem social negra, a luta pela supremacia entre os sexos é constante, simbolizada na igbàdú (cabaça da criação), já que o òrìsà Odùduwa, princípio feminino de onde tudo se cria - representação coletiva das Ìyàámi ou mães ancestrais, é a metade inferior da cabaça e Ợbàtálá ou Óòşààlá, princípio masculino, a metade superior. A relação Odùduwa/Ợbàtálá, entendida simbolicamente, não representa uma simples relação de acasalamento do princípio feminino com o masculino.

Há um princípio de completude do outro, de que a vida se constrói de mãos dadas e de que cada um de nós à medida que estabelece esta relação, estabelece um elo mais completo com as coisas que estão à volta.
Significa todo um processo de equilíbrio e de harmonia. Para se entender bem tal relação, se faz necessário situar as mulheres do ritual Gèlèdè, que representam o culto às Ìyàámi, as grandes mães ancestrais, encabeçadas por: Nàná, Yemọjá, Ợbá, Odùdúwà, Òsún, Yewa e Ọya.
Odù simboliza a grande representante do princípio feminino, sendo o elemento responsável por todo o poder criador, do poder das mulheres, liderando o movimento das Ìyàámi, as grandes mães ancestrais, que tudo criaram, transformaram e transmutaram desde o princípio dos princípios da formação do universo.

A sociedade Gèlèdè, que já existiu no Brasil, é um ritual de mulheres que vestem panos coloridos - diferentes panos mostrando diferentes procedências. São as diferentes raízes que as pessoas podem ter na maternidade. A máscara Èfé Gèlèdè que cobre a cabeça da mulher vai representar o mistério, o maravilhoso, na cultura negra. O uso da máscara significa o símbolo de outro espaço, um espaço vivo, um espaço invisível que não se conhece, mas sente-se!
No Brasil a sociedade existiu, sua última sacerdotisa suprema foi Omóníké Ìyálóde-Erelú que tinha o nome católico Maria Julia Figueiredo, uma das Ìyálàse do Ilè Ìyá-Nàsó, com sua morte cessaram-se as festividades, que eram realizadas no bairro da Boa Viagem. O propósito da sociedade Gèlèdè é propiciar os poderes míticos das mulheres, cuja boa vontade deve ser cultivada porque é essencial a continuidade da vida para esta sociedade.
Sem o poder feminino, sem o princípio de criação não brotam plantas, os animais não se reproduzem, a humanidade não tem continuidade. Assim, o princípio feminino é o princípio da criação e preservação do mundo: sem a mulher não existe vida, sendo, segundo os mitos, ser reverenciada e respeitada pelos òrìşà e pelos homens.

As Gèlèdè e suas máscaras se tornam uma metáfora, sendo uma linguagem para a mãe natureza. O Gèlè, pano de cabeça, é um símbolo das Gèlèdè porque personifica o útero, pois ele carrega as crianças e as protege. Através das Ìyàámi (mães ancestrais) a arte das máscaras é usada para aglutinar as pessoas que se relacionam como filhos de uma mesma mãe, fazendo com que o espírito se manifeste através desta máscara, seguindo e alimentando o espírito humano. Representam o não uso da violência para resolver questões. Nas culturas negras a mulher está presente em todos os lugares.
A máscara tem grande importância na vida religiosa, social e política da comunidade, mostrando as diferentes categorias de mulher:
- mulher secreta - ligada ao divino, serve como passagem e receptáculo do sagrado no mundo dos vivos, por gerar frutos.
-mulher símbolo político - não usa violência para resolver as questões, aglutinando as pessoas, vivendo o cotidiano.
- mulher sagrada - símbolo de todos os tempos, pois está virada para o futuro, sempre vulnerável e frágil, mas é aquela que abre o céu (Ợrùn) e deixa lugar para a mudança, o futuro, e para a transformação.

A sexualidade da mulher negra faz parte da sua essência de princípio feminino, sendo muitos os mitos que representam a função e o papel mulher vista como útero fecundado, cabaça que contem e é contida, responsável pela continuidade da espécie e pela sobrevivência da comunidade. Não se encontra pecado nesta sexualidade.

