quinta-feira, 24 de março de 2011

Onilé - A Mãe Terra

Os antigos povos que deram origem aos atuais Yorùbá, de cujas tradições se moldaram o candomblé no Brasil, cultuavam uma entidade da Terra, a Terra-Mãe, que recebeu muitas denominações em diferentes aldeias e cidades que formam o complexo cultural Yorùbá e seus entornos principais, entre o povo do Dahome (Atual Benin) os Tapa, Nupe e os Ibo. Esta antiga divindade é até hoje cultuada e recebe o nome de Onilé, a Dona da Terra, a Senhora do planeta em que vivemos. Outros nomes da Terra-Mãe são: Ayé, Ilé, Ya nlé, também Ije, Ale, Ala, Aná, Ògéré, e mesmo Buku e Buruku. Entre os Jeje do Maranhão e da Bahia é chamada Aìsàn.
Creio que grande parte dos seguidores do candomblé nunca ouviu falar ou teve apenas vagas referências sobre Onilé, mas em certos candomblés de nação Ketu, que preservam ou reconstituem tradições que em grande parte se perderam na diáspora Yorùbá, pratica-se um culto discreto, mas significativo a Terra-Mãe, para a qual se canta, ou no início do Sire ou no final da chamada roda de Şàngó, a cantiga que diz:
Ìbà òrìşà,
Ìbà o, Onilé
Onilé mo jùbá o

Eu saúdo o òrìşà.
Eu saúdo Onilé
Onilé eu te saúdo!

