terça-feira, 29 de maio de 2012

Quem vencer o inimigo interno não deve temer o inimigo externo



Aqueles que adoram òrìsá estão empenhados em encontrar uma maior consciência de si e do mundo.  Ifá ensina que este caminho tem suas raízes no processo de superação do medo.  Há aqueles que vivem com medo e perpetuam este medo em vez de encontrar o seu destino. Ifá como a maioria das tradições espirituais, ensina que o medo é superado pela coragem.  Não há maneira fácil de acessar a coragem e a cada confronto com o medo envolve uma ação, apesar do medo. Ifá reconhece que uma das maneiras mais fáceis de evitar o medo é sufocá-lo.
Por exemplo, se alguém está com medo de falhar, enquanto procura um emprego, argumentando que o medo pode negar que não há empregos disponíveis.  Os psicólogos chamam esse processo de "deriva".
Um elemento-chave na vida em harmonia com o òrìsá é a capacidade de identificar, apoiar e transformar esses medos internos que impedem a ação.
Este provérbio é muito claro em afirmar que uma vez que os medos interiores forem superados. os medos que ocorrem no mundo exterior tornam-se insignificantes. Um dos rituais usados ​​para desafiar o medo é a invocação de Ogum. A invocação é seguida por um pedido a Ogum para que os obstáculos que estão no caminho sejam removidos para o fortalecimento do destino pessoal.  Quanto mais eu sabia que Ogum era reverenciado na África por este motivo, mais claro também ficava para as pessoas que atendiam a este chamamento a Ogum, a surpresa ficava em descobrir que os obstáculos são internos e não externos.
Em termos literais a obstrução é imaginária e não real. De acordo com as escrituras de Ifá, os obstáculos criados são chamados de “demônios” imaginário ou em nossa cultura chamamos de Elenini. Os demônios imaginários são difíceis de dissipar, porque eles permanecem ilusórios, sempre mudando de forma, pouco antes de uma real transformação ocorrer. Eu acho que muitas pessoas que disseram que queriam ter sucesso em suas carreiras, mas nunca fizeram progressos concretos, freqüentemente tinham muitas desculpas para esta situação, normalmente focavam em exemplos reais de tratamento injusto.
Quando a divinação indica que a questão principal é o medo do sucesso, a mensagem pode ser muito difícil de ser  aceita. Na minha experiência, aqueles que não aceitam que o seu problema é o medo, geralmente são aqueles que não progridem.

Por Awo Fatumnbi

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Alágbá - O conceito Ifá de se tornar um ancião


Uma homenagem a este grande homem Baba Olatunji.

Por: Awo Fatunmbi.

O papel dos anciãos é extremamente importante dentro da estrutura global da cultura iorubá. Eles são os mais antigos membros da comunidade iorubá tradicional que servem como um elo entre as crianças amadurecerem e os Mistérios do Espírito.  O procedimento para se tornar um, é uma cerimônia muito elaborada e envolve uma ampla gama de funções nas diferentes comunidades de Ifá / òrìsá.  Em nossa língua estas funções geralmente recaem sob o título de "Chefe".  Para homens e mulheres, a transição do adulto na maioria das vezes envolve uma mudança na responsabilidade comum.
Em comunidades tradicionais iorubás homens adultos têm a responsabilidade de proteger e defender a família no sentido amplo. Esta responsabilidade inclui o fornecimento de alimento e abrigo durante o desenvolvimento das habilidades em artes, lutas e etc.
Em geral, a responsabilidade das mulheres adultas (a mente da economia familiar, no sentido amplo.) inclui a tarefa de processar os alimentos cultivados na fazenda e vender os bens produzidos pela família no mercado.
Quando um homem fica mais velho e começa a experimentar a perda da força física, assume o papel de Babágbà.
Babágbà significa "pai mais velho ou idoso", mas envolve também a conotação cultural de "pai provedor". Babágbà é o elo entre o jovem da família no sentido nato e os profundos mistérios do òrìsá.
Quando uma mulher fica mais velha e começa a experimentar uma diminuição na sua responsabilidade em criar os filhos, assume o papel de Iyáàgbà. Iyáàgbà significa "mãe mais velha", mas envolve também a conotação cultural da "mãe guerreira". Iyáàgbà é quem preserva os segredos da autodefesa psíquica e tem um papel fundamental na proteção espiritual da família, tanto no sentido amplo da comunidade como um todo. Isso é muitas vezes feito através da sociedade secreta das mulheres chamadas Ìyáàmi.
A palavra Ìyáàmi é normalmente traduzida como "as bruxas" e é muitas vezes uma associação negativa.  A tradução literal da palavra é Ìyáàmi é: "Nossa Mãe". É uma referência para a sociedade das mulheres mais velhas.
Esta sociedade é de fundamental importância para o culto de Ifá. Sem rituais Ìyáàmi, a completa expressão de Ifá não é possível. Entre outras coisas Ìyáàmi ajuda a manter o equilíbrio do poder espiritual e político entre homens e mulheres. O papel das Ìyáàmi em grande parte se perdeu nas comunidades de Ifá / òrìsà da diáspora. Está se fazendo um esforço sério no Ocidente para trazer esse elemento essencial do culto de Ifá da África.
É comum em formas ocidentais de culto ao órìsà assumir que Ifá é uma religião patriarcal que recai exclusivamente sobre o poder e a influência dos homens. Esta não é a minha experiência em Ifá, nem tampouco a praticada na África. Todos os aspectos do cerimonial de Ifá representam a composição das forças da natureza de ambos os sexos, bem como a participação de membros do sexo feminino e masculino do sacerdócio. A confusão nesta área pode ser baseada no fato de que o papel das mulheres no ritual machista é geralmente escondido e secreto, bem como o papel masculino nos rituais das mulheres.  Os detalhes dessa interação são um tabu para os nãos iniciados, mas minha esperança é que essas integrações das forças espirituais no Ocidente continuem a evoluir, enquanto os elementos que estão em falta e são da nossa tradição sejam restaurados neste continente.

