terça-feira, 28 de outubro de 2014

Igoke: O Conceito de Ifá para crescimento espiritual

Por: Áwo Falokun Fatunmbi

Em Ifá a ideia de crescimento espiritual (Igoke) não é sobre o alcance de alguma meta idealizada gravada na pedra ou por alguma visão de mundo dogmática. Não há salvação em Ifá que venha simplesmente por acreditar no profeta Òrúnmìlá. Ifá nunca promete a salvação através da iniciação.
O crescimento espiritual é o efeito da disciplina espiritual e disciplina espiritual é guiada pela comunicação com o Espírito.
Nossa responsabilidade como devotos de Ifá/Òrìsà é sair do caminho para que possamos ter certeza que temos linhas de comunicação abertas com os Imortais no òrun.
O Espírito responsável por registrar a interação entre a vontade (o conteúdo de escolha pessoal), o destino (as consequências da ação) e destino (os limites do potencial humano) é Èlá.
A palavra Èlá é a elisão de Emi + Alá.
Que significa:
Eu sou a luz.
Normalmente traduzido como: O Espírito da Pureza.

De acordo com a escritura oral de Ifá, Èlá se manifesta na terra através do histórico profeta Òrúnmìlá. A história oral de Ifá diz que Òrúnmìlá vivia na cidade Yorubá de Ilè Ifè Oòdáyè e treinava dois alunos Àkòdà e Asèdá na arte da adivinhação.
Os mais velhos também dizem que Èlá se manifestou em outras culturas por meio de outros profetas em vários momentos ao longo da história. A sabedoria de Òrúnmìlá não é o caminho, é apenas um caminho.
Adivinhação de Ifá é baseada em 16 princípios que são simbolicamente representados por dezesseis quadra gramas. Cada quadra grama usa uma única linha (I) para simbolizar o poder de expansão (luz) e uma linha dupla (II) para simbolizar o poder de contração (escuridão).

As marcas aparecem como se segue:

I
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II
I
II
I

Como estudo, seria muito bom vocês identificarem os Odù pelas marcações binárias e nominá-lo.
Meus estudos destes padrões sugerem-me os princípios fundamentais das dezesseis testemunhas da Criação como descritos por Ifá, quando visto em sequencia, representam um mapa da descida e subida do àse. É uma descrição da maneira como o Espírito emerge dos reinos invisíveis torna-se manifesto na esfera visível e em seguida retorna à Fonte.
O material que se segue é a minha opinião (Áwo Fatunmbi).
Nem todos os meus anciãos concordam. Alguns têm ideias semelhantes, com uma ênfase um pouco diferente. Este material é apresentado como alimento para o pensamento e não como trampolim para a criação de um dogma.
Para a criação de dogma.
Ogbè é o princípio da vida,
Òyèkú é o princípio da morte,
Ìwòrì é o princípio da transformação
E Òdí é o princípio do renascimento.
Este é o ciclo fundamental de tudo o que vem a existir no universo físico.
Ìròsùn é a palavra yorùbá para o sangue menstrual, é uma referência à hereditariedade, a genética transmitida de gerações anteriores e é o componente físico necessário para o processo de reencarnação. Ogbè é vida e Ìrosùn é a recriação da vida.
Òwónrín é o elemento de perturbação na vida, a ideia de que nada evolui de uma forma ordenada e coerente. Òwónrín é a razão que é impossível controlar a Natureza.
Òbàrà é a transformação do ego.
A interrupção em Ọwnrin ensina a lição de humildade que se manifesta em Òbàrà. Òkànràn é um novo começo, um começar de novo, com base em assimilar as lições de humildade aprendidas em Òbàrà.
Os quatro primeiros Odù representam o ciclo da vida, morte, transformação e renascimento em sua forma primordial.
Os quatro próximos Odù representam a manifestação de vida, morte, transformação e renascimento no processo da evolução.
Os oito primeiros Odù descrevem as formas pelas quais o Espírito se manifesta no mundo visível.
Ògúndá é a aspiração de criar algo novo. Ògúndá é a criação de cidades e estradas que conduzem ao desenvolvimento e a cultura. Em Ògúndá o espírito humano tenta criar algo além do ambiente natural.
Òsá é a força de destruição da Natureza, a ideia de que nada foi criado para a eterna permanência.
Ìká é o desenho dos recursos após a interrupção de Òsá.
Òtúrúpòn é a purgação do que fica no caminho do crescimento.
Nestes quatro Odù, o ciclo de vida, morte, transformação e renascimento são encarados como uma ferramenta para a mudança.
Isso se reflete no espírito humano pelo desejo de se tornar uma expressão de espírito transcendente.
Òtúrá é a bênção da visão mística ou o nascimento de um novo insight sobre a natureza do Eu e do mundo.
Ìretè se expressa na ação humana como a tentativa de se manifestar a visão de Òtúrá.
Tendo aprendido a lição de humildade em Òbàrà, somos lembrados em Ìretè que vamos raramente poder ser suficientes para a transformação e seu efeito.
Pedimos ajuda ao Espírito, o Orí humano se transforma em oração em Òsé. Em Òsé, o espírito humano abre o véu entre o reino visível e o reino invisível.
Òfún é a manifestação de novos fenômenos. É a resposta às orações faladas em Òsé e é uma conexão do: Para onde vamos e de onde viemos.
Cada um destes dezesseis princípios manifesta-se como as duas forças da natureza e como ciclos no desenvolvimento do espírito humano.
É a tarefa de Ifá identificar a posição de uma pessoa neste ciclo e abrir o caminho para uma transição suave para a próxima fase.

Ire baba


sábado, 25 de outubro de 2014

O valor espiritual da Iniciação

Por Áwo Falokun.

