terça-feira, 10 de maio de 2011

Ebo ejẹ sacrifício


Sacrifício é uma palavra que devemos ressaltar em nosso culto, quando ofertamos qualquer elemento ao Òrìsà devemos tratá-lo também como ebo.
Ebó é todo elemento ofertado a uma força espiritual, seja ela de que natureza for, Ajogun (forças negativas), Irúnmợlè (òrìsà que não são fúnfún-branco) ou òrìsà.
Quanto ao Ebó Ejè, oferecimento de sangue, as críticas tornaram-se cada vez mais contundentes, com apoio externo, inclusive da mídia, que não perde a oportunidade de associar qualquer fato ligado ao nosso culto com Bruxaria, Magia Negra, Vodoo (como aspecto pejorativo) e etc.
É surpreendente como pessoas que são leigas nestes fundamentos e incapazes de resolver problemas gravíssimos que a religião yorùbá por inúmeras vezes se defronta e resolve, vem nos atacar nos chamando de primitivos e incivilizados.
Creio que civilizado para eles, é a forma como os matadouros abatem estes animais, as touradas do México e da Espanha católica, os safáris, caçadas na Inglaterra anglicana, as rinhas de galo / cães e etc.
Não se questiona a vida perdida dos animais sem nenhum propósito, ufanismos à parte, o que importa é o produto final. O contrabando de animais silvestres e exóticos, criação de pássaros em cativeiro, criados em gaiolas como souvenir e pesca de arrasto que mata indiscriminadamente e vorazmente servem apenas para aguçar a vaidade de possuir um acessório de pele e/ou couro e a ganância financeira. As iguarias gastronômicas fornecidas por animais em extinção não é questionada, a vida perdida destes animais sem nenhum propósito, não passa de um meio.
Imolação maior fez o Cristianismo, a religião do amor, que com sua Inquisição e Cruzadas, dizimou milhares de vidas e faz-se vista grossa para tal acontecimento, tratando-o apenas como fato histórico, isto sim é inexpugnável.
Discriminar e perseguir religião alheia é certamente muito mais grave que qualquer ato litúrgico praticado por nós.
Não somos dissimulados ao ponto de ignorar o ciclo de vida e morte, sabemos de nossas responsabilidades.
A Terra (Ìkợlé Aye), como um grande Ile ikú, alimentada por este ciclo de morte e renascimento desde os primórdios, nos fornece o material necessário impregnado dos elementos insubstituíveis para nossa liturgia, não podemos deixar que uma visão utópica transgrida essa lei sagrada.
Dentro do Velho Testamento encontraremos o Levítico, o terceiro livro da Bíblia atribuído a Moisés. Os judeus chamam-no Vayikrá. Basicamente é um livro teocrático, isto é, seu caráter é legislativo; possui, ainda, em seu texto, o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário litúrgico entre outras normas e legislações que regulariam a religião.
A maioria das pessoas que consomem carne não se preocupa com a origem deste animal, seu abate e posterior comercialização, estão desconectados da realidade. Menciono também os vegetarianos, que ao tirar da terra legumes, verduras e hortaliças, também estão tirando vidas, neste caso, eliminando a seiva, sangue verde, e a respiração, fotossíntese, deixando de ser um ser vivo para lhe dar a vida.
Dentro do Culto Ioruba a imolação de animais é tratada com respeito, Gbàdúrà e oriki, onde este sangue estará dando vida a outros e fertilizando a própria terra.
Lembrando o itọn onde Òlódùmarè determina que a terra, Onilè, será o principal receptáculo de todo oferecimento.
Dentro de Ifá, nos Odu Ìrẹtẹ-meji e Òtúúrúpòn ‘Òtúrá, Ọrúnmìlá determina a troca dos seres humanos pelo dos animais, foi quando a cabra substituiu a filha de Ọrúnmìlà no ritual de ebo Ejẹ.
A permanência do ser humano sobre a Terra exige sacrifícios constantes. Sacrifício de tempo e de privação de algo em detrimento de outro, o sacrifício das transformações e a oferta de dinheiro à custa de esforço através do trabalho, todos girando em um processo interminável que se resume a dar e receber.
Os sacrifícios de animais praticados pela religião iorubana, vão além do àşé, servem para alimentar o povo, pois a carne é consumida pelo ẹgbé.
Note-se que a vida animal oferecida através de ebo, dentro do Culto yorùbá, é rezada e seu espírito enviado com todo o respeito a terra dos ancestrais e para os nove espaços do Ợrùn.

