quinta-feira, 31 de março de 2011

O CONCEITO DA CRIAÇÃO SEGUNDO A TRADIÇÃO IORUBA.

O conceito de Ifá acerca da criação
Cosmologia é o estudo da estrutura do universo que procura descobrir os princípios da essência que sustenta a Criação. A Cosmologia de Ifá é baseada na crença de que o microcosmo (ambiente imediato) é uma reflexão do macrocosmo (o universo). Isto significa que as forças que criaram as estrelas e as galáxias também criaram a Terra, incluindo as plantas e os animais que se desenvolveram no planeta. Devido a esta seqüência, Ifá ensina que todo problema enfrentado pelos humanos tem uma contraparte análoga em todas as esferas de existência. As escrituras de Ifá descrevem  freqüentemente os problemas encontrados por animais e plantas com a suposição básica que a condição humana encontra as mesmas lutas para sobreviver.
Uma das funções da divinação é identificar os meios pelos quais as forças universais se manifestam na vida quotidiana. Isto é feito através do uso do mito. Devido o mito fazer uso de elementos metafóricos, um conhecimento de símbolos torna possível ao divinador relacionar determinado mito a uma dada situação. O paradigma cosmológico fundamental que Ifá utiliza para interpretar símbolos é a crença que a manifestação do Universo é o resultado do equilíbrio entre polaridades.
A maioria dos sistemas metafísicos são baseados na crença que a polaridade primordial que sustenta o universo físico é a tensão entre contração e expansão. Em Ifá, essa polaridade é freqüentemente descrita como a relação entre escuridão e luz. Este relacionamento não é considerado como um conflito entre as de forças do “bem” e as forças do “mal”. A polaridade entre expansão e contração é entendida como sendo a qualidade fundamental da dinâmica e forma como eles existem na Natureza.
Usando o sistema divinatório de Dafa, expansão ou luz é representada por um traço vertical (I) e contração ou escuridão é representada por dois traços verticais (II). Utilizando o sistema divinatório que faz uso de búzios, luz é representada pelo lado côncavo aberto da concha e escuridão pelo lado convexo da mesma. A curva do lado convexo forma uma barriga. Na pratica, essa barriga é removida, expondo uma coluna única abaixo do centro. Este lado do búzio é chamado de “estomago” ou “inú” em yoruba. O lado côncavo possui dois lábios que se curvam para dentro com uma abertura no meio. Este lado da concha é chamado de “boca” ou “enu” em yoruba.
A cosmologia de Ifá ensina o princípio que luz vem da escuridão e escuridão vem da luz. Ela também ensina que todas as coisas existentes são uma manifestação do ase. A palavra yoruba ase possui vários significados. Em um contexto cosmológico, é a Força que sustenta a Criação. A manifestação primordial do ase seria a Força invisível que cria tanto luz quanto escuridão. A Física chama esta força de eletromagnetismo. Todas as coisas no universo material geram campos de força eletromagnéticos. As forças eletromagnéticas que se expandem  além de suas fontes geram um campo de radiação que abrangem o espectro visível da luz. As forças eletromagnéticas que se contraem pelo movimento em direção a sua fonte desenham  luz fora do espectro visível dentro da escuridão. Na Natureza, um padrão energético (ase) forma uma esfera. Toda a coisa desde o menor átomo até a maior das estrelas contém forças de expansão e contração em uma arena esférica.
O formato esférico da maioria dos padrões energéticos é representado na divinação em Ifá pelo uso de um círculo bidimensional em forma de tabuleiro (Opón Ifá). O Mérìndinlogun geralmente representa a esfera numa peneira (Àté Òrìsà). Toda esfera é definida pela distância entre seus pólos e seu equador. Os pólos e o equador são determinados pela colocação de uma linha horizontal e outra vertical em seus ângulos retos passando pelo centro da esfera. Estas linhas em Dafa são traçadas no pó de iyerosun que é espalhado na superfície do tabuleiro. Estas linhas no Mérìndinlogun são traçadas no pó de efun que é espalhado sobre a peneira. Isto resulta em uma imagem que é uma representação bidimensional de uma realidade tridimensional:
Usando Dafa, o padrão simbólico para luz pura seria uma linha simples em cada um dos dois pólos e em cada extremo do equador como na figura:
Quando estas quatro linhas são postas juntas, formando uma única coluna, elas se tornam uma notação linear que é utilizada para representar uma realidade tridimensional específica. O símbolo para luz é como segue:
I
I
I
I
Pelo mesmo processo, a representação simbólica para a esfera de escuridão seria uma coluna com quatro linhas duplas:
II
II
II
II
Em adição aos pólos e ao equador, toda esfera possui um centro chamado núcleo, que forma um coração oculto dentro dos limites de outra camada exterior. O núcleo de uma esfera também forma uma esfera no ponto onde as linhas dos pólos e equador se cruza.
