terça-feira, 22 de março de 2011

ELEDUNMARÈ NAS RELIGIÕES AFRICANAS E AFRO-DESCENDENTES.

Monoteísmo x politeísmo - identidade e valia nos afro-descendentes.

O autor é Psicólogo, Babalawo e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP. É membro da Associação Brasileira de Ethno-Psiquiatria, fundador e atual presidente do IOC - Instituto Orunmila de Cultura. É também presidente da FITACO - Federação Internacional das Tradições Africanas e Culto aos Orixás.

Quando refletimos sobre a significativa perda do caráter monoteísta das religiões de matriz africana, durante a formação do processo sincrético que ocorreu entre as religiões cristãs, notadamente a religião católica, e as religiões afro-descendentes, quase que de forma geral, somos levados a pensar em algumas raízes que este processo possa ter para sua efetivação, no mundo psicológico dos envolvidos, no imaginário, seja no espaço dos dominadores, seja no dos dominados.
Ora, entendemos que as respostas existenciais permanentes que garantem aos homens a segurança das suas relações com o mundo, com a vida, com o trabalho e com seus semelhantes, são trazidas pela sua cosmovisão e as interações religiosas dela decorrentes.
A idéia de um Deus único, Criador de todas as coisas e de todos os homens, um Deus que está presente permanentemente na sua obra e que a assiste em todas as suas condições de continuidade, define, de certa maneira, por si só, um modelo de identidade do homem envolvido com essa crença, sua maneira particular de se relacionar com seus semelhantes, sua auto-imagem e a valia que a contempla. Isso tudo termina por se traduzir em uma
construção de mundo psicológico que assegura a estabilidade e a segurança nas relações desse homem com o mundo concreto, com todas as relações sociais e os padrões que regulam os papéis e as interações na sociedade em que vive.
Imagine-se o que pode ocorrer, ou o que efetivamente ocorre, nesse mundo psicológico, quando do embate, do encontro violento acontecido entre duas culturas - no caso, as culturas branco-européia e negro-africana, e que resulte na dominação de uma delas pela outra. No exemplo particular, esse encontro resultou, além de tudo, na diáspora forçada, em direção ao Brasil e às Américas, que o processo de escravização negra representou.
Imaginemos também que, pelo menos em grande parte, a mesma coisa sucedeu-se durante a história da colonização européia sobre a África e a correspondente cristianização da cultura africana. De um lado, do ponto de vista negro-africano, ocorre aí, sem dúvida, uma ruptura de todas as bases de segurança e estabilidade garantidas pela sua
cosmovisão religiosa. Seus valores são desorganizados, suas estruturas sociais e religiosas são desmontadas, suas relações sócio-afetivas são rompidas.
Afinal de contas, onde estaria o seu Deus, que permitiu a conquista e o desmantelamento por parte do branco da sociedade organizada em que viviam; que permitiu o esfacelamento de seus grupos de referência; que permitiu o aprisionamento e a escravização dos seus filhos, dos seus irmãos e amigos, de todos aqueles que faziam, até agora, parte do mundo organizado e estável em que construíam suas vidas e desenvolviam seus projetos de futuro; onde estaria o Deus que permitiu a violência do desterro, que permitiu a degradação da escravidão e que transformou tudo isso em riqueza para o conquistador e em miséria e aviltamento para o conquistado?
No seu imaginário promove-se, então, pode-se entender, com certa margem de certeza, a desestruturação dos valores de segurança e estabilidade, instala-se a dúvida em relação ao poder desse Deus. Pode-se até pensar que nesse imaginário, muito provavelmente, o Deus do conquistador é ou apresenta-se maior e mais forte do que o do conquistado. Os africanos escravizados são retirados de suas famílias, de sua terra, de tudo o que lhes garante sentido e ordem; são transportados para longe, escravizados e transformados em mão de obra geradora de riquezas para o conquistador. E, onde são utilizados como "peças" de produção, a terra transformada pelo seu suor e trabalho, responde com produção e riqueza, com prestígio e valia para o branco. Violento choque sobre seu mundo psicológico - certamente redução da auto-estima e negação de sua valia dentro da ordem cósmica.
