quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Julgamento de Obatálá

Ao contrário das festas, apenas os òrìşà estavam presentes no conselho. Nàná mesmo distante e envergonhada. Ela recusava-se a chegar perto dos pândegos e, se pudesse opinar, certamente condenaria Èşù, além de odiar qualquer ser masculino, adorava Òşún, a única que foi visitá-la e presenteá-la após ter sido banida do reino por Ợbatálá.
Ọsànyìn, embora não era visto por ninguém, fazia-se presente, de quando em quando assoviava e ria. Muitas versões corriam entre todos, muitas delas já haviam sofrido os efeitos da boca-a-boca transformando-se nas mais absurdas histórias.
Şàngó prostrou-se ao lado de Òòşàálá, enquanto Èşù e Òşún ficaram em pé frente a frente no centro do conselho. Os olhos de fogo soltavam chispas, enquanto os olhos d’água dela lacrimejavam.
- Com o poder me concedido por Ọlọrùn, o criador, convoquei a todos, para presenciarem este julgamento. Espero que todos tomem por conhecimento o que virem e ouvirem hoje! Falou Òòşàálá com eloquência. Sob os olhos dele, Şàngó conduziu o julgamento. Pediu a Èşù e Òşún que contassem suas versões. Depois chamou Ifá para esclarecer sobre os búzios.
Com o coração partido, já que tinha que desmentir a versão de sua sobrinha e filha de criação, contou a todos como e porque deu o jogo ao pandego. À medida que Ifá relatava, Èşù enchia-se de razão e Òşún ia curvando-se sobre si.
- Ifá! Disse Òòşàálá, acredito que não agiu certo dando tão poderoso jogo a um só òrìşà!
- Sim, Òòşàálá! Eu concordo. Para corrigir isto - disse Ifá, pegando os búzios e jogando-os para o céu - determino que a partir de agora cada búzio representará um òrìşà no jogo. E como a princípio eu o dei a Èşù, todos que forem consultar este jogo deverão pedir permissão a ele.
Para esclarecer sobre a esfera, Oduduwa fez-se presente.
- Venho falar a verdade, pois presenciei o fato. Èşù, preso em sua ambição, retirou essa bola brilhante de uma aldeia, que ruiu pela falta de tal artefato e, mesmo tendo sido alertado do que poderia acontecer, nem sequer se abalou.
Após o relato da ‘mãe natureza’ houve um burburinho entre os presentes, Èşù abaixou a cabeça e cerrou os punhos. Şàngó sentou-se e Òòşàálá levantou-se dizendo:
- Visto os fatos, concluo que: tanto um quanto outro errou: por um lado Òşún roubou artefatos que pertenciam a outro òrìşà, por outro lado, Èşù mentiu, dizendo ter tirado um pedaço de Oợrùn, mas de fato dizimou uma aldeia. Diante dos fatos eu decido que a esfera dourada não ficará com nenhum dos dois, mas pertencerá a ambos: o metal ficará incrustado nas rochas, aprisionando a ganância de Èşù, mas para ser tirado, precisará ser garimpado nas águas, para lavar a inveja de Òşún.
Enquanto a Iyàgbà chorava, Èşù falou irado.
- Acato o veredicto - virando-se para Òşún, praguejou - já que fui enganado e julgado por conta deste metal, todo aquele que tiver contato com ele, assim como você, mostrará seus demônios, sendo tomado pela nossa ambição presa nele.
Ao sair do conselho, Èşù irado jurou para si que sempre perseguiria tanto Òşún quanto qualquer um que vivesse sob sua proteção (daí nasceram os Epurin, filhos (as) de Òşún perseguidos por Èşù), e, como vingança, inseriu sementes negras nos frutos prediletos dela, os mamões, para que, quando ela fosse comer, sentisse sua presença e se lembrasse do mal que lhe fez.


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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.