O Julgamento de Obatálá

Ao contrário das festas, apenas os òrìşà estavam presentes no conselho. Nàná mesmo distante e envergonhada. Ela recusava-se a chegar perto dos pândegos e, se pudesse opinar, certamente condenaria Èşù, além de odiar qualquer ser masculino, adorava Òşún, a única que foi visitá-la e presenteá-la após ter sido banida do reino por Ợbatálá.
Ọsànyìn, embora não era visto por ninguém, fazia-se presente, de quando em quando assoviava e ria. Muitas versões corriam entre todos, muitas delas já haviam sofrido os efeitos da boca-a-boca transformando-se nas mais absurdas histórias.
Şàngó prostrou-se ao lado de Òòşàálá, enquanto Èşù e Òşún ficaram em pé frente a frente no centro do conselho. Os olhos de fogo soltavam chispas, enquanto os olhos d’água dela lacrimejavam.
- Com o poder me concedido por Ọlọrùn, o criador, convoquei a todos, para presenciarem este julgamento. Espero que todos tomem por conhecimento o que virem e ouvirem hoje! Falou Òòşàálá com eloquência. Sob os olhos dele, Şàngó conduziu o julgamento. Pediu a Èşù e Òşún que contassem suas versões. Depois chamou Ifá para esclarecer sobre os búzios.
Com o coração partido, já que tinha que desmentir a versão de sua sobrinha e filha de criação, contou a todos como e porque deu o jogo ao pandego. À medida que Ifá relatava, Èşù enchia-se de razão e Òşún ia curvando-se sobre si.
- Ifá! Disse Òòşàálá, acredito que não agiu certo dando tão poderoso jogo a um só òrìşà!
- Sim, Òòşàálá! Eu concordo. Para corrigir isto - disse Ifá, pegando os búzios e jogando-os para o céu - determino que a partir de agora cada búzio representará um òrìşà no jogo. E como a princípio eu o dei a Èşù, todos que forem consultar este jogo deverão pedir permissão a ele.
Para esclarecer sobre a esfera, Oduduwa fez-se presente.
- Venho falar a verdade, pois presenciei o fato. Èşù, preso em sua ambição, retirou essa bola brilhante de uma aldeia, que ruiu pela falta de tal artefato e, mesmo tendo sido alertado do que poderia acontecer, nem sequer se abalou.
Após o relato da ‘mãe natureza’ houve um burburinho entre os presentes, Èşù abaixou a cabeça e cerrou os punhos. Şàngó sentou-se e Òòşàálá levantou-se dizendo:
- Visto os fatos, concluo que: tanto um quanto outro errou: por um lado Òşún roubou artefatos que pertenciam a outro òrìşà, por outro lado, Èşù mentiu, dizendo ter tirado um pedaço de Oợrùn, mas de fato dizimou uma aldeia. Diante dos fatos eu decido que a esfera dourada não ficará com nenhum dos dois, mas pertencerá a ambos: o metal ficará incrustado nas rochas, aprisionando a ganância de Èşù, mas para ser tirado, precisará ser garimpado nas águas, para lavar a inveja de Òşún.
Enquanto a Iyàgbà chorava, Èşù falou irado.
- Acato o veredicto - virando-se para Òşún, praguejou - já que fui enganado e julgado por conta deste metal, todo aquele que tiver contato com ele, assim como você, mostrará seus demônios, sendo tomado pela nossa ambição presa nele.
Ao sair do conselho, Èşù irado jurou para si que sempre perseguiria tanto Òşún quanto qualquer um que vivesse sob sua proteção (daí nasceram os Epurin, filhos (as) de Òşún perseguidos por Èşù), e, como vingança, inseriu sementes negras nos frutos prediletos dela, os mamões, para que, quando ela fosse comer, sentisse sua presença e se lembrasse do mal que lhe fez.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Busca de Esù