Eu tenho uma preocupação.
A preocupação é com base no meu acordo com o Chefe Abimbola quando ele fez a declaração de que Ifá pode consertar um mundo quebrado. Acredito que Ifá tenha o medicamento e seja uma ferramenta poderosa no processo de cura pessoal, ascensão social e do movimento coletivo para trazer Ilé Ifé (a casa do amor) do Òrun (céu) para Ayè (Terra).
A preocupação é esta:
Há forças no mundo chamadas Ajogun que estão tentando bloquear a elevação do espírito pessoal e coletivo da vida na Terra. Vejo indicações claras de Ajogun estarem influenciando pessoas dentro e fora da nossa fé, para gerar ações destinadas a garantir que as nobres aspirações do Profeta Ọrúnmìlá nunca se manifestam no mundo físico.
Se você acredita que essa ameaça vem de dentro ou de fora da nossa fé, o efeito é o mesmo. Estamos participando de ações de destruição autodestrutivas comunitária causadas ​​pela constante necessidade de julgar o trabalho do outro.
Em Ifá julgar o trabalho de outra pessoa é um tabu (èèwọ).
É fácil dizer que este comportamento é um tabu e podemos agradecer a Chefe FAMA por traduzir o Odù que descreve este comportamento como um tabu.
A questão passa a ser nós mesmo, como uma comunidade, estarmos apoiando à implementação deste tabu. Ao apoiar este tabu, estou querendo dizer que: Como é que vamos interiorizar a lição de não julgar e não denegrir o trabalho de outro Áwo.
Para mim, a resposta é: Será que nós saberemos acrescentar mais ao que fazemos de melhor?
Há uma razão pela qual não devemos denegrir o trabalho dos outros Áwo.
O primeiro passo para entender isso é compreender o contexto do tabu.
Para entender o contexto do tabu é, creio eu, preciso entender o contexto da iniciação. Precisamos que a comunidade tenha um mínimo de entendimento comum sobre o objetivo e a função da iniciação.
Aqui está uma razão pela qual não devemos denegrir o trabalho dos outros Áwo.
Para mim, o propósito da iniciação é alinhar o Ori, ao Ori inu e ao ìpọnri. Em termos psicológicos, isso significa o alinhamento da vida, o Eu Interior e o Eu superior.
Os psicólogos chamam esse processo de individualização. Em Ifá este processo é chamado de:  Ire lona ìpọnri atiwo Órun. 
Ou seja: Acessar o Eu superior que está para receber as bênçãos do céu.
Isso é uma forma simbólica de dizer que alinhamento com o Eu Superior é o alinhamento com o destino e cada verso da Escritura de Ifá diz que quando nós alinhamos a nossa vida com o nosso destino recebemos uma bênção de vida longa, família saudável e abundância. Isso na disciplina de Ifá significa que o espiritual não se põe ao que nós queremos e sim o que precisamos.
O que precisamos é sempre o mesmo. O que precisamos é de eliminar o comportamento autodestrutivo que bloqueia a nossa conexão com nosso Eu Superior. Em Ifa este tipo de comportamento autodestrutivo é chamado ibi. Uma das manifestações do processo de engajar-se no comportamento autodestrutivo é a necessidade de denegrir outros. A necessidade de denegrir os outros é na verdade uma forma ineficaz de evitar a resolução de nossas próprias contradições internas, especificamente nossas próprias inseguranças enraizadas em dúvida e auto aversão.
O grande Profeta Ọrúnmìlá nunca disse que alinhar o Ori, ao Ori inu e ao ìpọnri denegre aos outros e ainda, como uma comunidade nos envolvemos no processo de denegrir os outros como se fosse nosso dever sagrado. Aqui comigo agora, e acredite em mim mais tarde, o nível de difamação, evidente, na mídia social está transformando as pessoas e levando para longe de nossa fé grandes números de pessoas e tornando a nossa fé uma piada má, o que é relevante para aqueles que possam estar interessados nesta contradição.
A violação do tabu em julgar o trabalho dos outros ameaça destruir a nossa fé, porque eles já estão destruindo claramente nossas comunidades e ameaçam criar uma resistência ao crescimento pessoal, o que torna a medicina de Ifá ineficaz. Eu chamo isso de processo do ibi (negativo) institucionalizado.
Só podemos entender isso como uma possibilidade, se realmente compreendemos o papel e a função da iniciação.
Eu disse que a iniciação é o processo de alinhamento entre o Ori, o Ori inu, e o ìpọnri. De acordo com cada disciplina espiritual registrada pela história humana no curso da vida deste planeta, todos os grandes profetas da inspiração humana têm dito que há duas maneiras de experimentar o alinhamento com o Eu Interior, com o Eu Superior e o ìpọnri. Uma das maneiras é através do ritual. Um dos rituais destinados a criar este alinhamento é chamado de iniciação. Todos os outros rituais, ouça-me, todos os outros rituais são projetados para sustentar e apoiar este alinhamento.
Todos os Profetas inspiradores do passado, incluindo o Profeta Ọrúnmìlá, disseram que a fonte primordial do alinhamento entre o Eu Interior e o Eu Superior é a Graça de Deus. Alá, Jeová, Buda, Olódùmarè e o que mais você quiser nominar é:
A fonte de criação.
A iniciação é uma pálida imitação da Graça de Deus, quem executa iniciações e acredita que seu trabalho é um catalisador para o alinhamento entre Ori, Ori inu e ìpọnri confunde seu próprio ego inflado com o poder de Deus para elevar a consciência humana.
Nós poderíamos chamar isso de arrogância, confusão e vaidade. Em Ifa isto é descrito como o Odù Ọbàrà Mèjì em ibi e nós também podemos chamar esta arrogância de pecado da arrogância.
Em grego, hubris significa:
É o pecado de acreditar que os seres humanos têm o direito de falar em nome de Deus.