Dafa utiliza duas linhas verticais para representar o limite externo e o núcleo interno dos padrões de energia que existem na Natureza. Usando exemplos já dados, uma esfera de luz com luz em seu núcleo seria representado por duas colunas de linhas simples. Na divinação em Ifá este símbolo é chamado “Ejí Ogbe” ou “Ogbe Meji”. Ele aparece da seguinte maneira:
I I
I I
I I
I I
Os padrões são lidos da direita para a esquerda. O lado direito é o exterior visível e o lado esquerdo é o interior invisível. Em termos metafóricos o lado direito é masculino e o lado esquerdo é feminino. Em Ifá, a associação entre expansão, luz e energia masculina e a associação entre contração, escuridão e energia feminina é relatado na natureza expansiva e contrativa dos órgãos reprodutores masculinos e femininos. Um não é considerado melhor que o outro. A polaridade entre expansão e contração, entre claro e escuro e entre macho e fêmea são todos vistos como os princípios dinâmicos que geram diversidade no interior da Criação.
Para representar uma esfera que é escura na circunferência e clara em seu núcleo, Dafa utiliza duas colunas de linhas duplas. Na divinação em Ifá este símbolo é chamado “Oyeku Meji”.

II  II
II  II
II  II
II  II
Utilizando estes dois exemplos, é possível fazer uma representação simbólica da Terra. A bola de fogo no centro da Terra seria representada por uma coluna de linhas simples situadas ao lado esquerdo do octograma. A superfície da Terra seria descrita como luz que foi transformada em matéria e seria representada por uma coluna de linhas duplas. Em Dafa apareceria da seguinte maneira:
I  II
I  II
I  II
I  II
Novamente, usando as mesmas técnicas, nós poderíamos fazer uma imagem simbólica do Sol pela representação da luz que emana de sua superfície como uma coluna de linhas simples ao lado direito do octagrama. O combustível no centro do Sol contrai luz, formando uma massa de partículas que seria representada por uma coluna de linhas duplas ao lado esquerdo do octograma. Em Dafa apareceria da seguinte maneira:
II  I
II  I
II  I
II  I
Dentro da religião de Ifá, é creditado ao Profeta Òrúnmilà o uso deste sistema para simbolizar o espectro de polaridades que existe na Natureza. Em dias anteriores à colonização a marcação do Odu foi usada como uma forma de linguagem escrita. Foi e é possível transmitir uma série complexa de idéia pela marcação do Odu com giz ou carvão em um pedaço de cerâmica. Mensagens foram trocadas entre sacerdotes utilizando variações neste método da mesma maneira que alguém escreveria uma carta nos tempos modernos. Em yoruba esta forma de comunicação é chamada “àrókò”.
O simbolismo em Dafa é baseado no uso de elementos binários. Isto significa que ele é construído sobre dois componentes. Os elementos binários são uma linha simples e uma linha dupla. Estes componentes são agrupados em duas colunas reunindo quatro elementos cada. Esta é a mesma estrutura matemática que é utilizada para programar os computadores modernos. A maior diferença é que uma é formada por linhas simples e duplas e os computadores utilizam impulsos 0/1 elétricos para formar elementos binários. Ambos os sistemas fazem uso de octagramas como uma estrutura para armazenamento de informações. Nesta estrutura, cada quadragrama possui dezesseis variações (4 x 4). Pela combinação de dois quadragramas formamos um octagrama, há 256 combinações (16 x 16). Na cultura Yoruba, Dafa é usado como um meio não mecânico de armazenamento de informação. Como um novo discernimento foi acrescentado em uma esfera particular da Natureza, esta informação foi reunida e adicionada aos versos de um octagrama particular associado a uma esfera em particular da Natureza, exatamente como informação e unida e armazenada sob tópicos específicos em um moderno computador.