Onilé é uma divindade feminina relacionada aos aspectos essenciais da natureza, e originalmente exercia seu patronato sobre tudo que se relaciona à apropriação da natureza pelo homem, o que inclui a agricultura, a caça e a pesca e a própria fertilidade. Com as transformações da sociedade Yorùbá numa sociedade patriarcal ou patrilinear, que implicou a constituição de linhagens e clãs familiares fundados e chefiados por antepassados masculinos, as mulheres perderam o antigo poder que tiveram numa primeira etapa (um mito relata que, numa disputa entre Ợya e Ògún, os homens teriam arrebatado o poder que era antes de domínio das mulheres).
Os antepassados divinizados tomaram o lugar das divindades primordiais e houve uma redivisão de trabalho entre os òrìşà. As divindades femininas antigas tiveram então seu culto reorganizado em torno da divindade feminina Ìyáàmi Òṣòròngà, Àjé, consideradas bruxas maléficas pelo fato de representarem sempre um perigo para os poderios masculinos, e vários òrìşà tiveram dividido entre si as atribuições de zelar pela Terra, agora dividida em diferentes governos: o subsolo ficou para Ọbalúwayè e para Ògún, o solo para òrìşà-Oko e Ògún, a vegetação e a caça para os Odé e Ọsànyìn e assim por diante. A fertilidade das mulheres foi o atributo que restou às divindades femininas, já que é a mulher quem dá à luz, que reproduz e dá continuidade à vida.
Constituir-se-iam elas então em òrìşà dos rios, representando a própria água, que fertiliza a terra e permite a vida: são as Ìyáàgbà Yemợjà, Òşún, Ợbá, Ợya, Iyewá e outras e também Nàná, que como antiga divindade da terra, representa a lama, simbolizando a fertilização da terra pela água.
Onilé teve seu culto preservado na África, mas perdendo muitas das antigas atribuições. Hoje ela representa nossa ligação elemental com o planeta em que vivemos, nossa origem primal. É a base de sustentação da vida, é o nosso mundo material. Embora sua importância seja crucial do ponto de vista da concepção religiosa de universo, os devotos a ela poucos recorrem, pois seu culto não trata de aspectos particulares do mundo e da vida cotidiana, preferindo cada um dirigir-se aos òrìşà que cuidam desses aspectos específicos. No Brasil, como aconteceu com outros òrìşà, seu culto quase desapareceu. Certamente um fator que contribuiu para o esquecimento de Onilé no Brasil é o fato de que este òrìşà não se manifesta através do transe ritual, não incorpora, não dança. Outros òrìşà importantes na África e que também não se manifestam no corpo de iniciados foram igualmente menos considerado neste País que, por influências de cunho pessoal ou vaidade, atribui um valor muito especial ao transe.
É interessante lembrar que o culto de Ọsànyìn sofreu no Brasil grande mudança, passando o òrìşà das folhas a se manifestar no transe, o que o livrou certamente do esquecimento. O culto da árvore Iroko também se preservou entre nós, ainda que raramente, quando ganhou filhos e se manifestou em transe, sorte que não teve Apaókà.
Na Nigéria mantém-se viva a ideia de que Onilé é à base de toda a vida, tanto que, quando se faz um juramento, jura-se por Onilé. Nessas ocasiões, é ainda costume pôr na boca alguns grãos de terra, às vezes dissolvida na água que se bebe para selar a jura, para lembrar que tudo começa com Onilé, a Terra-Mãe, tanto na vida como na morte. Um mito que já tive o prazer de contar em outras ocasiões ensina qual são a atribuição principal de Onilé, como ela está associada ao chão que pisamos e sobre o qual vivemos junto com todos os seres vivos que formam o nosso habitat, nosso mundo material.
Assim conta o mito:
Onilé era a filha mais recatada e discreta de Òlódùmarè. Vivia trancada na casa do pai e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os òrìşà seus irmãos se reuniam no palácio do grande pai para as grandes audiências em que Òlódùmarè comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos tambores. Onilé não se sentia bem no meio dos outros. Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem:
Haveria uma grande reunião no palácio e os òrìşà deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram esta ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento. Quando chegou por fim o grande dia, cada òrìşà dirigiu-se ao palácio na maior ostentação, cada um mais belamente vestido que o outro, pois este era o desejo de Òlódùmarè. Yemợjà chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de pérolas. Ọșóòsì escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Ọsànyìn vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ògún preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Òsun escolheu cobrir-se de bronze, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Ợșumàrè mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Ợya escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Şàngó não fez por menos e cobriu-se com o trovão. Òòşàálá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante. Não houve quem não usasse toda a criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita. Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo.
Cada òrìşà que chegava ao palácio de Òlódùmarè provocava um clamor de admiração, que se ouvia por todas as terras existentes. Os òrìşà encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé. Onilé não se preocupou em vestir-se bem. Onilé não se interessou por nada. Onilé não se mostrou para ninguém. Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão. Quando todos os òrìşà haviam chegado, Òlódùmarè mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele disse então à assembleia que todos eram bem-vindos. Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher entre eles qual seria o mais vistoso e belo. Havia todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Então disse Òlódùmarè que os próprios filhos, ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo. Então Yemợjà ficava com o mar, Òşún com o bronze e os rios. A Ọșóòsì as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Ọsànyìn. Deu a Ợya os ventos e tempestades e a Şàngó o raio e o trovão. Fez Òòşàálá dono de tudo que é branco e puro, de tudo que é o princípio, deu-lhe a criação. Destinou a Ợșumàrè o arco-íris e a chuva. A Ògún deu todos os metais e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra. E assim por diante. Deu a cada òrìşà um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um. E disse que a partir de então cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza.
Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao òrìşà que a possuísse. Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do òrìşà. Os òrìşà, que tudo ouviram em silêncio, começaram a gritar e a dançar de alegria, fazendo um grande alarido na corte. Òlódùmarè pediu silêncio, ainda não havia terminado. Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições. Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos òrìşà. Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra.
Quem seria?
Perguntavam-se todos?
Onilé", respondeu Òlódùmarè.
Onilé?
Todos se espantaram.
Como, se ela nem sequer viera à grande reunião?
Nenhum dos presentes a tinha visto até então. Nenhum sequer notara sua ausência.
Pois Onilé está entre nós, disse Òlódùmarè.
E mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde ela se abrigava vestida de terra, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé, em sua roupa de terra. Onilé, a que também foi chamada de Ile, a casa, o planeta.
Òlódùmarè disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé, pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa. A humanidade não sobreviveria sem Onilé.
Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Òlódùmarè partilhara com filhos òrìşà? Tudo está na Terra.
Disse Òlódùmarè.
O mar e os rios, o ferro e o ouro, Os animais e as plantas, tudo, continuou.
Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris, tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte.
Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi à sentença final de Òlódùmarè. Onilé, òrìşà da Terra, receberia mais presentes que os outros, pois deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem. Onilé, também chamada Ayé, a Terra, deveria ser propiciada sempre, para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído. Todos os presentes aplaudiram as palavras de Òlódùmarè. Todos os òrìşà aclamaram Onilé. Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.
E então Òlódùmarè retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos òrìşà!
E assim este mito, de modo didático e com muita beleza, situa o papel de Onilé no panteão dos òrìşà Yorùbá. Como é estrutural nos mitos, o tempo da narrativa não é histórico, dando a impressão que os cultos dos diferentes òrìşà foram instituídos a um só tempo, num só ato do supremo deus. A narrativa enfatiza, contudo, a concepção básica da religião dos òrìşà, isto é, que cada òrìşà é um aspecto da natureza, uma dimensão particular do mundo em que vivemos. Eles são o próprio mundo, com suas forças, elementos, energias e propriedades, mundo que tem por base Onilé, a Terra, o planeta que habitamos o nosso lar no universo.

