sábado, 19 de maio de 2012

Osun na gruta de Esù

Fotos Márcia Pavarini



Òşún acordou num lugar iluminado por labaredas que saiam de fendas no chão, estava deitada sobre macias peles de animais que não davam para precisar quais eram. Sobre sua cabeça havia centenas de estalactites no teto da ampla caverna, cuja cor estava perto do laranja ou vermelho, dependendo da oscilação das chamas. Quando se levantou, observou que aos pés dos aposentos uma cesta repleta de mamões, seus frutos prediletos. Num giro pelo lugar pôde ver a amplitude da caverna que era repleta de aberturas laterais, eram como portas que poderiam dar em qualquer lugar.
Indignada começou a rodar em volta de si e gritar desesperada:
Èşù, Èşù, onde está você?
Por que me abandonou aqui?
Sua voz ecoava pela caverna fazendo parecer que havia muitas pessoas lá arremedando sua voz, isto irritava fazendo com que ela colocasse as mãos aos ouvidos e ajoelhar-se no chão. Depois de muito choro e lamentos, decidiu calar-se. Quando se levantou para arriscar entrar em uma das aberturas da caverna, ouviu um barulho que parecia ser de alguém que chegava.
De uma das aberturas atrás dela surgiu sorridente Èşù, perguntando docilmente:
Oh! Minha amada, já acordou?
Desculpe-me a ausência, precisei retirar-me por um instante apenas para guardar o meu pedaço de Oòrùn.
Você não cumpriu o combinado!
Trazia-me no colo e de repente, acordei aqui sozinha, sem nem saber como aqui cheguei!  Disse ela furiosa.
Nada posso fazer se no meio do caminho você adormeceu. Mas não vejo onde não cumpri o combinado, já que você agora conhece minha caverna. Não se alegra ao saber que é a única a conhecê-la? Disse ele astutamente deitando-se sobre as peles.
Vendo a possibilidade de seu plano ir por água abaixo, ela se jogou ao chão e começou a chorar.
Comovido pelos soluços da Iyàgbà, ele chegou perto e lhe acariciou os cabelos, tirando deles as pétalas das flores soltas. Percebendo a comoção do pandego, ela chorava mais e mais.
Não é necessário tal pranto, o que fiz eu de errado? Perguntou Èşù pacientemente.
Nada - disse ela, enxugando as lágrimas do rosto com as mãos - eu que sou uma tola.
Como posso estar aqui aos prantos na presença de tão viril e belo òrìşà?
Então por que chora? Disse ele totalmente embebido em sua vaidade.
É que eu gostaria de tocar o pedaço do Sol, uma vez que é parte dos meus pais, que há muito me deixaram em nome de iluminar o mundo em que vivo. Sinto que isto me faria matar um pouco da saudade que sinto deles.
Sinto seu pesar, mas acredito que tal objeto só aumentará a falta que sente! Disse Èşù, procurando esquivar-se.
Engano seu, eu sei que será bom para mim! Ela insistiu.
Bom! Então eu vou buscar! Concluiu virando-se em direção à abertura de onde saíra há pouco.
Não! Espere! Eu não vou ficar aqui só de novo! Falou, correndo atrás do pandego.
Lamento, mas não poderá ir até minha gruta secreta! Èşù mostrou-se arredio.
Por que não quer que eu vá até sua câmara secreta, se nem sequer sei chegar até aqui.
Èşù pensou por um momento e caiu diante do argumento da Iyàgbà, concordando que ela não oferecia perigo nenhum.
Os dois iam pelas grutas, enquanto Èşù, esperto, entrava em várias aberturas, procurando deixá-la desnorteada.  Òşún, usando de toda sua sagacidade, foi jogando pelo caminho as pétalas das flores que estavam em suas melenas, com o máximo cuidado, para ele não perceber.
Quando chegou à câmara secreta de Èşù, ela ficou maravilhada, ao ver tantos pertences valiosos, e não economizou elogios ao pandego, que parecia desmanchar-se a cada palavra. Ele se abaixou e pegou a bola brilhante e entregou nas mãos dela. Uma sensação esquisita tomou conta da Iyàgbà, tal objeto mostrou que exercia uma imensa força sobre seu ser, um forte desejo de ter o pedaço de a qualquer custo, seus olhos brilhavam e espelhavam os pensamentos maléficos que passavam pela sua mente, fazendo com que tirasse os pés do chão por um instante, várias ideias sem nexo boiava na sua cabeça, o brilho da esfera fazia sua cabeça girar, girar...
Òşún! Òşún! Este é o presente que ganhei de Ifá, o jogo de búzios - disse Èşù entregando a ela as conchas.
As palavras dele trouxeram-na de novo a realidade, ela, como se tivesse acordado de um sonho, entregou-lhe a bola com uma imensa dor e pegou o jogo.
Veja! É através deste jogo que fico sabendo presente, passado e futuro...
Maravilhoso! Disse ela, pegando as conchas e comprimindo-as ao corpo como se quisesse que elas atravessassem sua pele, num estado hipnótico. Chegou a pensar em Ifá, seu tio, com ressentimento.
Enquanto Èşù mostrava seus tesouros, ela não parava de pensar em como adquirir a bola dourada, às vezes soltava um elogio furtivo, tentando disfarçar seu intento.
Depois de saciada a curiosidade dela, ele a levou para os seus aposentos, para eles se deleitarem. Sem esquecer seu plano, a bela Iyàgbà entregou-se a um grande momento de amor, fazendo o pandego suar, uivar e gastar sua energia, falando falsas palavras de amor eterno com as quais ele delirava. Depois de muito tempo, o grande vigor dele caiu por terra, ela o levara à exaustão, fazendo-o cair em sono profundo.
Quando teve a certa de ele não levantaria, ela, seguindo as pétalas pelo chão, correu para o esconderijo na intenção de resgatar o objeto que, para ela, pertenciam-lhe por direito. Chegando à câmara secreta ela se abaixou para pegar a esfera, viu os búzios e decidiu levá-los também. Rapidamente ela pegou um pedaço de seu aşọ, fez uma trouxa onde ocultou os objetos e silenciosamente voltou para os aposentos. Na ânsia de obter o que queria, ela se esqueceu de como faria para sair dali, olhava para as aberturas na caverna e começou a sentir-se tonta. De repente prestou a atenção nas labaredas que saiam do chão e constatou que de uma das aberturas sobrava um vento quase imperceptível. Usando toda sua intuição, foi seguindo a brisa pelas aberturas da caverna.
Ao despertar todo amoroso, ele procurou Òşún pelos seus aposentos na intenção de elogiá-la pela grande noite de amor. Quando descobriu que ela não estava, ele correu para a sua câmara secreta, lá deu falta de seus bens preciosos. Cuspindo fogo por toda caverna, Èşù decidiu vingar-se. Foi correndo e vociferando pela gruta em direção à saída.

Òşún já estava quase saindo, quando ouviu o eco dos berros de Èşù. Procurando preservar-se, ela correu sem olhar para trás. Ele saiu da caverna emanando fogo para todos os lados, fazendo a floresta arder em fogo. Quando avistou um rio, ela mergulhou em suas águas, para fugir das chamas.

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