Osun, sabendo que Esù não descansaria enquanto não a encontrasse, saiu espalhando, pelas tribos por onde passava que resgatara os bens valiosos que lhe foram roubados e que ele havia mentido quando disse a todos que eram suas descobertas. Por conta das peripécias dele e sua grande capacidade de inventar histórias, todos tenderam a acreditar na Iyàgbá, dando-lhe cobertura na fuga, mas sem lhe dar guarida, por temerem perder a simpatia dele.
Diante da dificuldade em se esconder, ela decidiu pedir abrigo a Òsóòsi, seu grande amor. Depois de ouvir a versão dela, ele decidiu abrigá-la em sua mata. O caçador tinha ciência de que o sagaz pandego não a incomodaria, enquanto estivesse por perto, mas sabia que, quando fosse caçar, nada deteria o furioso òrìsá, assim aconselhou Osun a procurar Iemanjá, cujo reino ficava no fundo do mar.
Depois de uma longa busca, Esù ficou sabendo onde a deusa da beleza estava escondida. Inconformado ele foi ao reino de sua mãe, com a certeza de que ela o ouviria a ponto de fazer Osun devolver-lhe seus bens preciosos.
Ele foi bem recebido, mas Iemanjá parecia ressabiada com a presença dele.
- Minha mãe! Disse ele com reverência.
- Meu filho! O que o traz por estes lados? Indagou tentando disfarçar.
- Minha mãe deve saber o motivo de minha inusitada visita, já que não costumo vir a seu belo reino. Esù ironizou.
- Bom! Já deveria saber que não viria aqui simplesmente para me ver.
- Já sei que Osun deve ter contado sua versão, fiquei sabendo em algumas tribos por onde passei. Espero que pelo menos a senhora minha mãe acredite na minha versão - falou curvando-se em respeito à benevolente Iyàgbá.
- Como posso acreditar em suas histórias, sendo que já mentiu tanto para todos. Quem pode me assegurar que conta a verdade agora? Desafiou Iemanjá.
- Como pode preterir seu próprio filho, para proteger uma Iyàgbá tão perversa!
Ele levantou, soltando chispas pelos olhos, fincou o pé no chão, levantou seu tridente e continuou furioso.
- Minha mãe pode escondê-la por enquanto, mas não sossegarei enquanto não obtiver o que por direito me pertence!
Ele virou-se de costas para Iemanjá, mostrando indignação e desrespeito, e saiu rapidamente, deixando suas pegadas ardendo em fogo no caminho que tomou para sair do reino.
À medida que andava, Esù sentia a fúria transformar-se em consternação: como sua mãe escolheu proteger Osun que o roubara?
Óosáàlá e Sàngo vinham conversando animados pelo caminho, andavam em direção ao reino de Iemanjá. Falavam sobre a evolução dos reinos, as guerras e as doenças. Às vezes riam, às vezes calavam-se, buscando levantar novos assuntos para deliberarem. Foi num intervalo destes que Sàngo avistou mais à frente alguém caminhando cabisbaixo.
- Olhe meu ‘pai’, aquele não é Esù? Perguntou Sàngo, apontando na direção do pandego.
- Sim! Mas o que aconteceu para estar tão absorto? Indagou Óosáàlá.
Esù nunca foi visto daquele jeito, sempre aparecia animado, sorridente e sempre atento, prestes a pregar a peça em alguém. Tal comportamento despertava o interesse de qualquer um que o visse.
- O que aconteceu com você, meu filho? Indagou Óosáàlá, ao chegar perto de Esù - Parece que é algo muito grave!
O tristonho contou-lhes o que sucedera: a conduta de Osun e o desprezo de Iemanjá.
Frente à atitude de sua amada, Iemanjá, Óosáàlá começou a desconfiar dele, devido seus antecedentes, já que tanto ele quanto Sàngo não sabiam do ocorrido. Frente ao relato, ele disse em tom punitivo, apoiando-se em seu cajado:
- Vejo que você não tem jeito! Sempre arrumando confusão! Ordeno...
- Espere, meu ‘pai’! Atalhou Sàngo - acredito que, antes de condená-lo, deveríamos ouvir Osun, para sabermos o que realmente aconteceu.
Diante do conselho de tão justo òrìsá, Óosáàlá pensou e decidiu ouvir a versão de Osun.
Os três dirigiram-se para o reino de Iemanjá rapidamente, Óosáàlá ouvia os conselhos de Sàngo, enquanto Esù não dizia uma palavra.
O ‘senhor do fogo’ não quis entrar no reino, seguiram então Óosáàlá e Sàngo, ansiosos para encontrarem Osun.
Uma vez no reino de Iemanjá, Óosáàlá ordenou que a bela Iyàgbá viesse a sua presença, para relatar-lhes o acontecido. Ela então veio e contou sua versão, chorando e soluçando. Quando o supremo tendia a acreditar na história dela, Sàngo interviu, dizendo que seria necessário colocar os dois frente a frente, para apurar quem dizia a verdade.
Osun mostrou-se resistente perante a ideia, temendo ser desmascarada, alegou estar com medo da fúria de Esù. Sentindo que algo de errado havia na recusa, Óosáàlá prometeu que nada lhe aconteceria e convocou todos os òrìsás para um conselho.