Mito de Onilé.

Na África Yorùbá, Onilé ocupa lugar central no culto da sociedade masculina secreta Ogboni. A escultura em bronze aqui mostrada, provavelmente do século XVIII, é originária dessa sociedade tem os olhos em semicírculos, que tudo observam em silêncio, e as mãos fechadas e alinhadas, uma sobre a outra, na altura do umbigo, num gesto que simboliza o conhecimento ancestral, conforme os símbolos Ogboni, sociedade que, até o século XIX, cuidava da justiça, julgava criminosos e feiticeiros e executava os condenados à morte.
Louvar Onilé é celebrar as origens. Por isso, quando aparecem junto aos humanos, os antepassados Eégúngún saúdam Onilé, lembrando-nos que ela é anterior a tudo o mais, mesmo às linhagens mais antigas da humanidade.
Vermelho e marrom, cores da terra, são as cores apropriadas para colares de contas que homenageiam Onilé. Na África, os sacrifícios feitos a Onilé incluem caracóis, aves fêmeas e tartarugas (Abimbola, 1977: 111).
No Brasil a legislação pune como crime inafiançável o sacrifício de animais ameaçados de extinção e assim a tartaruga é substituída pela cabra. Aliás, matar um animal em extinção seria uma ofensa imperdoável a Onilé, que é a própria natureza, a grande mãe da ecologia.
Além desses animais, dá-se para Onilé tudo o que a terra produz e que o homem transforma: obi, orogbo e todas as demais frutas, inhame e outros tubérculos, feijões, milho, favas, mel, dendê, sal, vinho e tudo mais que vem da terra pela mão do homem.

Cultuada discretamente em terreiros antigos da Bahia e em candomblés africanizados, a Mãe Terra tem despertado recentemente curiosidade e interesse entre os seguidores dos òrìşà, sobretudo entre aqueles que compõem os seguimentos mais intelectualizados da religião. Onilé, isto é, a Terra, tem muitos inimigos que a exploram e podem destruí-la. Para muitos seguidores da religião dos òrìşà, interessados em recuperar a relação òrìşà-natureza, o culto de Onilé representaria, assim, a preocupação com a preservação da própria humanidade e de tudo que há em seu mundo. Pois é Onilé quem guarda o planeta e tudo que há sobre ele, protegendo o mundo em que vivemos e possibilitando a própria vida de tudo que vive sobre a Terra, as plantas, os bichos e a humanidade.

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O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.