Através das Ìyá as comunidades - terreiros se constituam num verdadeiro sistema de alianças. Desde a simples condição de irmão de santo até a mais complexa organização hierárquica, há o estabelecimento de um parentesco comunitário, como uma recriação das linhagens e da família extensiva africana. Os laços de sangue são substituídos pelos de participação na comunidade, de acordo com a antiguidade, as obrigações e a linhagem iniciatica. Todos estão unidos por laços de iniciação às divindades cultuadas, aos demais iniciados, às autoridades, aos antepassados e aos ancestrais da comunidade.

Através do rito se tem todo um sentido de manifestação das mulheres do grupo: rodando, dançando, se integrando com o cosmos, mostrando que temos consciência de que somos elementos dinâmicos, de que o movimento da roda - já que as mulheres são os elementos que dançam em círculo - representa o altar da criação, da vida, já que a terra está em movimento, o universo está em movimento e só se conseguirá estar em sintonia com o universo através do movimento.
Gèlèdè é originalmente uma forma de sociedade secreta feminina de caráter religioso, existente nas sociedades tradicionais yorùbá, que expressam o poder feminino sobre a fertilidade da terra, a procriação e o bem estar da comunidade.

O culto Gèlèdè visa apaziguar e reverenciar as mães ancestrais para assegurar o equilíbrio do mundo. A principal representação do culto também nos fala um itòn de Òsé’yèkú, que Ợbàtálá e Odù Logboje são uma única coisa e no culto a Obàtálá, Òṣòròngà, Iyà mi, é diretamente participante, o próprio itòn fala:
Tudo aquilo que o homem vier a conseguir na terra, o será através das mãos das mulheres. Esta é uma tradição do culto a Obàtálá, pela relação direta de Odu. - itọn Òsá mèjì (o mito da roupa de Eégún) - quanto ao culto Èfé-Gèlèdè, os homens participam, até nas chamadas "incorporações"- dàpò sòkan - e uma das principais diferenças, estão nas próprias danças rituais, quando "feminina" e lenta e nobre, quando "a masculina" é firme e agressiva, e cabe aos Ǫşǫ de Óòşààlá' esta função. - Seja ako, baká, mundià, tetedè, okunriu, onilu e "às outras”.

Mas quando se trata da essência da filosofia, na relação Obàtálá (símbolo da ancestralidade masculina) e, Odu (Òsòròngà - símbolo da ancestralidade feminina) como uma relação perfeita, trazida por Òsé-Ọyẹkú, e também pela relação de ambos com Ikú.
O culto anual de Èfé-Gèlèdè, originário da cidade de Ketu no décimo quarto século, é organizado no começo da estação agricultural exatamente por uma importante questão dentro da cultura Yorùbá - a Fertilidade. Este culto se organiza da seguinte forma- sua parte diurna é exatamente Gèlèdè e sua parte noturna é Èfé (o pássaro). Os dançarinos são homens, contudo representam homens e mulheres em suas representações.
Isto prova que o culto das Gèlèdè não é vetado aos Homens.

Na dança feminina Gèlèdè é poderosa e contida, entretanto, na dança masculina é violenta e agressiva. Os nomes citados são os próprios nomes das 9 principais Gèlèdè em sua ordem de entrada na praça do mercado, pois este culto, e na verdade todos de acordo com a direção da cabaça de Odù que vai ser desperta (Òsé'yèkú) deveriam ser feitos ao livre como nos ensina o antigo culto à Ọlọrun. (Akò, Baká, Mundià, Tetedè, Okunriu, Onilu, Isa-orò, Alopajanja-eledè e Woogbáwoobaarsan)
Sendo assim, é exatamente no conhecimento deste culto que podemos perceber que os homens principalmente os "Oṣò" participam de toda uma enorme variedade de fundamentos do culto na sociedade Òsòròngà, pois se assim não o fosse, como explicar o tabu de que as mulheres não podem olhar Odù (itọn Ìrèńtẹ’gbè), como entender que são os Bàbáláwo - filhos de Òrúnmílá que entregam as cabaças com os pássaros as mulheres iniciadas no culto à Òsòròngà (itòn Ìrẹtẹ mèjì)