sábado, 19 de maio de 2012

Osun na gruta de Esù

Fotos Márcia Pavarini



Òşún acordou num lugar iluminado por labaredas que saiam de fendas no chão, estava deitada sobre macias peles de animais que não davam para precisar quais eram. Sobre sua cabeça havia centenas de estalactites no teto da ampla caverna, cuja cor estava perto do laranja ou vermelho, dependendo da oscilação das chamas. Quando se levantou, observou que aos pés dos aposentos uma cesta repleta de mamões, seus frutos prediletos. Num giro pelo lugar pôde ver a amplitude da caverna que era repleta de aberturas laterais, eram como portas que poderiam dar em qualquer lugar.
Indignada começou a rodar em volta de si e gritar desesperada:
Èşù, Èşù, onde está você?
Por que me abandonou aqui?
Sua voz ecoava pela caverna fazendo parecer que havia muitas pessoas lá arremedando sua voz, isto irritava fazendo com que ela colocasse as mãos aos ouvidos e ajoelhar-se no chão. Depois de muito choro e lamentos, decidiu calar-se. Quando se levantou para arriscar entrar em uma das aberturas da caverna, ouviu um barulho que parecia ser de alguém que chegava.
De uma das aberturas atrás dela surgiu sorridente Èşù, perguntando docilmente:
Oh! Minha amada, já acordou?
Desculpe-me a ausência, precisei retirar-me por um instante apenas para guardar o meu pedaço de Oòrùn.
Você não cumpriu o combinado!
Trazia-me no colo e de repente, acordei aqui sozinha, sem nem saber como aqui cheguei!  Disse ela furiosa.
Nada posso fazer se no meio do caminho você adormeceu. Mas não vejo onde não cumpri o combinado, já que você agora conhece minha caverna. Não se alegra ao saber que é a única a conhecê-la? Disse ele astutamente deitando-se sobre as peles.
Vendo a possibilidade de seu plano ir por água abaixo, ela se jogou ao chão e começou a chorar.
Comovido pelos soluços da Iyàgbà, ele chegou perto e lhe acariciou os cabelos, tirando deles as pétalas das flores soltas. Percebendo a comoção do pandego, ela chorava mais e mais.
Não é necessário tal pranto, o que fiz eu de errado? Perguntou Èşù pacientemente.
Nada - disse ela, enxugando as lágrimas do rosto com as mãos - eu que sou uma tola.
Como posso estar aqui aos prantos na presença de tão viril e belo òrìşà?
Então por que chora? Disse ele totalmente embebido em sua vaidade.
É que eu gostaria de tocar o pedaço do Sol, uma vez que é parte dos meus pais, que há muito me deixaram em nome de iluminar o mundo em que vivo. Sinto que isto me faria matar um pouco da saudade que sinto deles.
Sinto seu pesar, mas acredito que tal objeto só aumentará a falta que sente! Disse Èşù, procurando esquivar-se.
Engano seu, eu sei que será bom para mim! Ela insistiu.
Bom! Então eu vou buscar! Concluiu virando-se em direção à abertura de onde saíra há pouco.
Não! Espere! Eu não vou ficar aqui só de novo! Falou, correndo atrás do pandego.
Lamento, mas não poderá ir até minha gruta secreta! Èşù mostrou-se arredio.
Por que não quer que eu vá até sua câmara secreta, se nem sequer sei chegar até aqui.
Èşù pensou por um momento e caiu diante do argumento da Iyàgbà, concordando que ela não oferecia perigo nenhum.
Os dois iam pelas grutas, enquanto Èşù, esperto, entrava em várias aberturas, procurando deixá-la desnorteada.  Òşún, usando de toda sua sagacidade, foi jogando pelo caminho as pétalas das flores que estavam em suas melenas, com o máximo cuidado, para ele não perceber.
Quando chegou à câmara secreta de Èşù, ela ficou maravilhada, ao ver tantos pertences valiosos, e não economizou elogios ao pandego, que parecia desmanchar-se a cada palavra. Ele se abaixou e pegou a bola brilhante e entregou nas mãos dela. Uma sensação esquisita tomou conta da Iyàgbà, tal objeto mostrou que exercia uma imensa força sobre seu ser, um forte desejo de ter o pedaço de a qualquer custo, seus olhos brilhavam e espelhavam os pensamentos maléficos que passavam pela sua mente, fazendo com que tirasse os pés do chão por um instante, várias ideias sem nexo boiava na sua cabeça, o brilho da esfera fazia sua cabeça girar, girar...
Òşún! Òşún! Este é o presente que ganhei de Ifá, o jogo de búzios - disse Èşù entregando a ela as conchas.
As palavras dele trouxeram-na de novo a realidade, ela, como se tivesse acordado de um sonho, entregou-lhe a bola com uma imensa dor e pegou o jogo.
Veja! É através deste jogo que fico sabendo presente, passado e futuro...
Maravilhoso! Disse ela, pegando as conchas e comprimindo-as ao corpo como se quisesse que elas atravessassem sua pele, num estado hipnótico. Chegou a pensar em Ifá, seu tio, com ressentimento.
Enquanto Èşù mostrava seus tesouros, ela não parava de pensar em como adquirir a bola dourada, às vezes soltava um elogio furtivo, tentando disfarçar seu intento.
Depois de saciada a curiosidade dela, ele a levou para os seus aposentos, para eles se deleitarem. Sem esquecer seu plano, a bela Iyàgbà entregou-se a um grande momento de amor, fazendo o pandego suar, uivar e gastar sua energia, falando falsas palavras de amor eterno com as quais ele delirava. Depois de muito tempo, o grande vigor dele caiu por terra, ela o levara à exaustão, fazendo-o cair em sono profundo.
Quando teve a certa de ele não levantaria, ela, seguindo as pétalas pelo chão, correu para o esconderijo na intenção de resgatar o objeto que, para ela, pertenciam-lhe por direito. Chegando à câmara secreta ela se abaixou para pegar a esfera, viu os búzios e decidiu levá-los também. Rapidamente ela pegou um pedaço de seu aşọ, fez uma trouxa onde ocultou os objetos e silenciosamente voltou para os aposentos. Na ânsia de obter o que queria, ela se esqueceu de como faria para sair dali, olhava para as aberturas na caverna e começou a sentir-se tonta. De repente prestou a atenção nas labaredas que saiam do chão e constatou que de uma das aberturas sobrava um vento quase imperceptível. Usando toda sua intuição, foi seguindo a brisa pelas aberturas da caverna.
Ao despertar todo amoroso, ele procurou Òşún pelos seus aposentos na intenção de elogiá-la pela grande noite de amor. Quando descobriu que ela não estava, ele correu para a sua câmara secreta, lá deu falta de seus bens preciosos. Cuspindo fogo por toda caverna, Èşù decidiu vingar-se. Foi correndo e vociferando pela gruta em direção à saída.

