segunda-feira, 19 de março de 2012

A Heroína Eliana Calmon - Uma homenagem a mulher.



Por: theófilo Silva
Quero homenagear as mulheres elogiando a juíza Eliana Calmon, a mulher da década, aquela que realizou o meu sonho mais urgente. A baiana que eu incluo no grupo das minhas heroínas shakespearianas, ao lado de Rosalinda, Cleópatra, Beatriz, Hermione. Sua coragem, determinação e espirituosidade mudaram o poder judiciário brasileiro.
Sempre acreditei que a ação individual de um desses heróis solitários é a única forma de mudar realidades cruéis. Se um juiz tivesse condenado e prendido Paulo Maluf – agora não tem mais jeito – teria sido mais importante que todos os compêndios de direito escritos no país nos últimos cinquenta anos. Seria o início do fim da impunidade no Brasil. Faltou esse juiz.
Foi necessário o surgimento de uma heroína, na verdade, paladino – por que não paladina? – para tirar a máscara que escondia a verdadeira face da justiça brasileira: cara, ineficiente, paquidérmica, lenta e corrupta. Ter a coragem de enfrentar essas associações de juízes pegajosamente coorporativas, e encarar o atual presidente do Supremo Tribunal Federal – o mais apagado da história do STF – que tentou intimidá-la, foi um ato de bravura raro, mesmo para os ditos homens mais corajosos e intrépidos.
Quando ela chamou alguns juízes de bandidos de toga, o mundo da magistratura caiu em cima dela com todo a sua ira e poder. Ela teve a força para levantar o peso, sacudi-lo, limpar a poeira, e partir para a luta, não arredando um milímetro do que dissera ou fizera antes. E foi mais longe, chamou essa minoria de juízes de vagabundos.
Ela teve a coragem de declarar com todas as letras que vilões estão incrustados nos tribunais de justiça, os pomposos desembargadores. Nunca alguém disse com tanta limpidez algo que eu tinha vontade de dizer há muitos anos e não podia, por razões óbvias. Eliana falou pela boca de todos os brasileiros, que estão cansados de ver os guardiões da justiça se esconderem atrás da toga para cometerem crimes. Imagino o ódio que essa turma devota à corregedora nacional de justiça.
Shakespeare diz em Henrique IV: “rouba-se muito mais comumente nas profissões mais respeitáveis”. Haverá uma profissão mais respeitável do que a de juiz, desembargador, ministro de tribunal superior, que têm seus nomes precedidos por enormes superlativos de tratamento: excelentíssimo, digníssimo?
Na esteira da honestidade e da coragem de Eliana aconteceu a quase impensável aprovação do Projeto de Iniciativa Popular, o Ficha Limpa, que impede corruptos condenados candidatem-se a cargo público. E para coroar, sua vitória no STF, com apoio da sociedade brasileira, para que o CNJ possa continuar investigando juízes. São decisões importantíssimas, divisoras de águas!
A sociedade, em sua maioria, não sabe que Justiça é mais importante do que a economia, do que comida no prato. De que a educação dos filhos tem a ver com o poder judiciário. De que alguns desses homens pomposos de voz gutural, conversa empolada e ininteligível são muito poderosos, daí sua arrogância, e um simples ato assinado por um deles altera a vida de dezenas de milhões de pessoas. E alguns deixam claro que têm nojo da sociedade, e que não votam nada que demonstre “clamor público”. Foi isso que Eliana Calmon mostrou para todo o Brasil com sua cruzada.
Eliana eleva todas as mulheres a um patamar ainda maior. Ela enche de orgulho todos os brasileiros, já que ousou fazer o que nenhum homem teve coragem: abrir a caixa preta do fechadíssimo e privilegiado poder judiciário brasileiro. Por essa ação revolucionária, ela merece uma estátua na Praça Castro Alves ao lado do poeta dos escravos! Trata-se de uma libertadora!
Theófilo Silva é articulista colaborador da Rádio do Moreno.

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