“Èfé” são as máscaras rituais que simbolizam o espírito das ancestrais femininas e os diferentes aspectos de seu poder sobre a terra simbolizados pelos pássaros.
Os òrìsà femininos cultuados nos candomblés brasileiros representam aspectos socializados deste poder conforme a visão de mundo negro africana segundo a qual homens e mulheres se equivalem e controlam determinadas forças da natureza Porém a continuidade da vida sobre a terra, atributo eminentemente feminino nesta tradição é reverenciado de modo especial.
Por isso Ọbàrìşà, Osalá, o grande ancestral masculino canta:

“E kúnlè o, e Kúnlè f’obinrin o
E obinrin l’ó bí wa, k’awa tó d’enia
Ogbon àiyé t’obinrin ni, e kúnlè f’obinrin
E obinrin l’o bí wa o, k’awa tó d’enia”
(Ajoelhem-se para as mulheres. A mulher nos colocou no mundo, nós somos seres humanos
A mulher é a inteligência da terra. A mulher nos colocou no mundo, nós somos seres humanos).

Ìyàámi Òsòròngà
Ofò (Encantamento)

Mo júbà ènyin Ìyàámi Òsòròngà.
Mo júbà è nyin Ìyàámi Òsòròngà
O Tò nón Èjè e nun
O Tòo kón èjè èdò
Mo júbà è nyin Ìyàámi Òsòròngà
O Tò nón Èjè e nun
O Tòo kón èjè èdò
Èjè oyè ní Kalè o
Ó yíyè, yíyè, yèyé kòkò
Èjè oyè ní Kalè o
Ó yíyè, yíyè, yèyé kòkò

Meus Respeitos a Vós Minha Mãe Òsòròngà)
Vós que seguíeis os rastros do Sangue interior.
Vós que seguíeis os rastros do sangue do coração e do sangue do fígado.
Meus respeitos a vós minha mãe Oșórongá
Vós que seguíeis os rastros sangue interior
Vós que seguíeis os rastros do sangue do coração e do fígado
Meus Respeitos a Vós Minha Mãe Òsòròngà.

O sangue vivo que é recolhido pela terra cobre-se de fungos, e ele sobrevive, sobrevive ó mãe muito velha o Sangue vivo que é recolhido pela terra cobre-se de fungos e ele sobrevive, a mãe muito velha)

Ìyàámi Òṣòròngà não é um òrìşà, mas sim uma energia ancestral coletiva feminina, cultuada pelas Gèlèdè; Sociedade feminina fechada da Ìyàámi Eléeye (minha mãe senhora dos pássaros), representada pela máscara dos pássaros. A sociedade Òṣòròngà congrega as àjé–feiticeiras que têm poderes de se transformarem em determinados pássaros: Èhurù, Elùlú, àtíòro, àgbìgbò e Òsòròngà, este último refere-se ao próprio som que a ave emite e dá nome a Sociedade. Exercem sua força máxima nos horários mais críticos -meia-noite – ocasiões em que é preciso muita cautela para que elas não pousem na cabeça de ninguém.

Suas cerimônias são realizadas no início da estação do plantio relacionado à fertilidade.
Estas cerimônias tiveram início na região de Kétu, dividindo-se em duas partes a diurna e a noturna. Segundo conta um itọn do Odù Ogbé Òsá, diz que quando as Ìyá mì chegaram do Òrun pousaram em sete árvores.
Segundo um Itọn as 7 árvores das Ìyá mì seriam:

Orobo
Àjànrèré 
Iroko
Orò
Ogun Bereké 
Arere
Igi ope

Porém outro itọn, nos dá outra apresenta uma relação diferente das sete árvores estas seria as árvores sagradas das Mães Ancestrais:
Ose
Iroko
Ìyá
Asunrin
Obobo
Iwó 
Arere

A contrário do que se pensa aqui no Brasil existe sim a presença masculina no culto a Ìyàámi.
São detentoras de poderes terríveis, consideradas as donas da barriga (por onde circularia a energia vital do corpo) Ninguém pode com seus ebo, dos quais, o Òjìjí (sombra) é o mais fatal. São ligadas diretamente ao Odù Òyèkú mèjì, são propiciadoras para a alteração do destino de uma pessoa. Seus poderes são tamanhos que só se consegue no máximo apaziguá-las, vencê-las jamais. Relacionam-se com Òsun a quem estão ligadas pela ancestralidade feminina, bem como Odùdúwà, considerada fundadora do culto Gèlèdè.