Ifá chama de Odu “cada um dos 256 octagramas usados em Dafa”. O uso do Odu como um paradigma para estudo e catalogação de Forças na Natureza é uma tentativa precoce em formular um modelo científico que explique dinâmica e forma no universo. O que na superfície pode parecer um conjunto relativamente simples de símbolos é de fato um mapa muito complexo da estrutura da realidade como percebida pelos ancestrais que formularam os conceitos associados a cada Odu. De acordo com a cosmologia em Ifá, a fonte da Criação é Olorun. A palavra Olorun traduz-se como “Senhor do Paraíso”. Senhor é usado aqui no sentido metafísico de possuindo um segredo ou sendo a Fonte de um Mistério. Na cosmologia em Ifá, Céu é o reino invisível que guia a evolução. Olorun é o Mistério da Fonte que é considerado estar por trás da compreensão humana. Quando Ifá descreve Forças na Natureza, se refere àquelas manifestações invisíveis da Criação que se acredita fluir de Olorun. Todos os espíritos que são reconhecidos por Ifá são considerados como aspectos conhecidos de Olorun, enquanto a essência de Olorun permanece um Mistério.
Quando o universo passou a existir no momento da Criação, foi Olodunmare quem deu a tarefa de sustentação para tudo aquilo. Olodunmare vem da raiz Olo Odu, significando “Senhor do Odu” ou “Senhor dos Primeiros Princípios”. Mare é a contração de Osumare que é o espírito do Arco-íris. Na Natureza, o Arco-íris é uma das mais puras manifestações da luz. Olodunmare poderia ser traduzido como “A Fonte das Forças na Natureza geradoras do espectro da luz”. Como Senhor do Odu, Olodunmare pode ser descrito como Caldeirão Místico que contém todas as formas potenciais que se manifestam a partir da Criação.
Como Força Espiritual, Olodunmare existe em polaridade com o espírito Ela. Não há uma tradução direta para a palavra Ela. Alguns dos mais velhos em Ifá dizem significar “Pureza”. Outros dizem significar “Aquele que cria”. Quando estas formas que existem em potencial no útero de Olodunmare se manifestam, é Ela que sustenta esta manifestação. Em termos simbólicos, Ela trás a luz da Criação para fora da escuridão do Útero da Criação.
A tarefa de moldar a Criação foi conferida originalmente a Obatala. A palavra Obatala significa: “Senhor das Vestes Brancas”. O termo “Vestes Brancas” é referencia a substância primordial que forma o alicerce do universo físico. A Física ensina que a primeira manifestação de dinâmica no universo foi luz. No ponto de vista Ocidental, Obatala pode ser compreendido como a essência da luz. A ciência moderna ensina que a evolução é um processo de transformação da luz solar em meio planetário. Evolução é a reorganização da luz solar para as multidimensões da vida na Terra.
O mito de Ifá diz que a tarefa de moldar a Criação foi dada a Oduduwa por Olodunmare após Obatala se embriagar. A polaridade entre Oduduwa e Obatala é a expressão simbólica da teoria Ocidental cientifica que luz forma matéria e que matéria dissipa-se na luz. Ifá expressa o mesmo conceito pela afirmação que luz provem da escuridão e que escuridão provem da luz. A referência à bebedeira de Obatala é uma expressão simbólica da observação de que o movimento da luz para escuridão e vice-versa nem sempre tem lugar em uma progressão uniforme.
As imagens utilizadas para representar os Odu podem ser consideradas cópias dos modos pelos quais a transmissão entre luz e sombra ou expansão e contração têm lugar. A essência dos Odu é a expressão de uma idéia científica que matéria nunca se cria nunca é destruída, é simplesmente transformada.
De maneira a compreender a natureza do Odu em sua manifestação primordial, é de grande auxílio representar a Criação como é simbolizada, tanto no tabuleiro de Ifá quanto no Mérìndinlogun:
Desta representação simbólica da Criação é possível iniciar o processo de visualização dos relacionamentos primordiais representados pelos Odu. Olodunmare é a Fonte de movimento e forma, o universo oculto em potencial. Ela é a manifestação de movimento e forma como ele existe no momento presente. Obatala é a fonte de luz e Oduduwa é luz transformada em matéria. A Fonte de Equilíbrio no universo é Olorun, o núcleo invisível do qual a Criação emerge. Neste paradigma, equilíbrio é o elemento chave. Forças opositoras que coexistem em um estado de equilíbrio geram o ase (poder) necessário para dar nascimento ao próximo estágio da evolução
Às forças espirituais que passam a existir como resultado das polaridades entre Olodunmare e Ela é chamado Imole. Os Imole são aquelas Forças invisíveis que guiam a interação entre luz e matéria. Através dos Imole, os Odu que existem no útero de Olodumare manifestam-se como Força primordial na Natureza.

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