EBÓ

Uma das três formas de àşé encontrada no reino animal é o, Ejẹ o sangue.
O sangue que nos dá a vida em sua plenitude, sempre foi considerado divino, não existe um laboratório que o fabrique, é a força divina em seu estado material.
Tudo incluído na composição da Terra está contido, também, na composição do sangue. Por exemplo, zinco, água, minerais, ferro, magnésio, etc.
Note-se que todos os reinos, seja ele mineral, vegetal ou animal, está contido em nosso sangue e vice-e-versa.
Sacrificar os animais não são regras e as orações específicas da ação dão graças a Deus pelo sacrifício.
Exemplo: O primeiro passo é agradecer a Deus pelo espírito do animal que vai em missão. Então, nós agradecemos a Deus pela comida, a carne que vamos comer, e agradecemos também a Mãe Terra, Onilè, que nos deu este alimento para sobreviver.
Os demais componentes litúrgicos tem sua missão, tais como:

Obi: Utilizado como oráculo para conversar com as energias e para onde encaminhar os ebo, aplacar a ira de energias negativas e a fruta da vida onde no momento de comunhão com os Òrìşà a pessoa se conecta com sua ancestralidade.

Orogbo: Utilizado para vida longa, aumento de resistência e perseverança da pessoa, quando utilizado com casca para que um segredo não seja revelado.

Oyin (mel): Utilizado para alegria, bem estar, harmonia, prosperidade e para que algo ou alguém nunca seja desprezado.

Epo (dendê): Elemento de efeito calmante, traz equilíbrio e facilidades.

Iyò (sal): Para sorte e preservação, para que a pessoa consiga manter suas conquistas. Dinheiro e vida longa.

Ataare: Utilizado para consagrar o diálogo dar forças as palavras, utilizados em comidas e também para multiplicar os desejos.

Oti (muito usado em rituais) O gin tem como princípio a purificação das palavras e também o despertar da energia a favor do suplicante.

Owo ẹrò: Búzios utilizados para comprar as dívidas e a falta de dinheiro do suplicante.

Moedas antigas: Utilizadas para pagar os Ajogun (energias negativas) que podem ou não estarem ligadas com as Ìyàámi.

Osùn: Usado para que a essência vital, simbolizando o sangue vermelho vegetal, para que o àşé e as conquistas não se acabem.

Efún: Para atrair o àşé, representa a água.

Ìyèrósùn: Elemento sagrado de Ifá tem o poder de transmitir o àşé de Odù ao que está sendo feito, ativar o Odù Ifá.

E outros elementos mais.
Vemos então um conjunto de elementos que agrupados vão fornecer o produto final a ser enviado ao Alto, Ìkợlé Ợrùn.
Nossa religião, como uma das mais antigas, tendo sua ritualística registrada nos Ẹsẹ
O Ebó Ejẹ oferecidos dão movimento ao fluido vital liberado, o àşé, que atua fora do campo material tendo o poder de transformação sobre coisas desejadas ou indesejadas que estejam afetando o ser humano.
O Òrìşà, como energia do cosmos, não necessita de comida propriamente dita e muito menos de sangue, o sangue nada mais é que o fluido vital que corre em nossas veias nos assegurando a sobrevivência, como é inerente a todos os seres vivos. Quando este material, ejẹ, é encantado e liberado, ele atua como veículo operador, atua como uma profilaxia espiritual ou reforçando a energia já instalada.
As correntes que se opõem a esta prática, nos taxando de primitivos, desconhecem o poder deste veículo, como transferidor de àşé.
Podem de uma certa maneira estar tentando criar uma nova religião, como temos vistos pessoas pregando o Candomblé Verde, embora isso também seja sacrifício, desde que orientado por Ifá, não quer dizer que o sangue animal deva ser excluído.
O que temos que ter em mente é a sacralidade do ato, o silencio, o respeito, as orações, os oriki e os Ofó, devem seguir uma ritualística condizente com o momento, onde todos os participantes, principalmente Onilu e Asogun responsáveis pelo ato sagrado da imolação e o sacerdote proferidor das palavras encantadas.
A Ìyábásè, responsável pela sequência do ato litúrgico, é por demais importante na finalização do Oro, onde a preparação do eran, carne, seguirá ordens ditadas pela energia invocada, através de Ifá, no jogo de Obi àbátá.
Ao se encerrar a missão com todos os elementos colocados aos ‘pés’ do Igbá ou Ojùgbò, igbá coletivo da casa, saberemos se tudo foi aceito por Òlódùmarè, com nova caída do obi, orogbo, esun isu ou ìgbìn.
Tudo finalizado damos sequência com a preparação do nosso banquete, onde nos confraternizamos e agrademos a Òlódùmarè e a Onilè o alimento.


Por: Odé Ợlaigbò

2 comentários:

  1. Aboru Aboye
    Texto maravilhoso e esclarecedor.
    Irei usar como fonte de pesquisa em meu site www.meucoracaoafricano.com e darei os devidos créditos.
    Adupé

    ResponderExcluir

O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.