quarta-feira, 9 de maio de 2012

Esù Descobre o Ouro



Èşù nunca gostou de ficar parado num só lugar, seu prazer era andar pelas tribos, chamar a atenção de todos, contando suas aventuras (sempre aumentando um pouquinho) e gabando-se por suas descobertas.
Muitas vezes causava intrigas, fazendo o leva-e-traz, pois tinha acesso livre a todos os reinos. Embora fosse brincalhão (deleitava-se ao pregar uma peça em alguém), gostava de estar sempre bem com todos, pois era muito político, fazia de tudo para agradar.
Muitos o estimavam, era o òrìşà com maior número de adoradores, ele conquistava a admiração de todos, fosse com suas previsões, dadas pelo seu jogo de búzios, fosse com uma boa conversa: falava do que sabia com eloquência e do que não sabia, sofismava com eloquência, quando era surpreendido num assunto que pouco sabia, mudava de assunto tão rapidamente que ninguém percebia.
Sua chegada às tribos era motivo de festa, as crianças saiam saltitantes de moradia em moradia, anunciando entre palmas e gritos. As pessoas se atropelavam e o circundavam, tentando tocá-lo. Quando ele parava no meio da aldeia, todos se sentavam a sua volta, ouvindo-o contar as notícias e suas peripécias, que provocam risos e veneração.
Èşù era sempre portador de uma novidade, trazendo sob suas vestes algo inusitado, curiosidades que arrancavam urros de espanto dos espectadores. Quando percebia que as pessoas se cansavam de seus pertences e suas histórias e não lhe davam a devida atenção, ou ele aprontava uma pilhéria, ou entediava-se e ia embora, procurando obter a esperada consideração em outra tribo.
Numa dessas visitas a uma tribo, enquanto Èşù contava suas aventuras com maestria, um forte tremor de terra fez com que todos os espectadores debandassem entre gritos desesperados, deixando o narrador sozinho no meio da aldeia. Após o rápido terremoto, o silêncio era tão grande que se podia ouvir o pensamento do pandego. Passou por sua mente a vontade de descobrir o que sucedera.
Era Odùdúwà, a mãe natureza, demonstrando sua ira, devido à grande devastação que ocorrera numa disputa entre tribos, onde uma botou fogo na vegetação da outra, em busca de enfraquecimento do inimigo. O incêndio atingiu grande parte de uma floresta, dizimando a fauna e a flora da região.
Perplexo, ele levantou-se como quem esperava o pior, pois o silêncio era um mau presságio. Quando ele ameaçou caminhar, um novo tremor sucedeu desta vez, mais forte e duradouro, as pedras rolaram e os gritos ecoaram pela aldeia, grandes árvores caíam por terra, arrastando consigo séculos de história. Os pássaros abandonavam as árvores em revoada, os macacos pulavam de galho em galho em total desespero.
Aos pés de Èşù o chão começou a se abrir, formando uma imensa fenda, fazendo a terra sangrar, mostrando a lava incandescente. Quando a ferida começou a cuspir bolas de fogo, o chão parou de tremer. O fogo não abalou a confiança dele, que mesmo em meio à grande e espessa fumaça, avistou um material que brilhava como a luz do Sol. Dando vazão a sua curiosidade, chegou perto da lava, uma vez que ele era o senhor do fogo e dos vulcões, o calor não lhe fez mal algum. Com as mãos colheu o material, tratava-se de uma esfera de brilho estonteante, cuja cor dourada chegava a ofuscar seus olhos, que eram duas bolas de fogo. Frente à infinita beleza, ele decidiu apossar-se da bola brilhante no intuito de juntá-la às suas outras descobertas, que ficavam escondidas em sua gruta, cujo caminho só ele conhecia.
A fumaça e a lava já se dissiparam, quando o pandego, vislumbrando seu achado, dirigia-se para fora da aldeia. Tomado por um grande delírio, pôde ouvir alguém atrás de si. Era o chefe da aldeia, correndo em sua direção, tropeçando, gritando aflito:
- Oh! Senhor das peripécias, eu suplico, não carregues nosso precioso objeto, pois nele está o sustento de nossa aldeia! Se tirá-lo de nós, tudo a nossa volta ruirá!
Demonstrando profundo desdém, o viril òrìşà abandonou o local, tomado pela energia da valiosa esfera.

À medida que Èşù se afastava, o que havia sobrado da aldeia caía por terra, dizimando todos que ali estavam transformando tudo em pó e profundo silêncio.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.