Òşún já estava quase saindo, quando ouviu o eco dos berros de Èşù. Procurando preservar-se, ela correu sem olhar para trás. Ele saiu da caverna emanando fogo para todos os lados, fazendo a floresta arder em fogo. Quando avistou um rio, ela mergulhou em suas águas, para fugir das chamas.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Sedução de Osun



A bela Iyàgbà, sabendo do profundo amor que o fanfarrão tinha por ela (o mesmo fizera questão de espalhar pelos quatro cantos do mundo, dizendo que ela um dia seria dele), foi com suas mucamas para da tenda de Èşù, ofertando-lhe um vinho, cuja safra deixava inveja ao néctar dos deuses. Ele não escondeu a surpresa e a satisfação de ter sua amada procurando sua companhia, de um salto ordenou aos convivas que se afastassem, alegando ter que dar atenção à Iyàgbà. Convidou-a educadamente a dividir seu aconchego, oferecendo uma deliciosa carne provinda da caça de Ọșóòsì.
Deixando-se levar por seus prazeres, Èşù entregou-se totalmente aos encantos de Osun, sem tirar nenhum momento os olhos da bela Iyàgbà, cujas madeixas eram enfeitadas com flores amarelas. Para agradá-la ainda mais, pediu a seus serviçais que enfeitassem sua tenda com tecidos amarelos que eram a cor preferida dela.
Osun dócil e sensual, apesar de ter várias mucamas, tomava para si a tarefa de colocar uvas e os nacos de carne mal passada na boca do pandego, que a cada mastigada gemia de prazer, que com certeza não eram simplesmente pelo maravilhoso gosto do alimento. De quando em quando ele jogava-se no colo dela com a boca aberta, apontando para a quartinha de vinho, fingindo uma incontrolável impotência. Ela, por sua vez, graciosamente pegava e virava o recipiente com tal precisão que nenhuma gota caía. Depois de saborear o gole de tão sagrado líquido, uivava feito um animal no cio, chacoalhando os braços e a cabeça, deixando o suor do seu corpo espalhar-se pelo aposento, às vezes chegava a levantar-se e saltar, deixando-se levar pelo ímpeto do êxtase. Nesta ora bastava a Iyàgbà tocar-lhe docilmente, para amansá-lo e fazer com que deitasse de novo ao seu lado.
Difícil saber qual prazer era maior: por um lado Èşù gozava o prazer de ter a seu lado uma Iyàgbà, cuja beleza encantava a qualquer ser e ele nunca pôde chegar tão perto dela, mal podia acreditar no que acontecia, por outro lado Osun deleitava-se ao ter sob seu domínio tão viril e indomável pandego, cuja sagacidade e disposição todos invejavam.
Depois de muito beber, ele se entregou por inteiro aos encantos da Iyàgbà, que, com toda sua infinita sedução, tentava convencê-lo a mostrar-lhe a caverna onde ele habitava. Entorpecido pelo vinho e pela beleza dela, concordou em revelar esse grande segredo.

