quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Busca de Esù

Osun, sabendo que Esù não descansaria enquanto não a encontrasse, saiu espalhando, pelas tribos por onde passava que resgatara os bens valiosos que lhe foram roubados e que ele havia mentido quando disse a todos que eram suas descobertas. Por conta das peripécias dele e sua grande capacidade de inventar histórias, todos tenderam a acreditar na Iyàgbá, dando-lhe cobertura na fuga, mas sem lhe dar guarida, por temerem perder a simpatia dele.
Diante da dificuldade em se esconder, ela decidiu pedir abrigo a Òsóòsi, seu grande amor. Depois de ouvir a versão dela, ele decidiu abrigá-la em sua mata. O caçador tinha ciência de que o sagaz pandego não a incomodaria, enquanto estivesse por perto, mas sabia que, quando fosse caçar, nada deteria o furioso òrìsá, assim aconselhou Osun a procurar Iemanjá, cujo reino ficava no fundo do mar.
Depois de uma longa busca, Esù ficou sabendo onde a deusa da beleza estava escondida. Inconformado ele foi ao reino de sua mãe, com a certeza de que ela o ouviria a ponto de fazer Osun devolver-lhe seus bens preciosos.
Ele foi bem recebido, mas Iemanjá parecia ressabiada com a presença dele.
- Minha mãe! Disse ele com reverência.
- Meu filho! O que o traz por estes lados? Indagou tentando disfarçar.
- Minha mãe deve saber o motivo de minha inusitada visita, já que não costumo vir a seu belo reino. Esù ironizou.
- Bom! Já deveria saber que não viria aqui simplesmente para me ver.
- Já sei que Osun deve ter contado sua versão, fiquei sabendo em algumas tribos por onde passei. Espero que pelo menos a senhora minha mãe acredite na minha versão - falou curvando-se em respeito à benevolente Iyàgbá.
- Como posso acreditar em suas histórias, sendo que já mentiu tanto para todos. Quem pode me assegurar que conta a verdade agora? Desafiou Iemanjá.
- Como pode preterir seu próprio filho, para proteger uma Iyàgbá tão perversa!
Ele levantou, soltando chispas pelos olhos, fincou o pé no chão, levantou seu tridente e continuou furioso.
- Minha mãe pode escondê-la por enquanto, mas não sossegarei enquanto não obtiver o que por direito me pertence!
Ele virou-se de costas para Iemanjá, mostrando indignação e desrespeito, e saiu rapidamente, deixando suas pegadas ardendo em fogo no caminho que tomou para sair do reino.
À medida que andava, Esù sentia a fúria transformar-se em consternação: como sua mãe escolheu proteger Osun que o roubara?
Óosáàlá e Sàngo vinham conversando animados pelo caminho, andavam em direção ao reino de Iemanjá. Falavam sobre a evolução dos reinos, as guerras e as doenças. Às vezes riam, às vezes calavam-se, buscando levantar novos assuntos para deliberarem. Foi num intervalo destes que Sàngo avistou mais à frente alguém caminhando cabisbaixo.
- Olhe meu ‘pai’, aquele não é Esù? Perguntou Sàngo, apontando na direção do pandego.
- Sim! Mas o que aconteceu para estar tão absorto? Indagou Óosáàlá.
Esù nunca foi visto daquele jeito, sempre aparecia animado, sorridente e sempre atento, prestes a pregar a peça em alguém. Tal comportamento despertava o interesse de qualquer um que o visse.
- O que aconteceu com você, meu filho? Indagou Óosáàlá, ao chegar perto de Esù - Parece que é algo muito grave!
O tristonho contou-lhes o que sucedera: a conduta de Osun e o desprezo de Iemanjá.
Frente à atitude de sua amada, Iemanjá, Óosáàlá começou a desconfiar dele, devido seus antecedentes, já que tanto ele quanto Sàngo não sabiam do ocorrido. Frente ao relato, ele disse em tom punitivo, apoiando-se em seu cajado:
- Vejo que você não tem jeito! Sempre arrumando confusão! Ordeno...
- Espere, meu ‘pai’! Atalhou Sàngo - acredito que, antes de condená-lo, deveríamos ouvir Osun, para sabermos o que realmente aconteceu.
Diante do conselho de tão justo òrìsá, Óosáàlá pensou e decidiu ouvir a versão de Osun.
Os três dirigiram-se para o reino de Iemanjá rapidamente, Óosáàlá ouvia os conselhos de Sàngo, enquanto Esù não dizia uma palavra.
O ‘senhor do fogo’ não quis entrar no reino, seguiram então Óosáàlá e Sàngo, ansiosos para encontrarem Osun.
Uma vez no reino de Iemanjá, Óosáàlá ordenou que a bela Iyàgbá viesse a sua presença, para relatar-lhes o acontecido. Ela então veio e contou sua versão, chorando e soluçando. Quando o supremo tendia a acreditar na história dela, Sàngo interviu, dizendo que seria necessário colocar os dois frente a frente, para apurar quem dizia a verdade.
Osun mostrou-se resistente perante a ideia, temendo ser desmascarada, alegou estar com medo da fúria de Esù. Sentindo que algo de errado havia na recusa, Óosáàlá prometeu que nada lhe aconteceria e convocou todos os òrìsás para um conselho.

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