Deve-se lembrar, portanto, que "Ǫşǫ" é um título de quem trás o Égan (símbolo de Èsù o qual foi dado através das mãos de Òsòròngà (itòn Òsétúrá) e mesmo assim se foi iniciado no tradicional culto de Obàtálá / Odu e ainda tiver profunda relação com Ikú, através de algumas se suas principais ònifá, como Òyèkú mèjì, Òbàrà mèjì, Òtúrúpòn mèjì e algumas outras poucas. O sangue (èjè) não é de nenhum Òrìsà a não ser de Òsòròngà como vemos no Oriki (èjè ó yè ní káalẹ o - o sangue fresco que recolhe na terra cobre-se de fungos)

Afirma a tradição que as Ìyàámi segue o rastro do sangue do fígado e do coração, isto se deve pôr os chamados Àse das oferendas são de Òsòròngà! Estes órgãos se classificam em comportamentos Ofú (aqueles que produzem e fazem circular a energia no corpo) estômago, bexiga, vesícula biliar, intestino grosso e o intestino delgado, como também em comportamentos Osa (coração, rins, fígado, baço e pâncreas) Estes detalhes são importantíssimos no culto à Òṣòròngà e principalmente no culto Èfé -Gèlèdè ainda mais se falamos do sacrifício de elédé (porco)

Relacionam -se com Òsòròngà:
Èsù: Somente com sua ajuda é que conseguimos a comunicação com as Ìyàámi, além de ser a prova viva do poder das Ìyàámi.
Oòrùn (caminho do oeste) é bem mais íntimo de Òsòròngà, se não fosse ele o senhor do sagrado ato da oferenda de animais, juntamente com Èsù e Òsòròngà.
Odu* :(Yemòwo) Grande Ìyá, Senhora do ìgbá- eye (cabaça dos pássaros) é a Ìyà’nlá seu nome é modificação da palavra Odù Logboje, a mulher primordial, também denominada Eléyin’jú Egé, a dona dos olhos delicados fazendo parte das divindades geradoras representadas pelo Preto, fundadora do culto e sociedade Gèlèdè.

Òsun: Grande protetora da gestação, é a Ìyàámi-Àkókó, mãe ancestral suprema.
Nàná: patrona da lama e dos primórdios da criação do Àyè, é a Ómó Àtíòro òké Ọfa.
Oya e Yewa: são todas Ìyá- Eléye possuidoras da cabaça com pássaro símbolo do poder feminino.
Olórí Ìyáàgbà Àjé Eléye, chefe supremo de nossas mães ancestrais possuidoras dos pássaros.
Ògá gun ati Ògájùlo ninu awon Ìyá mí Òṣòròngà.
Chefe supremo, comandante entre todas as Ìyàámi.
Òrúnmìlà: Este foi o único òrìsà que quando as Ìyàámi estavam zangadas conseguiu apaziguar sua fúria e desta forma salvou o Ayè e restabeleceu a harmonia, entre os Homens e Mulheres.
Toda mulher é uma Àjé, porque as Ìyàámi controlam o sangue menstrual elas representam os poderes místicos das mulheres no seu aspecto mais perigoso. São as Avós, as mães em cólera que em sua boa vontade a própria vida na Terra não teria continuidade

Ìtàn do Odù Òsá Mèjì
* Odù torna-se Ìyàámi *

Nos primórdios da criação, Olódùmarè, o Ser Supremo que vive no Òrun, mandou vir ao Ayè (universo conhecido) três divindades: Ògún (senhor do ferro), Obàrìsà (senhor da criação dos homens) (Um dos òrìsà funfun, isto é, òrìsà que têm como principal preceito o uso do branco nos ritos e nas oferendas) e Odù, a única mulher entre eles. Todos eles tinham poderes, menos ela, que se queixou então a Ọlódùmarè.
Este lhe outorgou o poder do pássaro contido numa cabaça (ìgbá Eléye) e ela se tornou então, através do poder emanado de Olódùmarè, Iyá Won, nossa mãe para eternidade (também chamada de Ìyàámi Òsòròngà, minha Mãe Òsòròngà)
Mas Olódùmarè a preveniu de que deveria usar este grande poder com cautela sob pena de ele mesmo repreendê-la.