Uma pessoa que descreve o alinhamento com o Eu Superior, sem a necessidade de ser o instrumento do alinhamento é chamado de profeta.
Uma pessoa que descreve o alinhamento com o Eu Superior, com a necessidade de ser o instrumento deste alinhamento é chamado de líder de um culto.
Teólogos definem uma religião como uma disciplina com base no estudo de uma mensagem profética.
Os teólogos chamam de culto qualquer disciplina baseada na vontade de uma pessoa que assume o papel de Deus.
Eu estou sugerindo aqui que Ifá não é um culto.
Aqui está o ponto, você pode ter a melhor iniciação que já existiu na história da vida e da Terra e se você ignorar o processo de alinhamento da vida, do Eu interior, com o Eu Superior, ou seja, se você ignorar o processo de manifestar o bom caráter, sua iniciação terá sido um desperdício completo e total de tempo.
Se você teve a pior, a mais idiota, a mais incompetente iniciação que já existiu na história da vida na Terra e você após iniciado toma a decisão de abraçar a graça de Deus, tornando-se uma pessoa melhor, o seu Ori, o seu Ori inu e o seu ìpọnri vão entrar em alinhamento.
A consequência de qualquer iniciação de uma pessoa representa, foi e sempre será um pacto entre a pessoa e Deus.
Não há como um ser humano ficar julgando esse pacto. A natureza do relacionamento da pessoa com Deus é um direito dado no nascimento de cada indivíduo e eu não tenho o direito de julgar este relacionamento e também não tenho nenhuma base para fazer esse julgamento.
Cada momento de nossa vida é uma escolha entre ire e ibi e nunca poderemos dizer com certeza quando, onde e como a escolha de ire vai elevar nosso Ori de uma forma que traga a verdadeira salvação.
No momento em que qualquer sumo sacerdote auto descrito como: Alta Poobah, Babalawo, Olowo ou a encarnação auto delirante de Buda diz que a salvação está baseada em algum dom especial que eles trazem para o mundo e que o dom que eles trazem lhes dá permissão divina para julgar o trabalho dos outros. Sempre que você ver isso, ouvir isso ou presenciá-lo de qualquer forma, considere:
O comportamento parece estar em contradição com a mensagem dos grandes mestres proféticos do passado.
Nelson Mandela passou 26 anos na prisão e no dia da sua libertação, ele liderou uma nação sem raiva, julgamento, difamação ou abuso. Ele simplesmente se levantou, disse apartheid está errado e aqui está o que vamos fazer para mudar isso.
Suas ações eram claramente as ações de um homem que conhecia e compreendia o seu destino. Suas ações eram claramente as ações do homem cuja cabeça e o coração estavam em alinhamento. Suas ações eram as ações do homem que tinha elevado a sua própria vida pessoal, e que usam essa elevação de inspirar outros a se juntarem a ele ao fazer a coisa certa.
Eu não sei se Nelson Mandela, sempre engajado, passou por um ritual de iniciação. Eu sei que ele viveu as evidências da Graça de Deus e a capacidade da Graça de Deus em elevar o espírito humano. Eu estou supondo que ele foi iniciado por aquilo que os nossos amigos cristãos chamam de batismo de fogo.
Tenho sido abençoado ao longo dos últimos 30 anos por viajar pelo mundo e ver Ifá òrìşà em inúmeras manifestações.
Ouça-me:
Se você nunca ouviu outra palavra, me ouça agora:
A manifestação mais poderosa do espírito do Profeta Ọrúnmìlá que eu já testemunhei veio de uma vítima de abuso sexual, pobre mulher, não iniciada, de cor, na diáspora que derramou água em uma frigideira, acrescentou um pouco de açúcar e orou sobre a água com açúcar, porque isso era o que ela aprendeu com seu bisavô escravo liberto e usando a única ferramenta que tinha à sua disposição, ela rezou para a elevação daquele que abusou da criança pobre e com fome de sua vizinhança.  Eu digo: Àse, amém, que assim seja louvado, Alá, Olódùmarè, o Deus de Abraão e tudo que é santo, porque naquele dia os filhos deste bairro foram abençoados.
Estou sugerindo que, se a necessidade egocêntrica, arrogante e egoísta para julgar os outros feriu de alguma forma a mulher que eu vi orar sobre aquela panela de água com açúcar, então, como Àwo digo: Que vergonha para nós!
Cada minuto que é desperdiçado discutindo sobre quem faz Ifá corretamente é um minuto que poderia ter sido gasto na elevação do espírito humano. O espírito humano só é elevado, de uma forma: É elevar honrando o elo comum que temos com a Fonte da Criação. O espírito humano é honrado por saber que a sua vida fica melhor, quando a minha vida fica melhor.
Minha vida nunca ficará melhor como consequência do julgamento dos outros.
Essa é minha opinião pessoal, baseada na minha experiência pessoal e quem se importa?
O ponto mais importante é este: 
Em nenhum lugar, por todo o Corpus da Escritura de Ifá leremos um Odù que diga que Ifá é uma casta e que Ọrúnmìlá um dia decidiu jogar no lixo a iniciação de alguém.
Estou sugerindo que há uma razão para que nenhum desses Odù possa existir.
Estou sugerindo que, quando agimos em oposição à mensagem do Profeta Ọrúnmìlá e ainda alegamos ser devotos de Ifá, eu estou dizendo que quando fazemos isso, estamos engajados no processo de hipocrisia e não na elevação do espírito humano.
Há forças poderosas na nossa comunidade pressionando devotos a escolher "seu caminho", baseado na noção de que "o seu caminho" é o "único caminho".
Na minha opinião, enquanto estivermos engajados neste abuso coletivo, os ancestrais não estarão dançando no céu.
De acordo com o Profeta Ọrúnmìlá quando os antepassados ​​não estão dançando no céu as coisas não estão indo bem na terra.


