sábado, 12 de maio de 2012

A Grande Festa



De tempos em tempos, todas as tribos dos òrìşà se reuniam, para fazer a troca de energia entre eles. Èşù, como era muito exibido, achou por bem levar sua última descoberta, para mostrá-la a todos.
Ọșóòsì, o grande caçador, trouxe um grande animal de infinita beleza, para alimentar a todos, ofertou frutas e legumes em enormes cabaças. Ogun mostrou a todos a nova arma que forjara e logo tratou de abater o bicho trazido pelo caçador. Obá e Osun, que sempre colocavam à prova suas habilidades culinárias, ofereciam as mais diversas iguarias. Ọmọlu, com toda sua humildade, contou sobre as novas doenças que conheceu em suas últimas andanças. Ọsànyìn, do meio da mata, ensinou sobre novas ervas de cura. Cada òrìşà tinha uma novidade para oferecer aos outros.
A certa altura da festa, Èşù tirou de seu aşọ (roupa) um objeto que parecia ter luz própria e ergueu-o sobre sua cabeça, neste momento Ogun e Òòşàálá pararam de falar, Ọșóòsì fez calar os atabaques, Iyansan, Iemanjá e Osun pararam de dançar, Şàngó, Obá e Ọmọlu deixaram de comer, Nàná, Ợșumàrè e Ewà abandonaram suas tendas, todos deixaram o que estavam fazendo para admirarem o maravilhoso artefato.
Percebendo a estupefação de todos os òrìşà e suas tribos frente a sua descoberta, Èşù encheu-se de satisfação e desfilou entre os presentes, para que todos pudessem ver de perto a esfera dourada, sem deixar ninguém tocá-la. A cada comentário, a cada sussurro de surpresa, ele girava num pé só e delirava, a energia que sentia em seu corpo podia fazê-lo levitar.
- Vejam - sussurravam alguns presentes - Èşù pegou um pedaço do Oòrùn!
- Que objeto maravilhoso! Diziam os mais estupefatos - que provas ele teve que vencer para conseguir tal artefato?
Esses eram alguns dos comentários que corriam entre os mais entusiasmados. Como ele tinha os ouvidos apurados, gostou da ideia, viu nisto uma forma de aumentar sua glória. Frente aos ansiosos pedidos de lhes revelar o que ele havia feito para obter a esfera dourada ele disse com soberba.
- Cansado de explorar a Terra, que parece já não ter mistérios que alimentem minha ânsia do saber, descobri um modo de ir a outros lugares do universo (mentira), perambulando pelos astros passei pelo Oòrùn, de onde tive a ideia de tirar este pedaço do astro rei, para provar a minha bravura.
Depois do instante de silêncio que sucedeu à narrativa, um alarido tomou conta do lugar, enquanto uns duvidavam da sua história, outros se entregavam à sua inigualável intrepidez, fazendo-lhe os mais diversos elogios.
Osun, filha do Oòrùn e a mais bela Iyàgbà de toda Terra, sentiu suas pernas tremerem e sua boca secar, dirigindo-se para sua tenda, pensou consigo:
A Como meu querido pai pôde consentir que este esnobe o visitasse, sendo que eu, sua querida filha, nunca pude sequer fitá-lo daqui?

Como este convencido se atreve a pegar um pedaço de meu pai? Durante um bom tempo ela permaneceu calada, sua ira confundia-se com sua tristeza. Quando sua mente parou de pensar por um instante na audácia de Èşù, ela atinou um plano: decidiu ter o objeto que acreditava ser um pedaço do Oòrùn, fazendo-se valer de sua beleza para seduzir o presunçoso pandego.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.