terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cultura africana: do velho e do novo.



Trad. Ieda Machado Ribeiro dos Santos

Podemos ainda achar nosso caminho para os ancestrais que são uma parte vital do nosso humanismo.

A nossa religião merece o mesmo respeito que qualquer outra. Se existe homem que adora santo de madeira feito por ele, eu adoro a pedra, o santo negro que é a natureza.

O Candomblé é uma religião e não um folclore.
Por: Femi Ojo-Ade

Antes de mais nada, cultura está sendo definida aqui no seu sentido mais amplo, como a essência de uma comunidade, o elemento que faz pela sua existência na Mãe Terra. Citando uma comunicação minha anterior: "O modo pelo qual as pessoas vivem é sua cultura, a totalidade das suas crenças, códigos de conduta, técnicas, todos os elementos necessários a existência e sobrevivência em uma estrutura social".
Cultura é todo um modo de viver, incluindo o material, intelectual e, sobretudo, o espiritual. De fato, no que diz respeito a África, opiniões sobre a essência cultural têm, por demasiado tempo, flutuado entre os dois extremos, a noção da nulidade, por um lado, e a afirmação absolutista da sua qualidade quintessencial, do outro.
Naturalmente, depende da opinião expressa. Num lado, os conquistadores, todo-poderosos colonizadores, e sua obstinada missão civilizadora, firmemente decidida a reduzir o ethos africano as reações.
instintivas dos selvagens. Do outro lado, infelizmente, como uma reação à agressão do outro, estão os defensores da África, proclamando uma espécie de monolito paradisíaco ou melhor, idílico.
Se o primeiro ponto de vista é escandalosamente falso e racista, o segundo não é menos escandaloso na sua natureza simplista, superficial; porque ambos, na realidade, terminam por alcançar o mesmo objetivo: provar que a cultura africana é exótica, fora-deste-mundo, carente de dinamismo para se adaptar a qualquer cultura vivente.
Pode soar inacreditável, mas, na verdade, os próprios africanos têm, conscientemente ou não, ajudado e propiciado a situação, passada e presente, de confusão e degradação cultural.

Muitos africanos não sabem, ou se recusam a reconhecer que seus ancestrais tinham uma religião antes da vinda do colonizador.

A história nos colocou em desvantagem e, em vez de procurar virar a mesa contra o opressor, muitos de nós têm escolhido o caminho mais fácil, tentando galgar a escada qualitativa erigida pelo que se diz civilizador. É desta posição de desvantagem e de desprivilégio, de despossuídos e de pobres diabos, que somos compelidos a encarar
o mundo, sempre em comparação com o Outro, considerado superior.
Assim, velho é definido como arcaico, retrógrado, estéril, inferior, miserável, primitivo, feio; e o novo, como avançado, bonito, excepcional, infalível, proeminente, universalmente superior. Que seja testemunha a concepção de tradição e modernismo: a primeira é supostamente um estado quase bestial e o segundo um contínuo processo de descobertas maravilhosas e invenções pelos seres superiores, correndo, cada vez mais próximos, em direção aos deuses estabelecidos longe da África. Contudo, na África, velho conota sabedoria e profundo conhecimento, respeito, gentileza, comunidade e continuidade.
Nesta conjuntura, o novo não é desrespeitado. Sua potencialidade para o progresso e para o aperfeiçoamento do velho é reconhecida, e sua contribuição para a sobrevivência da comunidade é bem recebida.
O velho e o novo devem, pois, caminhar juntos, cada um dando e recebendo do outro, no perfeito reconhecimento de que somente esta reciprocidade e compromisso farão com que a cultura sobreviva e cresça.
Agora, se examinarmos um pouco mais as definições de velho e novo impostas sobre nós, veremos que elas abrangem a totalidade da nossa existência. Abordaremos dois aspectos nesta discussão, o nacional e sócio-político e o religioso. Os filhos de África, levados através do oceano para a diáspora, foram levados a crer na mentira
de que suas vidas no Novo Mundo seriam muito melhores do que no velho. Vários estudos sobre a escravidão7 demonstraram qué uma das inumeráveis invenções desafricanizadoras era a propaganda sobre a selvageria continental; o escravo teve a chance de se tornar civilizado enquanto que o africano, deixado na África, era destinado a morrer na sua selva, devorado pelos animais ou pelos seus companheiros de selvageria. Mesmo anos depois da abolição da escravidão, muitos africanos do Novo Mundo temiam ser classificados como africanos, não obstante os slogans de africanidade.
Aquilo que o poeta martinicano Aimé Césaire lamentava sobre as relações Caribe-África, em 1972, é ainda verdadeiro hoje, uma terrível complementação da civilizada desumanização da raça negra pela Europa. Essencialmente, temos que reconhecer que a Inglaterra está eternamente presente na mente dos seus ex-colonizados, enquanto que a imagem da França está gravada indelevelmente na mente dos seus protegidos francófonos. Eis a declaração de Césaire:

Não há, absolutamente, nenhuma diferença entre a educação dada na Martinica
e a que é dada na França. É exatamente o mesmo programa (...); não há tentativa alguma de adaptação ... Conseqüentemente, os caribenhos sabem da África o que os franceses sabem da África. Naturalmente, desde então, novos laços foram estabelecidos; martinicanos foram a França, encontraram algerianos, conheceram africanos ...8

Enquanto se pode concordar com Césaire que houve alguma mudança para melhor, nota-se, tristemente, que tal melhoramento permanece esporádico e superficial, restrito, como é, a nós, da entrincheirada classe média, que goza do privilégio de viajar pelo mundo inteiro, para encontros que ocorrem nas capitais da civilização. Muito da culpa pela falta de laços culturais deve ser posta nos africanos, uma vez que, em nossa cultura, cabe aos mais velhos dar o primeiro passo e o exemplo a ser seguido pelos mais novos.
Se as condições sócio-políticas são lamentáveis, as realidades religiosas são ainda piores, pelo menos a nível oficial. Tanto na África quanto na diáspora, a Cristandade é particularmente forte e, de mãos dadas com o Islã, escravizou a mente da maioria das pessoas.
A religião, isto é, o espiritual, os assuntos da mente, a psicologia da sociedade, sua fonte de força, deve ser vista da perspectiva dos africanos, para que tenha algum sentido. Hoje, a religião, como um aspecto da cultura, tornou-se a vergonha da África. No debate cultural global, nossas religiões têm sido invalidadas pelo fracasso dos
nossos expoentes em viver a sua cultura, e não estamos poupando nenhum desses falsos apelos políticos, feitos frequentemente por líderes mentirosos, dos palanques ou dos palácios presidenciais. Na África, a religião sempre foi um fato básico da vida. As forças invasoras da civilização, a despeito da sua tendência a chamar de selvagens todos os povos que rejeitassem o seu Cristianismo, reconheceram a
presença da fé e da adoração entre suas vítimas. Nas cerimônias e nas festividades, em ocasiões especiais ou cotidianas, a solenidade da religião é notável. O tema a ser tratado é muito perturbador e potencialmente perigoso para qualquer possibilidade que tenhamos de salvar a nossa cultura. O que aconteceu com a Áf'rica marcada
pela fé ancestral em Deus e no ser humano? Serão 09 crentes em nossa Tradição meros retrógrados da Idade da Pedra? Quais são as perspectivas para o futuro?
Nenhuma ocasião é mais oportuna para discutir o assunto total do nosso dilema cultural que este Congresso, ocorrido quase uma década depois do memorável início em Ile-Ifé (1981), uma década (1990) antes da raça humana entrar num novo século, e em São Paulo, centro maior de uma vasta comunidade de filhos exilados de África. Embora estejamos aqui para celebrar, devemos lembrar que, dentro da cultura, a celebração vai além da dança e cio exibicionismo folclórico; que é, de fato, um tempo para reflexão e para nos reenergizarmos, como foi, para a miríade de ameaças que devemos encarar, de dentro e de fora, sabendo que já percorrenios'um longo caminho, mas que há muito, ainda, a percorrer. "O Cândomblé", como diz Mãe Stella da Bahia, "é uma religião e não um folclore".


Ezekia Mphahlele, Afrika my music, Johannesburg, Havan, 1984, p. 209.
A saudosa Mãe Menininha, de Salvador, Bahia, em entrevista publicada em A Tarde,
18 out. 1987, no artigo "A luta pela libertaçãon, cad. 2, p. 2.
Mãe Stella, de Salvador, citada no artigo "Folclorizaçáo do culto preocupa ialonxá",
Tribuna da Bahia, 16 out. 1987.
Declaração de general francbs do s6culo XIX, citado em Christopher Harrison, France
and Islam in West Africa, Cambridge, Cambridge University Presa, 1988, p. 73.
On black culture, Ile-If6, Obafemi Awolowo University, 1989, p. 4.

Ojo-Ade, op. cit., p. 98.

Por exemplo, vide Michael Craton, Testing the chains, Ithaca, Cornell University, 1982;
C.L.R. James, Tlze black jacobins, slp, Vintage Books, 1963.
Apud L. Kesteloot & B. Kotchy, Aimé Césaire, l'homme et i'oeuvre, Paris, Présence
Africaine, 1973, p. 224.

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