Ela diz qual é o meu poder?
Ele diz: Você será chamada para sempre de Mãe de todos.
Ele diz: Você dará continuidade.
Olódùmarè lhe entrega o poder.
Ele entrega o poder de Eléiye para ela.
Ela recebe, o pássaro de Olódùmarè.
Ela, recebe, então, o poder que utilizara com ele.
Ele diz: Utilize com calma o poder que eu dei a você.
Se você utilizar com violência, Eu o retomarei.
Porque aquela que recebeu o poder se chama Odù.
O homem não poderá fazer nada sozinho na ausência da mulher"
"Lati ìgbá náà ni Olódùmarè ti fun obìrin l'à se"
Desde aquela época, Olódùmarè outorgou àse as mulheres
Elas exerciam todas as atividades secretas:
O mú Égun jáde
O mú Orò jáde
Gbogbo nkan, kò si ohun ti ki se nigba náà.
Ela conduz Égun.
Ela conduz Orò em todas as coisas, não há nada que ela não faça nesse tempo.
Mas ela abusou do poder do pássaro.
Preocupado e humilhado, Ọbàrìşà foi até Òrúnmìlà fazer o jogo de Ifá e ele o ensinou como conquistar e apaziguar e vencer Odù, através de sacrifícios, oferendas (ebo com ìgbín e haste de Àtòrì) e astúcia.
Ele lhe ofertou e ela negligentemente, aceitou, a carne dos ìgbín.
Odù náà gba omi ìgbín, o muú
Nigbati Odù mu omi ìgbín tán, inú Odù nrò die die.
Odù recebe a água de caracol para beber, quando Odù bebeu, o ventre de Odù se apaziguou.
Obàrìsà e Odù foram viver juntos.
Ele então lhe revelou seus segredos e após algum tempo, ela lhe contou os seus, inclusive que cultuava Éégún.
Mostrou-lhe a roupa de Égun, a qual não tinha corpo, rosto nem tampouco falava.
Juntos eles cultuaram Égun.
Aproveitando um dia quando Odù saiu de casa, ele modificou e vestiu a roupa de Égungun.
Com um bastão na mão (Òpá osù), Ọbàrìşà foi à cidade (o fato de Égun carregar um bastão revela toda a sua ira) e falou com todas as pessoas.
Quando Odù viu Égun andando e falando, percebeu que foi Obàrìsà quem tornou isto possível.
Ela reverenciou e prestou homenagem a Égun e a Obàrìsà, conformando-se com a vitória dos homens e aceitando para si a derrota.
Ela mandou então seu poderoso pássaro pousar em Égun, e lhe outorgou o poder:
Tudo o que Égun disser acontecerá.
Odù retirou-se para sempre do culto de Égungun e partiu para o culto Gèlèdè.
Só Eléiye, indicara seu poder e marcara a relação entre Égungun e Ìyàámi.
Gbogbo agbára ti Egúngún si nlọ agbára Eléiye ni.
Todo o poder que Égungun utilizar é o poder do pássaro.
O conjunto homem-mulher dá vida a Égungun (ancestralidade), mas restringe seu culto aos homens, os quais, todavia, prestam homenagem às mulheres, castigadas por Olódùmarè através dos abusos de Odù.
Também por esta razão é que as mulheres mortas são cultuadas coletivamente e somente os homens têm direito à individualidade, através do culto de Égungun.