Ire baba

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Conceitos de Iwá Pèlé.

Por: Áwo Falokun

Ifá é uma disciplina espiritual enraizada na ideia de que o desenvolvimento de Iwá Pèlé ou Bom Caráter é a chave para entender o destino.
Há um provérbio yorùbá que diz:
Ayanmó ni Iwá Pèlé, Iwá Pèlé ni ayanmó.
Este provérbio traduzido significa:
Destino é bom caráter, bom caráter é destino.

É a partir da referência mítica que se diz:
"... Quando o destino for incerto, será o bom caráter que eu escolherei".
A ingerência metafísica aqui é clara, se você está incerto sobre o seu destino simplesmente faça a coisa certa naquele momento.
Nascemos ómó rere, que significa:
Boas pessoas e bem-aventuradas.
O que sugere que fazendo a coisa certa no momento certo não poderemos estar em oposição ao nosso destino.
A língua litúrgica Yorùbá é freqüentemente criada através do uso de elisões.
Uma elisão é uma sentença encurtada em língua yorùbá para formar uma palavra.
Por exemplo, a palavra Ifáyabale é uma referência em Ifá ao ritual de resolução de disputas.
A palavra é Ifáyabale, elisão Ìyá bàbá ilé.
Significando:
A sabedoria das mães e pais da Terra.
Isto é tanto uma referência ao processo ritual como uma indicação clara da metodologia da resolução dos problemas.
É com a orientação dos mais velhos que nós resolvemos nossos conflitos.
Vamos usar a metodologia de análise da linguagem para termos outro olhar para a frase:
Ayanmó ni Iwá Pèlé, Iwá Pèlé ni ayanmó.
Da elisão:
Ayanmó ni Iwá ope ile Iwá ope ni àyànmó.
Temos a tradução do destino inicial sugerindo que o bom caráter é o nosso destino e nós temos uma camada mais profunda que significa olharmos para as palavras originais que formam as elisões da sentença.
A tradução torna-se então a árvore ancestral.
É o caminho para saudar a terra, saudamos a terra através da árvore ancestral.
Quando olhamos para a fonte das elisões começamos a entender o contexto desta cultura que leva à criação de palavras e frases usadas para expressar ideias espirituais.
A árvore Ayan é usada na cultura yorùbá tradicional como um altar ancestral.
A ideia de uma árvore sendo usada como um altar ancestral é baseado no símbolo da árvore da vida, o que significa que vem das raízes, nos torna o motor que da a luz e as mudas.
Uma árvore é uma manifestação viva dos ciclos de: vida (Ogbè méjì), morte (Òyèkú méjì), transformação (Ìwòrì méjì) e renascimento (Òdí méjì).
Ayan está servindo como um lar para centenas de grandes e antigas espécies de animais que vivem em harmonia em um espaço muito pequeno.
Esta harmonia cria o ventre do igbodu (cabaça da existência) que é o significado da floresta. Um igbodu é um portal inter-dimensional que liga o Òrum ao Ayè ou o Céu a Terra. Esses portais criam flashes de luz ao redor da árvore que se parece com lâmpadas se acendendo. Estes flashes de luz são chamados de Espírito do Pássaro Éyèle, significado que o pássaro Éyèle é usado pelas mães mais velhas para se comunicar diretamente com os Imortais no Òrun. A árvore Ayan também é usada para fazer tambores bata que são usados ​​para se comunicar com Egun e alguns Ebora.
Egun é o espírito coletivo da linhagem ancestral de uma pessoa.  Eborá são ancestrais divinizados que funcionam como avatares das Forças da Natureza chamado geralmente de òrìsá. A árvore Ayan é o lugar onde o yorùbá tradicional se comunica com seus ancestrais e da árvore Ayan é feito o tambor que é usado para invocar os estados alterados de consciência que melhoraram esta comunicação.
Então, o que o provérbio, Ayanmó ni Iwá Pèlé, Iwá Pèlé ni ayanmó, está nos dizendo?
Ele está dizendo que devemos usar a sabedoria dos antepassados ​​para saudar a Terra. Aos nossos olhos pode nos parecer uma expressão estranha, especialmente no que se refere à ideia de Bom Caráter (Iwá Pèlé).
Na cultura yorùbá tradicional você deve cumprimentar uma pessoa idosa. É o trabalho dos mais velhos que nos guiará no caminho do desenvolvimento espiritual. Dizemos que os anciãos guiam-nos para saudar a Terra e chamar a Terra de ancião e dar a entender que devemos viver em harmonia com a Terra, pois esta é a chave para o crescimento espiritual. Ifá está enraizado na ideia de atunwá (reencarnação).  A crença da cultura yorùbá tradicional é a de que estamos renascendo dentro de nossa linhagem biológica e que o nosso nascimento traz consigo a responsabilidade moral de corrigir o que está quebrado na história de nossa família.  Para que essa evolução espiritual ocorra os seres humanos precisam de um lugar para viver a experiência com atunwá e o lugar que escolhemos é chamado Onilé ou Terra.  Se Onilé morre a experiência com atunwá morre com ele. Isso significa que nossa primeira obrigação espiritual e disciplinar é desenvolver o Bom Caráter e cuidar da Terra. Em termos simples, nós temos a obrigação moral de deixar a Terra como um lugar melhor de se viver. A Terra é a plataforma através da qual nós escolhemos para abraçar o processo de crescimento espiritual. Na minha humilde opinião os humanos não estão fazendo um trabalho tão bom em deixar a Terra em melhor forma do que a encontramos.
Ifá pode consertar um mundo quebrado.
Esta frase faz parte das escrituras sagradas.
Eu acredito que seja verdade.
Oração coletiva é entendida na cultura yorùbá tradicional como a capacidade de abrir portais na Terra. Esses portais são chamados ventre do igbodu, que significa ‘a floresta’. Para uma cultura que define o Bom Caráter por meio da elisão Iwá Pèlé, a ideia de portais abertos por meio do uso da oração não é difícil de entender. Recentemente eu terminei uma questão sobre a visão de uma cidade americana.  Esta área foi utilizada por antigas culturas indígenas nos Estados Unidos como um centro de ritual e centro de treinamento para o sacerdócio. O canyon contém kivas numerosas. A kiva é um círculo de pedras enterradas no solo e utilizadas para realizar o ritual. Os kivas em Chaco Canyon são o seu igbodu. Eles são portais para os reinos invisíveis da Criação que Ifá chama de Òrun. Fui abençoado em Chaco Canyon ao receber instruções sobre a Terra. No mesmo momento em que eu recebi uma mensagem no Canyon uma tempestade de vento soprou e se abriram as portas da minha casa que ficava a 600 milhas de distância. Cada vez que eu piso em uma kiva sou imediatamente saudado com uma visão nova e diferente.
Era uma espécie de mudar os canais na TV.
Consciência?
Talvez.
Eu prefiro acreditar que quando chegamos para saudar a Terra, a Terra irá responder, dando-nos orientação.
Isso é o que fazem os anciãos, pois a Terra é a Mãe de todos.  Vivemos em um universo holográfico. Isso significa que sempre haverá manifestação da Criação, isto está contido dentro de cada átomo da Criação.  As informações que precisamos para corrigir o que está quebrado estão ao nosso redor e em toda parte.  
A pergunta é:
Como podemos acessar essa informação?
Temos acesso à informação para a saudação da Terra, significando, sabermos humildemente usar a sabedoria dos antepassados ​​para nos ensinar como nos comunicar com Ayan, a árvore da sabedoria ancestral.
Esta ideia foi muito bem expressa no filme Avatar quando a árvore, no centro da comunidade indígena, reunia os recursos do planeta para defender-se contra uma invasão militar.
Sim, eu sei que era um filme, porém está enraizado na verdade.

