quarta-feira, 23 de março de 2011

O CONCEITO DE BOM CARATER NO CORPO LITERÁRIO DE IFÁ.

Ìwàpèlè


Wande Abimbola

O corpo literário de Ifá é uma importante fonte de informações sobre o sistema de crença e valores Yorubas. Como porta voz de outras divindades, Ifá é depositário de todos os mitos e dogmas morais das outras divindades. O Povo Yoruba crê que Òrúnmìlá estava presente quando Olódùmarè(Deus todo poderoso) criou o céu e a terra. Portanto, Ifá conhece a história do céu e da terra e domina as leis físicas e morais com as quais Olódùmarè governa o universo. Por isso Òrúnmìlá é tido como sábio conselheiro, historiador e tutor da sabedoria divina. Por isso, entre seus nomes de honra está:

Akónilóran bí ìyekan eni,
Ogbón ile ayé,
Òpìtàn ilè ifè[i]

Aquele que ensina alguém com sabedoria, como se fosse de sua família
A sabedoria da Terra,
O historiador da terra de Ifè[ii]

Os importantes conceitos filosóficos personificados no corpo literário de Ifá incluem o conceito de Orí (cabeça espiritual ou interior), ebo (sacrifício) e Ìwàpèlè (bom caráter). Esses três conceitos são muito relacionados e complementares entre si.  Orí é a essência da sorte e a mais importante força responsável pelo sucesso ou fracasso humano. Além disso, Orí é a divindade pessoal que governa a vida e se comunica, em prol do indivíduo, com as demais divindades. Qualquer coisa que não tenha sido sancionada pelo Orí de uma pessoa, não pode ser aprovado pelas divindades. Isso que quer dizer a declaração encontrada em Ògúndá Méjì:
Orí, pèlé,
Atèténíran;
Atètègbenikòòsà
Kò sóòsa tíí dá ‘ níí gbè léyìn orí eni[iii] 

(Orí, o saúdo
Você que sempre abençoa rapidamente os seus
Você, que abençoa o homem antes de qualquer divindade,
(Nenhuma divindade abençoa uma pessoa sem o conhecimento de seu Orí)

Ebo (sacrifício) é uma forma de comunicação simbólica e ritual entre todas as forças do universo. Os yoruba acreditam que, além do próprio homem, existem duas grandes forças em oposição no universo, uma benevolente em relação aos seres humanos e outra hostil. As forças benevolentes são, coletivamente, conhecidas como ìbo (as divindades), e as malevolentes são conhecidas como ajogun (guerreiros opositores ao homem). As àjé (as bruxas) estão também em aliança com os ajogun para a destruição do homem e de sua obra. Os humanos necessitam oferecer sacrifício às duas forças para sobreviver. O Homem necessita oferecer sacrifício às forças benéficas para continuar gozando de seu apoio e bênçãos. Necessita também oferecer sacrifício aos ajogun e às àjé com o objetivo de não encontrar sua oposição quando estiver prestes a realizar algum projeto importante.

A divindade que age como mediador entre as três partes mencionadas acima é Èsù, que partilha um pouco dos atributos das forças benéficas e maléficas. É o policial do universo. Além disso, é imparcial, uma vez que só irá dar apoio ao homem ou divindade que tenha feito sacrifício. Isso é o que quer dizer a afirmação: eni ó rúbo l Èsùú gbè. Uma vez recebido o sacrifício prescrito, ele proibirá os ajogun de prejudicar o suplicante. Èsù é o guardião do àse, semelhante à autoridade e o poder divino com os quais Olódùmarè criou o universo. Èsù é consequentemente, o verdadeiro administrador do universo, o princípio da ordem e da harmonia e agente da reconciliação. Sua esposa, Agbèrù, recebe todos os sacrifícios em seu nome. Após tirar sua parte de aárùún (cinco búzios) e um pouco de todos os outros materiais oferecidos em sacrifício. Èsù leva as oferendas para as divindades ou os ajogun envolvidos. O efeito, normalmente, a restauração da paz e a reconciliação entre as partes conflituosas.