Do lado branco, ainda que inversamente, o mesmo processo ocorre, aumentando-lhe a valia, reforçando-lhe os valores e assegurando-lhe efetiva validação dos processos de escravização. Deus, o "seu" Deus, está com certeza ao seu lado, abençoando-lhes a ação conquistadora, o estabelecimento da escravidão e santificando os seus métodos. Ora, se quisermos entender melhor a questão, basta nos remetermos ao Sermão XXVII, do Padre Antonio Vieira, citado pelo historiador Eduardo Spiller Pena, em um artigo intitulado "SANTA PÉ DE CANA, ORA PRO NOBIS!"
- A Igreja Católica entre a oração e a escravidão:
"Quem pudera cuidar que as plantas regadas com tanto sangue inocente houvessem de medrar nem crescer, e não produzir senão espinhos e abrolhos? Mas são tão copiosas as bênçãos de doçura, que sobre elas derrama o Céu, que as mesmas plantas são o fruto, e o fruto tão precioso, abundante e suave, que ele só carrega grandes frotas, ele enriquece de tesouros o Brasil e enche de delícias o Mundo. Algum grande mistério se encerra nesta transmigração; e mais se notarmos ser tão singularmente favorecida e assistida de Deus, que não havendo em todo o oceano navegação sem perigo e contrariedade de ventos, só a que tira de suas pátrias a estas gentes e as traz ao exercício do cativeiro é sempre com vento à popa, e sem mudar vela."
Podemos entender que, a partir daí, o destino dos milhares de africanos escravizados está definitivamente traçado, não havendo porque questionar um assunto em que o próprio Deus assume posição tão favorável. A injustiça é apenas aparente e pensar sobre ela não é uma postura adequadamente cristã - trata-se de um desígnio divino e implica na libertação desses povos de seu estado de cativos da "terra da maldição" que é a África, terra de Cam.
Assim, na Bahia açucareira, por exemplo, os engenhos foram erguidos sob a invocação dos santos católicos e terminou-se por construir dentro da estrutura teológica católica toda uma vertente que garantisse o esvaziamento de identidade dos africanos escravizados, que legitimasse o processo de escravização, que assegurasse o desenvolvimento das atividades produtivas dependentes da escravidão e que garantisse a riqueza e prosperidade dos
senhores de fazendas e de escravos, da Igreja e da Coroa portuguesa. O mesmo historiador, no artigo citado, relata que, por volta de 1880, à viajante francesa, Adèle Toussaint-Samson, visitando uma fazenda escravista no Rio de Janeiro, registra que os escravos eram obrigados a oração da mesma forma que ao trabalho diário. Os sinos,
tocados sempre pelo feitor ou pelo fazendeiro, exigiam a presença dos escravos e a realização das duas obrigações. As rezas católicas incluíam cantos que santificavam a cana de açúcar, matéria de seu trabalho:
"O ritual inicia-se com o acendimento de quatro velas, sendo oficiado por dois escravos, sub-feitores, que entoavam, num latim peculiar, o Kyrie eleison. Depois, todos em uníssono, cantaram a ladainha dos santos do paraíso, desde "Santa Maria, mai de Deos, ora pro nobis!”até a última inclusão: "Santa Pé de Canna, ora pro nobis!”“. Prostrando-se os presentes finalizaram o canto com uma "aflitiva exclamação": "Miserere nobis!"...
..."Açúcar e fé mesclaram-se a tal ponto que acabaram por produzir visões e crenças nos engenhos que chamaram a atenção dos inquisidores portugueses. Analisando os processos do Santo Ofício no Brasil colonial, Laura de Mello e Souza destaca depoimentos de "mestres de açúcar" que afirmavam ter visto a incorporação de Nossa Senhora nas
fôrmas de barro que purgavam o melado quente que açúcar. A fôrma como o lugar do mistério alquímico que transfigurava o caldo no bem precioso dos engenhos era também o lugar sagrado que acolhia a mãe de Cristo - mistérios da fé! Além disso, havia outros possíveis condicionantes para esta imagem herética dos visionários. As fôrmas tinham o formato dos sinos das capelas e o período do ano em que eram produzidas e trabalhadas
para a purificação do açúcar coincidia com os festejos de Nossa Senhora, sobretudo, Nossa Senhora da Purificação."