Ire o.





sábado, 18 de outubro de 2014

Ìwà Pèlé: O conceito de bom caráter no corpo literário de Ifá.

Por: Wande Abimbola.

O corpo literário de Ifá é uma importante fonte de informações sobre o sistema de crença e valores Yorùbá. Como porta voz de outras divindades, Ifá é depositário de todos os mitos e dogmas morais das outras divindades. O Povo Yorùba crê que Òrúnmìlá estava presente quando Olódùmarè (Deus todo poderoso) criou o céu e a terra. Portanto, Ifá conhece a história do céu e da terra e domina as leis físicas e morais com as quais Olódùmarè governa o universo. Por isso Òrúnmìlá é tido como sábio conselheiro, historiador e tutor da sabedoria divina. Por isso, entre seus nomes de honra está:

Akónilóran bí ìyekan eni,
Ogbón Ile ayé,
Òpìtàn Ilè Ifè.

Aquele que ensina alguém com sabedoria, como se fosse de sua família
A sabedoria da Terra,
O historiador da terra de Ifè

Os importantes conceitos filosóficos personificados no corpo literário de Ifá incluem o conceito de Orí (cabeça espiritual ou interior), ebo (sacrifício) e Ìwà Pèlè (bom caráter).
Esses três conceitos são muito relacionados e complementares entre si.  Orí é a essência da sorte e a mais importante força responsável pelo sucesso ou fracasso humano. Além disso, Orí é a divindade pessoal que governa a vida e se comunica, em prol do indivíduo, com as demais divindades. Qualquer coisa que não tenha sido sancionada pelo Orí de uma pessoa, não pode ser aprovada pelas divindades. Isso que quer dizer a declaração encontrada em Ògúndá Méjì, Ifá diz:

Orí, pèlé,
Atèténíran;
Atètègbenikòòsà
Kò sóòsa tíí dá ‘ níí gbè léyìn orí eni. 

Orí, eu te chamo
Você que sempre abençoa rapidamente os seus.
Você, que abençoa o homem antes de qualquer òrìsá,
Nenhum òrìsá abençoa uma pessoa sem o consentimento de seu Orí.

Ebo (sacrifício) é uma forma de comunicação simbólica e ritual entre todas as forças do universo. Os yoruba acreditam que, além do próprio homem, existem duas grandes forças em oposição no universo, uma benevolente em relação aos seres humanos e outra hostil. As forças benevolentes são, coletivamente, conhecidas como ìbo (as divindades), e as malevolentes são conhecidas como ajogun[i] (guerreiros opositores ao homem). As àjé (as bruxas) estão também em aliança com os ajogun para a destruição do homem e de sua obra. Os humanos necessitam oferecer sacrifício às duas forças para sobreviver. O Homem necessita oferecer sacrifício às forças benéficas para continuar gozando de seu apoio e bênçãos. Necessita também oferecer sacrifício aos ajogun e às àjé com o objetivo de não encontrar sua oposição quando estiver prestes a realizar algum projeto importante.

A divindade que age como mediador entre as três partes mencionadas acima é Èsù, que partilha um pouco dos atributos das forças benéficas e maléficas. É o policial do universo. Além disso, é imparcial, uma vez que só irá dar apoio ao homem ou divindade que tenha feito sacrifício. Isso é o que quer dizer a afirmação: eni ó rúbo Èsù gbè.
Uma vez recebido o sacrifício prescrito, ele proibirá os ajogun de prejudicar o suplicante.
Èsù é o guardião do àse, semelhante à autoridade e o poder divino com os quais Olódùmarè criou o universo. Èsù é, conseqüentemente, o verdadeiro administrador do universo, o princípio da ordem e da harmonia e agente da reconciliação. Sua esposa, Agbèrù, recebe todos os sacrifícios em seu nome. Após tirar sua parte de aárùún (cinco búzios) e um pouco de todos os outros materiais oferecidos em sacrifício. Èsù leva as oferendas para as divindades ou os ajogun envolvidos. O efeito, normalmente, é a restauração da paz e a reconciliação entre as partes conflituosas.

Uma questão emerge imediatamente quando analisamos o que foi dito até agora.
Qual o papel reservado aos seres humanos no universo Yorubá, onde o indivíduo não pode agir de forma independente de seu Orí e está à mercê de dois poderosos conjuntos de forças sobrenaturais aos quais ele deve oferecer sacrifícios incessantemente para poder sobreviver.
O indivíduo realmente importa em tal sistema? É aí que o conceito de Ìwà pèlè entra. Juntamente com um conjunto de princípios menores como àyà e esè, o princípio de Ìwà pèlè, em certo grau, liberta o homem dessa estrutura de universo autoritária e hierárquica e de qualquer forma, provém a ele com um conjunto de princípios com os qual regular sua vida, com o intuito de evitar colisões com os poderes sobrenaturais e com seus companheiros humanos. Segue-se uma pequena descrição e interpretação do princípio de Ìwà relacionado com os as crenças dos Yorubas já citadas acima.