Uma questão emerge imediatamente quando analisamos o que foi dito até agora. Qual o papel reservado aos seres humanos no universo Yorubá, onde o indivíduo não pode agir de forma independente de seu Orí e está à mercê de dois poderosos conjuntos de forças sobrenaturais aos quais ele deve oferecer sacrifícios incessantemente para poder sobreviver. O indivíduo realmente importa em tal sistema? É aí que o conceito de Ìwàpèlè entra. Juntamente com um conjunto de princípios menores como àyà e esè, o princípio de Ìwàpèlè, em certo grau, liberta o homem dessa estrutura de universo autoritária e hierárquica e, de qualquer forma, provém a ele com um conjunto de princípios com os quais regular sua vida, com o intuito de evitar colisões com os poderes sobrenaturais e com seus companheiros humanos. Segue-se uma pequena descrição e interpretação do princípio de Ìwà relacionado com os as crenças dos Yorubas já citadas acima.

A palavra Ìwà é formada a partir da raiz verbal wà (ser ou existir) adicionada do prefixo deverbativo “i”. O sentido original de Ìwà pode, então, ser interpretado como “o fato de ser, viver ou existir”. Assim, quando Ifá fala de

Ire owó
Ire omo
Ire àikú parí ìwà
O significado de ìwà nesse contexto é exatamente o referido acima.

Tenho a impressão de que o outro significado de ìwà (caráter, comportamento moral) é originário da utilização idiomática deste sentido léxico original. Se este for o caso, ìwà (caráter) é, portanto, a essência de ser. O ìwà de um ser humano pode ser usado para caracterizar sua vida, especialmente em termos éticos.

Além disso, a palavra ìwà (caráter) pode ser usada para se referir a ambos, bom e mau caráter. Para exemplificar de forma declarativa, alguém poderia dizer:

Ìwà okùnrin náà kò dára
O caráter do homem não é bom.

Ìwà okurin náàá dára
O caráter do homem é bom.

Mas, às vezes, a palavra ìwà pode ser usada para se referir unicamente ao bom caráter.

Obìnrin náàá ní ìwà
A mulher tem bom caráter.

Pode-se dizer também:

1-    Ìwà pele  (caráter bom, ou manso)
2-    Ìwà búburú (mau caráter)

Este estudo é sobre Ìwà pele, que pode ser traduzido como caráter manso, gentil, ou, em um sentido amplo, bom caráter.

Como mencionado acima, ìwà é tido como um dos muitos objetivos da existência humana  para o Yorubá. Todo indivíduo deve empenhar-se para ter ìwà pele, com o objetivo se ser capaz de ter uma boa vida num sistema dominado por muitos poderes sobrenaturais e numa sociedade controlada pela hierarquia nas autoridades. O homem que possui ìwàpele não colidirá com nenhum dos poderes, sejam humanos ou sobrenaturais e, desta forma, viver em completa harmonia com as forcas que governam tal universo.

É por isso que o Yoruba tem ìwàpele como o mais importante de todos os valores morais e o maior de todos os atributos de qualquer homem. A essência da prática da religião para o Yoruba consiste, assim, em empenhar-se em cultivar Ìwàpèlè. Isso é o que quer dizer o ditado:

Ìwà Lèsin
(Ìwà é outro nome para a devoção religiosa)


[i] Esse poema foi coletado do Chefe Fádáyìíró, Olúwo de Akéètàn, Òyó durante o mês de agosto, 1963

[ii] A terra de Ifè aqui citada significa o conjunto das terras Yorùbá.

[iii] Wande Abímbolá, Ìjìnlè Ohùn Enu Ifá Apá Kìíní, Collins Glasgow, 1968, p 100

[iv] Entre os ajogun estão incluídos Morte, Doença, Perda e outras coisas terríveis que afetam o andamento da vida humana.

[v]De uma não publicada coleção de gravações de diversos sacerdotes de Ifá, incluindo Oyedele Ilá, Beesin Compound, Òyó.

Um comentário:

O Culto Tradicional Yorùbá, vem resgatar nossa cultura milenar, guardada na cabaça do tempo.