Depois da festa Èşù dispensou os serviçais e saiu pela mata carregando Osun nos braços, fazendo cumprir o que prometera. O caminho era longo e mesmo sob os afagos infalíveis dela, ele ia pensando no que estava preste a fazer, se valeria à pena ou não. Chegando perto de sua gruta, Èşù deu ouvido à sua intuição e fez um encanto, colocando a Iyàgbà para dormir, para ela não saber onde era à entrada de sua morada, assim não haveria arrependimento de forma alguma.

sábado, 12 de maio de 2012

A Grande Festa



De tempos em tempos, todas as tribos dos òrìşà se reuniam, para fazer a troca de energia entre eles. Èşù, como era muito exibido, achou por bem levar sua última descoberta, para mostrá-la a todos.
Ọșóòsì, o grande caçador, trouxe um grande animal de infinita beleza, para alimentar a todos, ofertou frutas e legumes em enormes cabaças. Ogun mostrou a todos a nova arma que forjara e logo tratou de abater o bicho trazido pelo caçador. Obá e Osun, que sempre colocavam à prova suas habilidades culinárias, ofereciam as mais diversas iguarias. Ọmọlu, com toda sua humildade, contou sobre as novas doenças que conheceu em suas últimas andanças. Ọsànyìn, do meio da mata, ensinou sobre novas ervas de cura. Cada òrìşà tinha uma novidade para oferecer aos outros.
A certa altura da festa, Èşù tirou de seu aşọ (roupa) um objeto que parecia ter luz própria e ergueu-o sobre sua cabeça, neste momento Ogun e Òòşàálá pararam de falar, Ọșóòsì fez calar os atabaques, Iyansan, Iemanjá e Osun pararam de dançar, Şàngó, Obá e Ọmọlu deixaram de comer, Nàná, Ợșumàrè e Ewà abandonaram suas tendas, todos deixaram o que estavam fazendo para admirarem o maravilhoso artefato.
Percebendo a estupefação de todos os òrìşà e suas tribos frente a sua descoberta, Èşù encheu-se de satisfação e desfilou entre os presentes, para que todos pudessem ver de perto a esfera dourada, sem deixar ninguém tocá-la. A cada comentário, a cada sussurro de surpresa, ele girava num pé só e delirava, a energia que sentia em seu corpo podia fazê-lo levitar.
- Vejam - sussurravam alguns presentes - Èşù pegou um pedaço do Oòrùn!
- Que objeto maravilhoso! Diziam os mais estupefatos - que provas ele teve que vencer para conseguir tal artefato?
Esses eram alguns dos comentários que corriam entre os mais entusiasmados. Como ele tinha os ouvidos apurados, gostou da ideia, viu nisto uma forma de aumentar sua glória. Frente aos ansiosos pedidos de lhes revelar o que ele havia feito para obter a esfera dourada ele disse com soberba.
- Cansado de explorar a Terra, que parece já não ter mistérios que alimentem minha ânsia do saber, descobri um modo de ir a outros lugares do universo (mentira), perambulando pelos astros passei pelo Oòrùn, de onde tive a ideia de tirar este pedaço do astro rei, para provar a minha bravura.
Depois do instante de silêncio que sucedeu à narrativa, um alarido tomou conta do lugar, enquanto uns duvidavam da sua história, outros se entregavam à sua inigualável intrepidez, fazendo-lhe os mais diversos elogios.
Osun, filha do Oòrùn e a mais bela Iyàgbà de toda Terra, sentiu suas pernas tremerem e sua boca secar, dirigindo-se para sua tenda, pensou consigo:
A Como meu querido pai pôde consentir que este esnobe o visitasse, sendo que eu, sua querida filha, nunca pude sequer fitá-lo daqui?

Como este convencido se atreve a pegar um pedaço de meu pai? Durante um bom tempo ela permaneceu calada, sua ira confundia-se com sua tristeza. Quando sua mente parou de pensar por um instante na audácia de Èşù, ela atinou um plano: decidiu ter o objeto que acreditava ser um pedaço do Oòrùn, fazendo-se valer de sua beleza para seduzir o presunçoso pandego.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Esù Descobre o Ouro



