terça-feira, 9 de agosto de 2011

ÒSÚM - A DEUSA DE OSOGBO.


Òsúm Karé ómó.



A festa anual das oferendas a Osun, realizada em Osogbo na Nigéria é uma re-atualização do pacto que o primeiro rei local contraiu com o rio do mesmo nome. 
Laro”, o antepassado do atual rei, depois de prolongadas atribulações procurando um lugar favorável onde pudesse instalar-se com seu povo chegaram ao rio Osun, onde a água corria permanentemente. 
Segundo se conta alguns dias mais tarde uma das filhas desapareceu nas águas quando se banhava no rio e, passado algum tempo, delas saiu, esplendidamente vestida. Declarou aos seus pais que fora admiravelmente recebida e tratada pela divindade que ali morava. 
Laro foi fazer oferendas de agradecimento ao rio. Muitos peixes, mensageiros da divindade, em sinal de aceitação, vieram comer o que o rei jogou na água. Um peixe de grande tamanho veio nadar perto do lugar onde ele se encontrava e cuspiu água. 
Laro recolheu essa água em um cabaça e bebeu-a, celebrando assim um pacto de aliança com o rio. “ Em seguida estendeu as mãos e o grande peixe saltou nelas e assim assumiu o título de ATAOJA, contração da frase Ioruba. A lewo gba eja “ (aquele que estende as mãos e pega o peixe) 
A partir disso ele declara “ Osun gbo “, isto é, ( Osun encontra-se em estado de maturidade, suas águas sempre serão abundantes.) 
Daí originou-se o nome da cidade, OSOGBO.
No dia da festa Odun Osun o Ataoja vai com grande pompa até o rio. Leva na cabeça uma coroa monumental feita de pequeninas contas. Usa um pesado traje de veludo e caminha com gravidade e calma, rodeado por suas esposas e dignitários. 
Uma filha do “Ataoja” carrega nessa procissão anual, uma cabaça de Osun. Ela tem o título de “Arugba Osun” ( aquela que carrega a cabaça de Osun) e só pode exercer essa função antes da puberdade. 
Ela representa a menina que desapareceu outrora no rio. Sua pessoa é sagrada e o próprio Ataoja inclina-se diante dela. 
O Ataoja vai sentar-se numa clareira e acolhe as pessoas que vieram assistir à cerimônia. Os reis e chefes das cidades vizinhas comparecem ou enviam seus representantes. A todo momento chegam delegações precedidas por orquestras. Troca de saudações, prosternações e danças, como marca de cortesia recíproca que se sucede em crescente animação. 
No final da manhã, o Ataoja, acompanhado de sua corte e convidados aproxima-se do rio Osun e manda jogar nele, através da Iya Osun e do Aworo, oferendas de comidas: “agidi”(massa feita de milho), inhames cozidos,”iyanli”(espécie de sopa) etc. 
Os peixes disputam as comidas sob o olhar atento das sacerdotisas de Osun. 
 A seguir o Ataoja vai ao recinto de um pequeno templo vizinho e senta-se em cima da pedra (Okuta Laro) onde seu antepassado Laro repousou outrora. 
O Ataoja está rodeado pelos dignitários do culto de Osun: 
Iya Osun, a mulher que se encontra à frente das sacerdotisas. 
Aworo, o homem que se encontra à frente dos sacerdotes e seus substitutos. 
Jagun Osun, a mulher guerreira de Osun. 
Balogun Osun, o guerreiro de Osun. 
Ololigan Osun, o homem que se encontra à frente de todos aqueles que fazem oferendas a Osun. 
Iyalode Osun, à mulher que se encontra à frente de todos os adoradores de Osun, com exceção dos “Iworo”. 
Iyangba Osun, a mulher que, a cada quatro dias, vai procurar água pra lavar os seixos de Osun. 
Akun Yungba Osun, chefe dos cantores do culto a Osun. 
Prosseguindo ao cerimonial da festa a “Iya Osun e o Aworo” realizam a adivinhação para saber se a divindade ficou contente com as oferendas que acabam de fazer-lhe e se tem alguma vontade a exprimir. 
A seguir as pessoas cantam em torno do Ataoja, sentado na OKUTA LARO. Seguem-se então cantigas em louvor a Osun seguido de cânticos em comemoração a ação de “” Osanyin” cujas palavras evocam as virtudes simbólicas de certas folhas. 
Iroko, que produz calma. 
Ogege a árvore na qual se sobe pra ficar protegido. 
Odundun, sempre fresca. 
A parte religiosa pública chegou ao fim. O Ataoja, seguido pela multidão volta à clareira onde recebe seus convidados e os trata com uma generosidade digna da reputação de Osun. 
Fora desta data anual são feitas oferendas a Osun a cada quatro dias ( semana yoruba ). 
A festa anual ( Odun Osun) retorna portando a cada noventa e duas semanas yoruba, perdendo um dia em cada ano solar normal e dois dias a cada ano solar bissexto. 
O Ataoja, referindo-se a deusa Osun diz : 
“ O povo de Osogbo e o Ataoja tem um pacto com o rio Osun. Eles acreditam que o espírito de Osun mora no rio Osun e tem ali seu palácio, em lugar próximo de Osogbo. Pensam também que todos os lugares profundos do rio Osun, a partir de “Igede” onde ele nasce até a laguna de “Leke” onde ele despeja suas águas, são habitados pelos espíritos de todos os seguidores, servidores e amigos quando ela vivia. 
Esses lugares profundos recebem a denominação de “Ibu”. 
Finalizando diz: Todos os rios tributários que deságuam no rio Osun são os dedos da deusa e todos os peixes que nele existem, bem como em seus afluentes são os mensageiros de Osun. 
Os tesouros de Osun são guardados no palácio do “Ataoja” templo este que fica situado nas proximidades do rio Osun. 

 
Texto.: Notas sobre o culto aos Orixás e Voduns 
Pierre Fatumbi Verger 

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.