segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ÒRÌSÁ É MAGIA.

Como parte da criação do Oorun e do Ayé, Olodumare criou uma infinidade de hierarquias atuantes nos diversos planos do Universo. Dentre eles situam-se os òrìsá e irunmalé - entidades intermediárias responsáveis primordiais pelas funções relacionadas aos diversos reinos da natureza na Terra. Trata-se de Seres Divinos, facetas emanadas da Divindade Suprema Universal. Os òrìsá e irunmalé atuam de acordo com as funções que lhes são delegadas por Olodumare, inclusive como mediadores entre Ele e os seres humanos. A criação da Vida na Terra foi delegada ao Orisa Obatala (o rei do pano branco que esconde a vida e a morte), que com o seu ofurufu (sopro divino) permeou várias outras dimensões além da física. Dele emanaram os outros Orisa, com a tarefa de exercer domínio pleno sobre os diversos reinos e elementos da natureza terrestre, porém dentro dos limites e tarefas por Ele estabelecidos. Há um itan (mito) que relata como o corpo de Obatala foi atingido e partido em mil pedaços. Ao receber a notícia, Olodumare designou Orunmila para recolher todas as partes e trazê-las de volta. Recolheu-os numa grande cabaça, assegurando o seu renascimento no Orun. O restante foi espalhado por todo o mundo, fazendo com que de cada um nascesse uma divindade. Por esta razão, considera-se Obatala o Orisa maior, dentro do qual todos estão contidos – como a cor branca contém todas cores. O termo Orisa foi, inicialmente, utilizado para designar Obatala, conhecido como Orisan’la ou Òsáàlá. A energia vital – ase – que permeia todas as forças da natureza é parte do Orisa, que representa o aspecto inteligente e estabelece um elo entre a humanidade e Olodumare. Textos mais antigos falam de igba male ojukotun, igba male ojukosi: duzentas divindades do lado direito e duzentas divindades do lado esquerdo – mais um. A concepção de características antropomórficas deve-se à condição arquetípica que lhes é inerente. Os Orisa não pertencem à cadeia de evolução humana. Como personificação das mais violentas, grandiosas e incontroláveis forças da natureza, força pura, Asè (energia vital) esmagador, é evidente que Orisa desvincula-se à cadeia cármica da evolução humana. Conceber Orisa como um ancestral humano divinizado é um belo mito que confirma a filiação humana a determinada linhagem dos reinos da natureza com seus quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Ancestrais humanos podem ter se tornados encantados, pois a gama de seres divinizados tutelares é imensa. Aliás, antes da ruptura entre Orun e Aiye – seres pertencentes a hierarquias não-humanas engravidaram mulheres, dando origem à estirpe dos chamados “semideuses”, vastamente mencionados, por exemplo, na mitologia grega. Diante de recentes teorias que ousam atribuir a origens não-terrestres o progresso tecnológico não condizente com o adiantamento da época – que certas civilizações arcaicas evidenciaram – poderiam os Òrìsá antropomorfizados estar incluídos nesses grupos. Humanos ou não, é importante notar que deles se originaram as instruções que até hoje seguimos, com relação ao corpo ritualístico / mágico da religião. Os Orisa constituem energia pura que interfere, também, na existência dos seres humanos, já que conosco compartilham da natureza terrestre e concorrem diretamente para a nossa formação como seres individualizados. No momento em que o ser humano vem a encarnar, aceitando o seu destino, seus corpos são criados com a energia predominante de um orisa e a de outros, em menor grau, formando assim um complexo inédito. As práticas e rituais da religião yoruba têm por finalidade a sintonia e integração do ser humano com essa energia divina da qual foi formado. Há pessoas que dispõe do dom de manifestar fìsicamente a presença do seu Orisa. Esta manifestação é apenas uma forma de sintonia, nada tendo a ver com mérito ou elevação espiritual. Em alguns seres humanos, as predisposições inatas e rituais específicos fazem aflorar com maior intensidade esta energia pura, que é o Orisa, podendo ocasionar os fenômenos do transe e da incorporação, quando o arquétipo do Orisa se manifesta de forma plena. De um panteão que atingia a casa das centenas, o número dos que transpuseram a barreira do interesse local atinge a casa das duas dezenas, a saber: Orunmila, Esu, Obatala, Ogun, Osòósi, Osoniyn, Òsùmarè, Obaluwaye, Erinlè, Òsun, Olókun, Yemoja, Òya e Sàngo.
Há também culto a Egungun e Iyà mi Osorongá, que não são Òrìsá, mas, ancestrais.

Por Eliane Haas - Ìyá Gbèmi.
www.aguiadourada.com

Ire o.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.