Èşù nunca gostou de ficar parado num só lugar, seu prazer era andar pelas tribos, chamar a atenção de todos, contando suas aventuras (sempre aumentando um pouquinho) e gabando-se por suas descobertas.
Muitas vezes causava intrigas, fazendo o leva-e-traz, pois tinha acesso livre a todos os reinos. Embora fosse brincalhão (deleitava-se ao pregar uma peça em alguém), gostava de estar sempre bem com todos, pois era muito político, fazia de tudo para agradar.
Muitos o estimavam, era o òrìşà com maior número de adoradores, ele conquistava a admiração de todos, fosse com suas previsões, dadas pelo seu jogo de búzios, fosse com uma boa conversa: falava do que sabia com eloquência e do que não sabia, sofismava com eloquência, quando era surpreendido num assunto que pouco sabia, mudava de assunto tão rapidamente que ninguém percebia.
Sua chegada às tribos era motivo de festa, as crianças saiam saltitantes de moradia em moradia, anunciando entre palmas e gritos. As pessoas se atropelavam e o circundavam, tentando tocá-lo. Quando ele parava no meio da aldeia, todos se sentavam a sua volta, ouvindo-o contar as notícias e suas peripécias, que provocam risos e veneração.
Èşù era sempre portador de uma novidade, trazendo sob suas vestes algo inusitado, curiosidades que arrancavam urros de espanto dos espectadores. Quando percebia que as pessoas se cansavam de seus pertences e suas histórias e não lhe davam a devida atenção, ou ele aprontava uma pilhéria, ou entediava-se e ia embora, procurando obter a esperada consideração em outra tribo.
Numa dessas visitas a uma tribo, enquanto Èşù contava suas aventuras com maestria, um forte tremor de terra fez com que todos os espectadores debandassem entre gritos desesperados, deixando o narrador sozinho no meio da aldeia. Após o rápido terremoto, o silêncio era tão grande que se podia ouvir o pensamento do pandego. Passou por sua mente a vontade de descobrir o que sucedera.
Era Odùdúwà, a mãe natureza, demonstrando sua ira, devido à grande devastação que ocorrera numa disputa entre tribos, onde uma botou fogo na vegetação da outra, em busca de enfraquecimento do inimigo. O incêndio atingiu grande parte de uma floresta, dizimando a fauna e a flora da região.
Perplexo, ele levantou-se como quem esperava o pior, pois o silêncio era um mau presságio. Quando ele ameaçou caminhar, um novo tremor sucedeu desta vez, mais forte e duradouro, as pedras rolaram e os gritos ecoaram pela aldeia, grandes árvores caíam por terra, arrastando consigo séculos de história. Os pássaros abandonavam as árvores em revoada, os macacos pulavam de galho em galho em total desespero.
Aos pés de Èşù o chão começou a se abrir, formando uma imensa fenda, fazendo a terra sangrar, mostrando a lava incandescente. Quando a ferida começou a cuspir bolas de fogo, o chão parou de tremer. O fogo não abalou a confiança dele, que mesmo em meio à grande e espessa fumaça, avistou um material que brilhava como a luz do Sol. Dando vazão a sua curiosidade, chegou perto da lava, uma vez que ele era o senhor do fogo e dos vulcões, o calor não lhe fez mal algum. Com as mãos colheu o material, tratava-se de uma esfera de brilho estonteante, cuja cor dourada chegava a ofuscar seus olhos, que eram duas bolas de fogo. Frente à infinita beleza, ele decidiu apossar-se da bola brilhante no intuito de juntá-la às suas outras descobertas, que ficavam escondidas em sua gruta, cujo caminho só ele conhecia.
A fumaça e a lava já se dissiparam, quando o pandego, vislumbrando seu achado, dirigia-se para fora da aldeia. Tomado por um grande delírio, pôde ouvir alguém atrás de si. Era o chefe da aldeia, correndo em sua direção, tropeçando, gritando aflito:
- Oh! Senhor das peripécias, eu suplico, não carregues nosso precioso objeto, pois nele está o sustento de nossa aldeia! Se tirá-lo de nós, tudo a nossa volta ruirá!
Demonstrando profundo desdém, o viril òrìşà abandonou o local, tomado pela energia da valiosa esfera.

À medida que Èşù se afastava, o que havia sobrado da aldeia caía por terra, dizimando todos que ali estavam transformando tudo em pó e profundo silêncio.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Teste de Ifá

