sábado, 16 de abril de 2011

UMA DEFINIÇÃO DE ODU.

DEFINIÇÃO DE ODU

Há no Brasil uma grande curiosidade das pessoas em conhecer o orisá de cabeça; quem é seu pai ou sua mãe. É compreensível. Creio, porém, que não devemos perder a dimensão de que é mais importante conhecer o odu pessoal que o orisá de cabeça. Vou tentar explicar a razão. Vamos ao primeiro passo.
Odu é uma espécie de signo que rege o nascimento de cada pessoa. A tradição iorubá aponta a existência de dezesseis signos principais, cujas combinações perfazem 256 odus. Cada um de nós é regido por um desses odus. Cada odu é composto de uma infinidade de poemas, relatando a história da criação e o papel que os orisás e uma série de outras espiritualidades exerceram nessa história primordial. O conjunto dos odus forma, então, o texto canônico sobre o qual se sustenta a tradição de Ifá.
Dentro dos odus estão os caminhos e as possibilidades que cada um de nós carregará para o resto das vidas. Nesse sentido, odu é o destino possível de cada um. Meu odu, por exemplo, contém as coisas que devo evitar os eventos que podem colocar em risco a minha vida, as comidas que me fazem bem, as comidas que me fazem mal, minhas aptidões profissionais, minha relação com meus ancestrais, as folhas que me curam, as folhas que me matam, os ebós que me salvam os orisás que me acompanham... O que salva, no meu odu, pode matar, no odu de outra pessoa. Nenhum homem escapa ao seu odu. Vive os caminhos ire (positivos) ou ibi (negativos), mas não escapa. Odu é o designo de Olorum, o deus maior.
Em cada odu, os poemas relatam as histórias dos orisás e de outros elementos encantados da natureza. Eu, por exemplo, sou filho de Ogum. No meu odu, Ogum não aparece como o guerreiro violento e conquistador. Ogum surge como o inventor do arado; agricultor e mestre ferreiro. A tendência é que a energia de Ogum se manifeste na minha vida dessa forma mais branda.
Tenho irmãos de Ifá filhos de Ogum que, entretanto, possuem odus onde os poemas que envolvem o orisá falam de violência e guerra. É assim que a energia de Ogum pode se manifestar para eles. Não se compreende a natureza do orisá de cabeça sem o conhecimento do odu e dos caminhos em que nele o orisá se apresenta. Para efeito de comparação, quem conhece apenas meu orisá sabe em que cidade eu moro. Já é muita coisa. Quem conhece meu odu pessoal, com seus caminhos, e sabe como a energia do meu orisá se manifesta nele, tem uma cópia da chave da minha casa.
Não se faz - ou não se deveria fazer - santo na cabeça de uma pessoa sem o conhecimento prévio do odu da mesma. Exemplifico. Digamos que o Iywao que vai se iniciar seja filho de Sòngo. Há um dos 256 odus - daqueles famosos, que todo babalawo conhece - em que Ifá revela que a energia de Sòngò é forte demais para ser consagrada na cabeça de alguém. A simples menção do nome deste odu evoca os poderes do fogo. Imaginem raspar Sòngò no ori de um noviço que seja desse signo. Não se raspa em nenhuma hipótese. Assim Ifá ensina assim o sacerdote deve agir. Osa Irosun nos diz em um de seus versos: Só Orunmilá pode revelar o orisá de cabeça de cada pessoa e só Orunmilá pode determinar que orisá deva ser consagrado na cabeça de cada um. É por isso que conheço exemplos louváveis de grandes Bàbá/Iyàlorisá que não fazem orisá na cabeça de ninguém sem antes consultar um babalawo, para confirmar se os procedimentos litúrgicos adotados estão de acordo com as ordens do único orisá que pode estabelecer isso: Orunmilá.
Após essa rápida introdução, surge a dúvida: como se revela o odu de cada um?

4 comentários:

  1. Asé pelo comentário... mas não negando, apenas complementando, o conceito de "divinização" do verbo divinizar, só é legitimado por quem acredita, louva, reconhece que aquela energia, materializada ou não, é poderosa e sagrada.

    Os Orisás foram divinizados por homens como eles. Qualquer entidade se torna sagrada quando é louvada e cultuada.

    Ora, se apenas Sango foi divinizado por Olodumare, por que louvamos outros Orisas?

    É importante estabelecermos conceitos antes de abordá-los. E eu falhei nisso. O conceito de divino que abordo é ligado ao poder e importância sagrada atribuida pelo "crentes", por quem crê, e não pelo próprio Criador, ou força suprema, no nosso caso Olodumare.

    Por isso considero importante estarmos sempre lendo, comentando e apontando possíveis divergencias. Seu comentário em meu artigo me levantou essa questão conceitual que é muito importante.
    Asé e agô.

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  2. Sr. Alan Geraldo, boa noite.

    Se a sua ótica, esta ligada ao Divinizar pelo ser humano, vc pode investigar que estes seres chamados òrìsás, não passam de Esà (seres humanos divinizados por seu povo).
    São cultuados nesta categoria pelo seu povo, mas não tem status de Divindade proveniente da energia de Obatalá.
    A energia matriz, derivada de Obatalà, criou todos os òrìsás funfun e por conseguinte os Irunmolé, assim reza a crença Ioruba tradicional.
    Obatalá como ser supremo criador da vida, dos seres humanos, e primórdio energetico dos 'òrìsás' é o "avalista desta teoria", não podemos esqueçer que Sàngo 5º Alafin de Oyó, foi o unico da dinastia de Oranmian a ser divinizado por Olodunmarè, portanto ao adorarmos os òrìsás e irunmolés, somos sabedores que estes são criação do próprio Deus, inclusive Sàngo.
    Não sou dono de nenhuma verdade, porém não podemos cair na vulgaridade do catolicismo que sai por ai transformando em 'santos' quem lhe convém.
    A crença popular deve ser respeitada, mas, nós que temos a coragem de escrever e pesquisar estes temas, não podemos ter uma opinião formada nas 'hostes do populacho'.
    Estamos de uma certa forma formando opinião com nosso blog e nossas idéias, talvez a diferença entre nossos pensamente resida na divergência entre o Candomblé e O Culto Ioruba Tradicional, o qual eu professo.
    Pesquise Samuel Cromwell Osamoro, uma das maiores personalidades do Culto de Ifá no mundo.

    Mas podemos continuar trocando ideias e irmos crescendo com nossas opiniões e divergências..
    Peço de ante-mão desculpas caso meu comentário tenha se tornado inconveniente em algum aspecto.

    Mo juba.

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  3. Assé... diferenças se complementam e não se destroem

    Mojubaré Mojubá

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  4. lendo de novo seu comentário, me surgiu algumas dúvidas:

    quem dá o status da energia proveniente de Obatalá? quem estabele isso?

    quando Sango, da 5ª dinastia foi divinizado por Olodumare? onde existe menções, itans, adurás, orikis que dizem isso?

    Por que Sango foi divinizado por Olodumare e todos os outros não?

    O Candomblé e o culto Yorubá tradicional não mantém uma harmonia teológica, conceitual?

    Como podemos, nós cultuadores de Orissás, dar validade à mitos da criação ou verdade absoluta, uma vez que contradizem a lógica da natureza?

    Se louvamos a natureza e suas formas, como podemos negar sua principal virtude: a transformação?

    São dúvidas....

    Assé, Mojubá

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.