sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Onilé ganhou o governo do planeta Terra


Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodùmaré.
Vivia trancada em casa do pai e quase ninguém a via.
Quase nem se sabia de sua existência.
Quando os òrìsá seus irmãos se reuniam no palácio do grande pai para as grandes audiências em que Olodùmaré comunicava suas decisões,
Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques.
Onilé não se sentia bem no meio dos outros.

Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem:
haveria uma grande reunião no palácio e os òrìsá deviam comparecer ricamente vestidos,
pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança.
Por todos os lugares os mensageiros gritaram esta ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento.

Quando chegou por fim o grande dia,
cada òrìsá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação, cada um mais belamente vestido que o outro,
pois este era o desejo de Olodùmaré.
Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola.
Osòósi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais.
Osonyin vestiu-se com um manto de folhas perfumadas.
Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira.
Osum escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios.
As roupas de Osumarè mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva.
Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade.
Sango não fez por menos e cobriu-se com o trovão.
Osalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio.
E assim por diante.
Não houve quem não usasse toda a criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita.
Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo.
Cada òrìsá que chegava ao palácio de Olodùmaré provocava um clamor de admiração,
que se ouvia por todas as terras existentes.
Os òrìsá encantaram o mundo com suas vestes.
Menos Onilé.
Onilé não se preocupou em vestir-se bem.
Onilé não se interessou por nada.
Onilé não se mostrou para ninguém.
Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.

Quando todos os òrìsá haviam chegado, Olodùmaré mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono.
Ele disse então à assembléia que todos eram bem-vindos.
Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher entre eles qual seria o mais vistoso e belo.
Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição.
Então disse Olodùmaré que os próprios filhos, ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo.
Então Yemojá ficava com o mar, Òsum com o ouro e os rios.
A Òsóòsi deu as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Osonyin.
Deu a Iansan o raio e a Sàngo o trovão.
Fez Obatalá dono de tudo que é branco e puro, de tudo que é o princípio, deu-lhe a criação.
Destinou a Òsumarè o arco-íris e a chuva.
A Ògun deu o ferro e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra.
E assim por diante.
Deu a cada òrìsá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular.
Dividiu de acordo com o gosto de cada um.
E disse que a partir de então cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza.
Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao òrìsá que a possuísse.
Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do òrìsá.
Os òrìsá, que tudo ouviram em silêncio, começaram a gritar e a dançar de alegria,
fazendo um grande alarido na corte.
Olodùmaré pediu silêncio, ainda não havia terminado.
Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições.
Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos òrìsá.
Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra.
Quem seria? Perguntavam-se todos?
"Onilé", respondeu Olodùmaré.
"Onilé?" todos se espantaram.
Como, se ela nem sequer viera à grande reunião?
Nenhum dos presentes a vira até então.
Nenhum sequer notara sua ausência.
"Pois Onilé está entre nós", disse Olodùmaré e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava vestida de terra, a discreta e recatada filha.
Ali estava Onilé, em sua roupa de terra.
Onilé, a que também foi chamada de Ilê, a casa, o planeta.
Olodùmaré disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé,
pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa.
A humanidade não sobreviveria sem Onilé.
Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodùmaré partilhara com filhos òrìsá?
"Tudo está na Terra", disse Olodùmaré.
"O mar e os rios, o ferro e o ouro, Os animais e as plantas, tudo", continuou.
"Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris,
tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens
e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte".
Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi à sentença final de Olodùmaré.
Onilé, òrìsá da Terra, receberia mais presentes que os outros, pois deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem.
Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre, para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído.
Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodùmaré.
Todos os òrìsá aclamaram Onilé.
Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.

E então Olodùmaré retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos òrìsá.

5 comentários:

  1. Mojùbá a todos!Parabéns pelo BLOG, estou muito feliz em tê-los encontrado, pois, fiquei sabendo através de um comentário que lí do Mestre Wille de Almeida em outro BLOG. Estou aprendendo muito com vocês! Que ÒRÚNMÌLÁ ilumine sempre a todos vocês para nos passar os verdadeiros ensinamentos da nossa religião. Gostaria de obter informações sobre EFON, nas minhas pesquisas encontrei pouca informação. IRE O.

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  2. Anonimo, infelizmente vou ficar lhe devendo estas informações. Deidades Efon é um assunto que não domino. Creio existir pessoas mais capacitadas para lhe fornecer alguns dados.

    Ki ba se o.

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  3. Mo Jùbá Oluow Willer de Almeida, sua benção! frequento uma casa de Nação Efón há muito tempo, e, como fui apontado como Ogan e estou disposto a seguir os ensinamentos e preceitos corretamente, estou pesquisando e estudando "by myself" sobre a nossa religião; já li o BLOG todo e tenho aprendido muito, isto é, a teoria, a ética, o respeito, os itans, etc. Obrigado por responder tão rápido, Admá.Ire O.

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  4. Anonimo, o site do Oluwo Ifarunaola é www.efunlase.com, vc está no site do filho dele.
    Leia meu perfil e vc verá quem eu sou.
    O Olouwo participa do site como uma homenagem, por ser meu Sacerdote e Oluwo Olori.

    Ki ba se o.

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  5. Mo Jùbá Orisá Ifá, peço desculpas pelo erro e também a sua benção, pois, o Senhor também é detentor de uma grande sabedoria, lí atentamente suas respostas no outro SITE (onde responde Da Ilha); continuarei seguindo vocês por quê sou um eterno aprendiz e gosto de estudar. Onan re re o. Admá.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.