Èşù, com sua extrema curiosidade, vivia a andar pela Terra, tentando descobrir todos os segredos e mistérios que existiam no planeta. Em nome desta ânsia do saber, pediu a seu irmão gêmeo, Ògún, que cuidasse de sua tribo, este, no entanto, recusou-se, argumentando que também não dava a devida atenção a sua própria tribo. Por fim os dois deixaram suas tribos sob os cuidados de sua mãe, Yemợjà, pois ela sempre dava atenção a quem quer que fosse...
O sol estava no ponto mais alto do céu, fustigando a vegetação, enquanto uma leve e quente brisa soprava o cheiro da mata quase seca. A cada passo, Èşù podia sentir o chão seco e a poeira colar em seus calcanhares suados, enquanto pensava em que caminho tomaria, para encontrar algo que saciasse sua sede de conhecimento. Embora parecesse absorto em suas divagações, estava sempre alerta a tudo o que acontecia a sua volta, tanto que podia ouvir o bater das asas de uma borboleta, ou o abrir e fechar dos olhos de um macaco à longa distância e distinguir os sons de tal forma, que podia prestar a atenção a tudo. Devido a esta sua capacidade, todos o comparavam ao vento, dizendo que ele estava em todos os lugares.
Com sua apurada audição, ele sentiu a aproximação de uma desembestada manada de rinocerontes ao longe. Isto se transformou em uma distração, pois acompanhava com os olhos a corrida desorientada dos bichos que, por onde passavam, espantavam pássaros, derrubavam árvores e atropelavam outros animais.
De repente a manada virou-se em sua direção e ele, sem querer influir no arbítrio dos rinocerontes, decidiu sair de seu caminho. Num salto rápido alcançou o topo de uma grande pedra que estava ali perto, saindo da frente dos animais que levantaram uma imensa nuvem de poeira, que o deixaram sem visão por um instante. Do alto da rocha, assim que se dissipou a nuvem poeirenta, ele divisou ao longe, na vasta savana, um ancião deitado à sombra de um arbusto, parecendo estar dormindo, dada sua inércia. Não precisou pensar muito para ver que a manada estava na direção do pobre velho, que poderia machucar-se muito.
Vendo aquilo, Èşù sentiu-se condoído, não lhe agradava a ideia de que alguém pudesse ter um fim tão trágico. Tentando alertar o ancião, juntou todo o ar que seu pulmão pudesse suportar e gritou. No entanto o velho nem sequer se mexeu. Sem atinar se o barulho da manada abafara o seu berro, pensou que o homem pudesse estar ali desmaiado ou doente. Èşù sentiu em seu ser que deveria ajudá-lo.
Usando de sua fantástica velocidade, ele correu pela savana e, quando alcançou a manada, pulou e andou por sobre o lombo dos rinocerontes num malabarismo fantástico, vencendo um a um. Como tinha o poder de encantar qualquer animal, destemido, ele pulou à frente da manada, tomou uma distância segura, ergueu as mãos ao céu num gesto magistral e exalou todo seu poder. Um a um os animais paravam, deitavam-se e caiam em um profundo sono. Toda savana testemunhou um inesquecível espetáculo, tendo como produto final, o que parecia ser um imenso tapete de rinocerontes. Tal foi à força do encanto, que fez calar tudo ao redor, se uma mosca houvera passado por ali, com certeza caíra desfalecida pelo chão árido.
Depois de afastar o perigo, Èşù, cansado pelo grande desprendimento de energia, virou-se e andou em direção ao ancião para ver o que acontecera. Quando estava chegando perto, pôde ver o velho levantar-se, tirando o pó das rotas vestes.
Era um ser curvado de movimentos lentos, que se apoiava num carcomido cajado. Com os olhos quase cobertos pelas pálpebras, fitou seu benfeitor com candura e um sorriso trêmulo, curvando-se em sinal de agradecimento.
O viril pensou que era algum tribal que fora abandonado à sorte pelos seus patrícios. Curioso Èşù indignado indagou:
- Quem é você?
O que faz aí, bem à frente de uma desembestada manada preste a ser demolido por completo?
- Quer saber quem eu sou?
Perguntou o velho sorridente, mostrando apenas dois dentes na boca e caiu no chão sobre si, cobrindo-se com seus trapos, parecendo querer esconder-se.
De repente, uma imensa luz despedaçou os trapos como se fossem de vidro.
Neste momento surgiu à frente de Èşù um ser que brilhava como o Sol, que chegou a ofuscar seus os olhos de fogo. Quando se acostumou com o brilho, ele viu que se tratava de Ifá, um ser de luz, enviado de Olodumare na Terra, encarregado de ouvir a todos aqueles que buscam ajuda, detentor de segredos e dos mistérios.
Perplexo, Èşù perguntou.
- O que aconteceu, para você, um òrìşà, materializado como um velho, estar caído à sombra de um arbusto, esperando ser pisoteado pelos rinocerontes - neste momento Èşù percebeu que não estava na savana, mas numa floresta à beira de um rio, o ar era úmido e com um maravilhoso cheiro de verde. O carcomido cajado cintilava e tinha na ponta uma reluzente bola de cristal, que rodava sem parar em volta de seu próprio eixo, ela era como a íris do grande olho que se formou no ponto mais alto do cajado.
Ifá com voz solene, que parecia ecoar pela floresta, pacientemente explicou:
- Isto tudo se tratava de um teste, pois, entre os òrìşà corre a história de que você não era capaz de ajudar ninguém, sem querer algo em troca, uma vez que só pensava em si mesmo e em suas descobertas. Mas vejo que todos estão errados e hoje vi com meus próprios olhos que a bondade pode ser despertada em você, uma vez que correu em auxílio de um velho pobre e aparentemente sem nada para dar em troca.
Frente a isto, quero lhe propor o seguinte: como sei da sua curiosidade, eu lhe darei um modo de saber o presente, o passado e o futuro - Ifá debruçou-se sobre o rio, pegou dentre as águas um punhado de conchas e prosseguiu - tome, estes são meus olhos, dou-lhe estes búzios, um jogo através do qual saberá tudo o que ocorre pelas tribos, com a condição de ajudar a todos que precisem de seu auxílio.
- Eu aceito seu presente.
Èşù pegou das mãos de Ifá as conchas, enquanto as duas bolas de fogo, seus olhos, brilhavam como nunca, parecendo estarem hipnotizados e continuou - embora não possa afirmar que correrei atrás de ninguém para ajudar, prometo auxiliar a todos que a mim vierem.
Assim que terminou de falar, ele levantou os olhos e não viu nem floresta com rio, nem o ser de luz, que havia desaparecido como se tivesse evaporado no ar, encontrava-se à sombra de um arbusto no meio da seca savana.
Èşù sentiu um misto de êxtase e torpor, ao constatar que seu esforço não fora em vão e ao ver que um sentimento tão simples pudesse lhe render tão precioso presente.

Essas sensações cruzaram com ele todo o caminho de volta para sua gruta, onde guardou e sempre consultava seu jogo, para saber os acontecimentos e fofocas de todas as tribos, procurando manter em segredo seu valioso presente.