As senhoras dos pássaros da noite Ìyàámi Osorongá, aqui tratada como Odù, é o termo que designa os terríveis Àjé, feiticeiras africanas, uma vez que ninguém as conhece por seus nomes. As Ìyàámi representam o aspecto sombrio das coisas: a inveja, o ciúme, o poder pelo poder, a ambição, a fome, o caos o descontrole. No entanto, elas são capazes de realizar grandes feitos quando devidamente agradadas. Podem-se usar os ciúmes e a ambição das Ìyàámi em favor próprio, embora não seja recomendável lidar com elas.
O poder de Ìyàámi é atribuído às mulheres velhas, mas pensa-se que, em certos casos, ele pode pertencer igualmente a moças muito jovens, que o recebem como herança de sua mãe ou uma de suas avós.

Uma mulher de qualquer idade poderia também adquiri-lo, voluntariamente ou sem que o saiba, depois de um trabalho feito por alguma Ìyàámi empenhada em fazer proselitismo.
Existem também feiticeiros entre os homens, os Osò, porém, seriam menos virulentos e cruéis que as Ajé (feiticeiras).

Ao que se dizem ambos são capazes de matar, mas os primeiros jamais atacam membros de sua família, enquanto as segundas não hesitam em matar seus próprios filhos. As Ìyàámi são tenazes, vingativas e atacam em segredo. Dizer seu nome em voz alta é perigoso, pois elas ouvem e se aproximam para ver quem fala delas, trazendo sua influência. Ìyàámi é freqüentemente denominada Ẹlẹyẹ, dona do pássaro. O pássaro é o poder da feiticeira; é recebendo-o que ela se torna ajé. É ao mesmo tempo o espírito e o pássaro que vão fazer os trabalhos maléficos.

Durante as expedições do pássaro, o corpo da feiticeira permanece em casa, inerte na cama até o momento do retorno da ave. Para combater uma ajé, bastaria, ao que se diz esfregar pimenta vermelha no corpo deitado e indefeso. Quando o espírito voltasse não poderia mais ocupar o corpo maculado por seu interdito. Ìyàámi possui uma cabaça e um pássaro. A coruja é um de seus pássaros. É este pássaro quem leva os feitiços até seus destinos. Ele é pássaro bonito e elegante, pousa suavemente nos tetos das casas, e é silencioso.
"Se ela diz que é para matar, eles matam, se ela diz para levar os intestinos de alguém, levarão".
Ela envia pesadelos, fraqueza nos corpos, doenças, dor de barriga, levam embora os olhos e os pulmões das pessoas, dá dores de cabeça e febre, não deixa que as mulheres engravidem e não deixa as grávidas darem à luz.

As Ìyàámi costumam se reunir e beber juntas o sangue de suas vítimas. Toda Ìyàámi deve levar uma vítima ou o sangue de uma pessoa à reunião das feiticeiras. Mas elas têm seus protegidos, e uma Ìyàámi não pode atacar os protegidos de outra Ìyàámi. Ìyàámi Òṣòròngà está sempre encolerizada e sempre pronta a desencadear sua ira contra os seres humanos. Está sempre irritada, seja ou não maltratada, esteja em companhia numerosa ou solitária, quer se fale bem ou mal dela, ou até mesmo que não se fale, deixando-a assim num esquecimento desprovido de glória. Tudo é pretexto para que Ìyàámi se sinta ofendida.

Ìyàámi é muito astuciosa; para justificar sua cólera, ela institui proibições. Não as dá a conhecer voluntariamente, pois assim poderá alegar que os homens as transgrediram e poderá punir com rigor, mesmo que as proibições não sejam violadas. Ìyàámi fica ofendida se alguém leva uma vida muito virtuosa, se alguém é muito feliz nos negócios e junta uma fortuna honesta, se uma pessoa é por demais bela ou agradável, se goza de muito boa saúde, se tem muitos filhos, e se essa pessoa não pensa em acalmar os sentimentos de ciúme dela com oferendas em segredo. É preciso muito cuidado com elas.
E só Òrúnmìlá consegue acalmá-la.

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Fragmentos sobre o culto Gèlèdè e textos de:
Pierre F. Verger - do livro " As Senhoras do Pássaro da noite" e do artigo publicado em 1965 no "Journal de la Societe des Africanisters"
..."Grandeur et decadence du culte de Ìyàámi Oșórongá "

Organização e tradução-Carlos Eugênio M.de Moura.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.