A palavra Ìwà é formada a partir da raiz verbal wà (ser ou existir) adicionada do prefixo deverbativo “i”. O sentido original de Ìwà pode, então, ser interpretado como “o fato de ser, viver ou existir”. Assim, quando Ifá fala de

Ire owó
Ire omo
Ire àikú parí ìwà,

O significado de ìwà nesse contexto é exatamente o referido acima.

Tenho a impressão de que o outro significado de ìwà (caráter, comportamento moral) é originário da utilização idiomática deste sentido léxico original. Se este for o caso, ìwà (caráter) é, portanto, a essência de ser. O ìwà de um ser humano pode ser usado para caracterizar sua vida, especialmente em termos éticos.

Além disso, a palavra ìwà (caráter) pode ser usada para se referir a ambos, bom e mau caráter. Para exemplificar de forma declarativa, alguém poderia dizer:

Ìwà okùnrin náà kò dára
O caráter do homem não é bom.

Ìwà okurin náàá dára
O caráter do homem é bom.

Mas, às vezes, a palavra ìwà pode ser usada para se referir unicamente ao bom caráter.

Obìnrin náàá ní ìwà
A mulher tem bom caráter.

Pode-se dizer também:

1-    Ìwà pèlé (caráter bom, ou manso).
2-    Ìwà búburú /buruku (mau caráter).

Este estudo é sobre Ìwà pèlé, que pode ser traduzido como caráter manso, gentil, ou, em um sentido amplo, bom caráter.

Como mencionado acima, ìwà é tido como um dos muitos objetivos da existência humana para o Yorubá.
Todo indivíduo deve empenhar-se para ter ìwà pèlé, com o objetivo se ser capaz de ter uma boa vida num sistema dominado por muitos poderes sobrenaturais e numa sociedade controlada pela hierarquia nas autoridades.
O homem que possui ìwà pèlé não colidirá com nenhum dos poderes, sejam humanos ou sobrenaturais e, desta forma, viver em completa harmonia com as forcas que governam o universo.

É por isso que o Yoruba tem ìwà pèlé como o mais importante de todos os valores morais e o maior de todos os atributos de qualquer homem.
A essência da prática da religião para o Yoruba consiste, assim, em empenhar-se em cultivar Ìwà pèlè. Isso é o que quer dizer o ditado:

Ìwà Lèsin
(Ìwà é outro nome para a devoção religiosa)

No corpo literário de Ifá, ìwà é representada por uma mulher. Ogbè Alárá (Ogbe’sá), um dos ómó Odù Ifá diz que Ìwà era uma mulher de máxima beleza com a qual Òrúnmìlá se casou, após ela já ter se separado de diversas outras divindades. Apesar de sua beleza, Ìwà não tinha um bom comportamento.
Ela tinha péssimos hábitos e uma língua incontrolável. Além disso, ela era preguiçosa que sempre fugia de suas responsabilidades.


Após eles estarem casados há algum tempo, Òrúnmìlá já não podia mais tolerar seus maus costumes. Assim, ele a mandou embora. Porém, quase imediatamente após ela sair de casa, ele se deu conta de que mal poderia viver sem ela. Ele perdeu o respeito de seus vizinhos e foi desprezado por sua comunidade. Além disso, todos os seus devotos o abandonaram e a prática da divinação não gerava mais lucros. Faltava-lhe dinheiro para gastar, roupas para vestir e outros utensílios necessários para que vivesse uma vida boa e nobre.
Cabe esclarecer que na Nigéria o cargo de Babalawo é um oficio.
Òrúnmìlá, então colocou sua roupa de Egúngún e saiu em busca de Ìwà. Ele visitou as casas dos dezesseis mais importantes chefes do culto à Ifá, porém, não encontrou sua esposa. Ele permaneceu do lado de fora da casa de cada um dos chefes e cantou a seguinte canção:

Sabedoria da mente, sacerdote de Ifá da casa de Alárá
Consultou Ifá para Alárá,
Apelidado de Ejì Òsá, (Osá meji)
Descendente daqueles que usam bastões de ferro para fazer trinta gongos.
Grande compreensão, sacerdote de Ifá de Ajerò
Consultou Ifá para Ajerò,
Descendente do homem valente que se recusa completamente a entrar em uma briga.
Onde você viu Ìwà, me diga
Ìwà, Ìwà, é a você que estou buscando.
Se você tem dinheiro,
Mas não tem um bom caráter,
O dinheiro pertence à outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Se alguém tem filhos,
Mas lhe falta bom caráter,
Seus filhos pertencem à outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Se alguém possui uma casa
Mas lhe falta bom caráter,
Sua casa pertence à outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Se alguém tem roupas,
Mas lhe falta bom caráter
Suas roupas pertencem à outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.
Todas as boas coisas da vida que um homem tiver,
Se lhe falta bom caráter,
Pertence a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà, é a você que estamos buscando.

Após uma longa busca, Òrúnmìlá encontrou Ìwà na casa de Olójo que havia desposado ela novamente. Quando chegou à casa de Olójo, ele cantou a mesma cantiga e Olójo veio para o lado de fora para encontrá-lo.
Òrúnmìlá disse a ele que estava em busca de Ìwà, sua esposa, que o havia abandonado. Olójo se recusou a devolvê-la para Òrúnmìlá e uma disputa seguiu-se, na qual Òrúnmìlá atingiu Olójo com a pata de uma cabra com a qual havia feito sacrifício antes de sair de casa.
O impacto jogou Olójo a muitas milhas de distância. Òrúnmìlá, então, pegou sua esposa de volta, em paz. A história sobre ìwà contada acima é importante por diversas razões. Em primeiro lugar, é digna de nota que o símbolo de bom caráter seja uma mulher.
No folclore Yorùbá, a mulher representa os dois lados opostos do envolvimento emocional. As mulheres são símbolo do amor, cuidado, devoção, suavidade e beleza. Ao mesmo tempo é especialmente o poder ajè, símbolo da maldade, do endurecimento, desfaçatez e deslealdade.
Uma vez que ìwà é um atributo que pode ser tanto mau como bom (conforme explicado acima) somente as mulheres, às quais os Yorùbá lhe atribuem tal visão moral estereotipada, podem ser usadas como símbolo de ìwà.
Usando tal símbolo, o que Ifá quer que entendamos é que todo indivíduo deve tomar cuidado com seu caráter como toma conta de sua esposa. Assim como uma esposa pode ser um fardo para seu marido ou vice e versa, um bom caráter não pode ser um fardo para o justo e fiel, porém estes nunca devem se esquivar de sua responsabilidade.
As mulheres podem ser tidas como feiticeiras e mentirosas, porém o Yorùbá sabe que sem elas a sociedade humana não pode sobreviver.
Da mesma forma, o bom caráter pode ser difícil de possuir como atributo, porém se ninguém o tivesse, o mundo seria um lugar muito difícil de viver.

Em segundo lugar, é importante notar também que a própria Ìwà, é uma mulher que lhe falta um bom caráter e que se permitem péssimos hábitos. Isso significa que um homem que aspire ter bom caráter deve estar preparado para suportar aquilo que os Yorùbá chamam de ègbin (coisa suja ou indecente).
O homem que aspire ter bom caráter deve saber que algumas vezes se encontrará em situações desagradáveis, as quais ofenderam seu senso de dignidade e de decência. Ainda assim ele não deve se afastar do caminho do bom caráter sob pena de perder a própria essência e o valor da vida.

O verso de Ifá citado acima compara ìwà com outras coisas valiosas que o homem também aspira conquistar – dinheiro, filhos, casas e roupas. Ifá posiciona ìwà acima de todas essas coisas de valor. Um homem que possua todas essas coisas, mas, que não tenha ìwà, as perderá rapidamente, provavelmente, para outro que tenha ìwà e que sabia cuidar de tudo isso. Ìwà é, portanto, o mais valioso bem entre tudo aquilo que é valioso no sistema de valores Yorùbá.

Outro verso de Ifá sobre ìwà, citado pelo Sr. Modupe Alade, em sua moradia, no Egbé Ijinlè Yorùbá (Sociedade Cultural Yorùbá), Lagos, em 31 de agosto de 1967 e publicado na revista de cultura Yorùbá, Olókun nº8, de agosto de 1969, se diferencia em alguns detalhes significantes do visto anteriormente. O seguinte é extraído desse poema:

Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa cabaça,
Vamos saudar Ìwà  
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa cabaça,
Vamos saudar Ìwà  
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa pedra,
Vamos saudar Ìwà
Ifá foi consultado para Orunmilá,
Quando nosso pai ia se casar com Ìwà.
Era a primeira vez que Òrúnmìlá se casava com uma mulher,
Ìwà foi com quem ele casou,
Ìwà mesma
Era filha de Sùúrù (paciência).
Quando Òrúnmìlá propôs casamento a Ìwà,
Ela disse que estava de acordo.
Ela disse que se casaria com ele.
Mas que havia uma coisa que ele deveria observar.
Ninguém deveria mandá-la embora de seu lar nupcial.
Mas ela não deveria ser usada de forma descuidada, como alguém usa a água da chuva.
Ninguém deveria puni-la desnecessariamente.
Òrúnmìlá exclamou:
Deus não permita que eu faça tal coisa.
Ele disse que cuidaria dela.
Disse que a trataria com amor,
E que a trataria com gentileza.
Então, ele casou com Ìwà.
Após um longo tempo,
Ele se tornou infeliz com ela.
Então começou a perturbar Ìwà.
Se ela fizesse uma coisa,
Ele reclamava que ela havia feito de forma errada.
Se ela fizesse outra coisa,
Ele também reclamaria.
Quando Ìwà percebeu que aquilo era demais para ela,
Disse:
Tudo bem.
Voltou para a casa de seu pai.
Seu pai era o primogênito de Olódùmarè.
Seu nome era Sùúrù, o pai de Ìwà.
Ela, então, reuniu seus utensílios em uma cabaça,
E partiu para sua casa.
Ela foi para o òrun.
Quando Òrúnmìlá retornou, disse:
Saudações ao povo de dentro de casa.
Saudações ao povo de dentro de casa.
Saudações ao povo de dentro de casa.
Porém Ìwà não apareceu.
Nosso pai então perguntou por Ìwà.
Os outros habitantes da casa disseram que não a viram.
Onde ela foi? Foi ao mercado?
Ela foi a algum lugar?
Ele perguntou isso durante muito tempo, até que juntou dois búzios com três,
E foi para a casa de um sacerdote de Ifá.
Disseram a ele que ela havia fugido.
Ele foi aconselhado a ir e encontrá-la no lar de Alárá.
Quando ele chegou à casa de Alárá, disse:
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa cabaça,
É Ìwà que buscamos.
Vamos saudar Ìwà.
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa cabaça,
É Ìwà que buscamos.
Vamos saudar Ìwà.
Se pegarmos um objeto de madeira rágbá e batermos com ele numa pedra,
É Ìwà que buscamos.
Vamos saudar Ìwà.
Alárá, você viu Ìwà, diga-me?
É Ìwà que buscamos.
Ìwà?
Alárá disse que não havia visto Ìwà.
Nosso pai foi, então, para a casa de Òràngún, rei da cidade de Ilá
Descendente de um pássaro com muitas penas.
Ele perguntou se Òràngún tinha visto Ìwà.
Mas Òràngún disse que não tinha visto.
Mal havia outros lugares onde procurar.
Após muito tempo,
Ele voltou,
E indagou a seus instrumentos divinatórios.
Ele disse que procurou por Ìwà na casa de Alárá.
Ele a procurou na casa de Ajerò,
Ele a procurou na casa de Óràngún.
Ele a procurou na residência de Ògbérè, sacerdote de Ifá de Olówu,
Ele a procurou na residência de Àséégbá, sacerdote de Ifá de Ègbá.
Ele a procurou na residência de Àtàkúmòsà, sacerdote de Ifá de Ìjèsà.
Ele a procurou na residência de Òsépurútù, sacerdote de Ifá de Rémo
Mas eles disseram que Ìwà tinha ido para o òrun.
Ele disse que iria lá e a traria de volta.
Eles disseram: tudo bem,
Providenciaram para que ele realizasse sacrifício.
Disseram a ele que oferecesse uma rede,
E desse mel a Èsù.
Ele ofereceu o mel em sacrifício a Èsù.
Quando Èsù provou o mel,
Disse:
O que é isso que é tão doce?
Òrúnmìlá, então, entrou em sua roupa de Egúngún,
E foi para o céu.
E começou a cantar novamente.
Èsù fez um jogo de desfaçatez,
E foi para onde Ìwà estava.
Ele disse:
Um homem chegou ao céu,
Se você ouvir sua canção,
Ele diz tais e tais coisas...
É você que ele está procurando...
Ìwà então partiu (de seu esconderijo),
E foi os encontrar no local onde cantavam.
Òrúnmìlá estava em sua roupa Egúngún.
Ele viu Ìwà através da rede da roupa.
Ele a abraçou.
Aqueles que transformam a má sorte em boa, então, abriram a roupa.
Ìwà, porque você se portou de tal maneira?
Deixou-me na Terra e foi embora.
Ìwà disse:
É verdade.
Ela disse que foi por causa da forma que ele a maltratou
Que ela fugiu.
Para que ela tivesse paz em sua mente.
Òrúnmìlá então implorou para, por favor,
Que ela tivesse paciência com ele.
E voltasse com ele.
Mas Ìwà se recusou,
Mas disse:
Tudo bem
Ela ainda podia fazer alguma coisa.
Ela disse:
Você, Òrúnmìlá,
Volte para a Terra
Quando você chegar lá,
Todas as coisas que eu disse para que você não fizesse,
Não tente fazer.
Comporte-se muito bem.
Comporte-se com bom caráter.
Cuide de sua esposa,
E cuide de seus filhos.
De hoje em diante, você não colocará mais os olhos em Ìwà.
Mas eu estarei com você.
Mas, o quer que você faça para mim,
Irá determinar quão ordenada será sua vida.

O verso de Ifá relatado acima confirma o anterior em alguns aspectos. Em ambos Ìwà é uma mulher e foi esposa de Òrúnmìlá.
Além disso, em ambas as histórias, Òrúnmìlá teve que ir procurar por Ìwà depois que ela o deixou.
A canção que Òrúnmìlá cantou em ambos os poemas, enquanto buscava Ìwà é, em certo grau, similar. Apesar disso tudo, os poemas são diferentes.
O segundo poema diz que Ìwà é       filha de Sùrùú (paciência) que foi o primogênito de Olódùmarè.
Esse detalhe fundamental falta ao primeiro poema e, portanto é necessário ressaltá-lo e cabe investigação.
O segundo poema liga Ìwà com Paciência e também com o próprio Deus.
O significado disso é que o homem, para obter o bom caráter, deve em primeiro lugar, ter paciência.
É por isso que temos o ditado:
Sùrùú ni baba ìwà (Paciência é o pai do bom caráter).
De todos os atributos que um homem com bom caráter deve ter, paciência é o mais importante se todos porque a pessoa que é paciente terá tempo para meditar sobre as coisas e sempre chegar a justas e honestas conclusões. Devemos, então, ser paciente com as pessoas e aprender a ser tolerantes para podermos ter bom caráter.
Se Òrúnmìlá tivesse aprendido a ser paciente, ele não teria perdido sua esposa Ìwà.
O segundo poema liga Ìwà com Olódùmarè, que, na história, é seu avô.
O significado disso é muito claro.
Significa que Olódùmarè é a personificação do bom caráter.
Ele, então, espera que os seres humanos também tenham bom caráter. É um pecado contra a divina lei de Olódùmarè que qualquer um se desvie do caminho do bom caráter. A pessoa que fizer isso será punida pelas divindades a menos que ofereça sacrifício, o qual mostrará que se arrependeu e restaurará a paz e a harmonia na desgastada relação que seu desvio cria entre a pessoa e as forças sobrenaturais. Isso, então, é a razão pela qual o Yorùbá tem o bom caráter como à essência da religião.

O corpo literário de Ifá pode, então, ser tomado como um conjunto de poemas míticos e históricos que nos oferece, através do uso da analogia, imagens e símbolos, o que se deve fazer no intuito de estarem em paz com Deus, as forças sobrenaturais, nossos vizinhos e em verdade, consigo mesmo.
Todos esses preceitos e advertências podem ser reduzidos a um pensamento:
Atenha-se fortemente ao cultivo do bom caráter para que sua vida seja boa.
O conceito Yorùbá de existência transcende o tempo do indivíduo na Terra.
Vai além de sua época e inclui as memórias que o homem deixa após sua morte. Portanto, é fundamental ser um homem de bom caráter para que deixe boas lembranças quando se for.
Em uma sociedade que eleva os mortos a condição de ancestrais e que armazena homenagens a eles em sua arte verbal, a única recompensa durável para o homem de bom caráter reside nos poemas, nas máscaras e nas cerimônias anuais que serão feitas em sua homenagem após morte.

A importância posta, pelos Yorùbá, no princípio de ìwà mostra que as religiões tradicionais africanas são baseadas em profundos valores morais que sustentam as crenças inerentes a essas religiões.
Freqüentemente, ouvimos dos seguidores ignorantes do Cristianismo e do Islã, que as religiões tradicionais africanas não são baseadas em nenhum valor ético.
Nada pode ser mais distante da verdade.

O princípio de ìwà mostra que as religiões Tradicionais africanas estão baseadas em profundas e significativas ideias filosóficas.