"Baseando-se no relato do viajante Henry Koster, que foi proprietário de engenho e escravos no início do século XIX, Stuart Schwartz oferece mais detalhes sobre o ato litúrgico que sacramentava os primeiros passos da safra açucareira.
No dia marcado, o pároco ou capelão residente rezava missa, abençoando o engenho, na presença do proprietário e sua família ou do administrador residente, além de muitos indivíduos livres das áreas vizinhas.
Suplicava-se a Cristo, ou ao santo padroeiro do engenho, que protegesse todos os que trabalhavam na propriedade e assegurasse uma boa colheita. No local da moenda, escravos e homens livres reuniam-se para ouvir as preces e assistir à aspersão de água benta sobre a máquina. A um sinal, a moenda era posta em movimento, e o padre e o proprietário passavam as primeiras canas pelos tambores. Os escravos levavam aquilo tão a sério quanto os senhores. Recusava-se a trabalhar se a moenda não fosse abençoada e, durante a cerimônia, muitas vezes tentavam avançar para receber algumas de água benta no corpo. As caldeiras e os trabalhadores também eram abençoados, assim como, por insistência dos condutores, os carros de bois vindo dos canaviais, enfeitados com
guirlandas feitas de canas compridas amarradas com fitas coloridas. Mais tarde, em geral, havia um banquete na casa grande, e os escravos eram presenteados com garapa para beber. “A safra começara.”
Essa teologia da escravidão, do trabalho escravo e da matéria prima que se transformava em riqueza para os brancos cristãos impregnou, parece-nos, todas as partes envolvidas: aos brancos, europeus e cristãos, garantiu a moralidade dos processos, a benção divina sobre a riqueza e a idéia de supremacia espiritual, racial e sócio-cultural; aos
negros africanos reduziu a magnitude de seu panteão, desenvolveu a idéia de um deus de segunda classe, levou à redução da valia e grandeza das divindades (Orixás, Voduns, Inkices), espíritos puros criados pelo Deus base de sua religião monoteísta, como princípios universais no processo da Criação.
Ao lado da idéia de supremacia do Deus branco ou da incorporação do conceito politeísta - onde as divindades transformaram-se em deuses, o sincretismo então ocorrido levou a comparação dessas divindades com os santos católicos, pessoas que viveram vidas segundo os valores da Igreja Católica e que, por isso mesmo, após sua morte foram santificados, reduzindo assim o tamanho, reduzindo assim a dimensão das divindades. Isso, sem dúvida, terminou por contribuir para a construção de uma representação distorcida e, reduzindo a dimensão das divindades, endossou mais uma vez o estereótipo dos africanos como inferiores, contribuindo assim para afetar a auto-estima e a auto-imagem dos afros descendentes.
Associa-se a isso que seus valores, sua ancestralidade e suas raízes religiosas foram então reduzidos e subordinados aos valores e formas do branco e sua cosmogonia foi de certa forma, absorvida e dominada pela cultura do senhor de escravos.
Se, dentre os vários povos africanos que sofreram o processo de escravização, de diáspora forçada em direção ao Brasil, tomarmos como exemplo o povo iorubá - o território iorubá estende-se pelos países Nigéria, Togo e República do Benin (antigo Daomé) – vamos encontrar em sua cosmovisão e cultura religiosa a figura de OLODUNMARE, espírito infinitamente perfeito, que existe por si mesmo e de quem o universo e todos os outros seres recebem a existência. Quando OLODUNMARE nomeia-se a si mesmo, nos vários significados que a decomposição de seu nome nos traz, ele se denomina "Eu Sou Aquele que É".
No entanto, é natural, para toda a idéia de que não podem compreender OLODUNMARE. Na medida em que ele é infinito, princípio e fim de todas as coisas encontram-se além dos limites humanos a sua compreensão. Possa isso sim, conhecê-lo através de seus atributos e deduzir a sua existência através de suas manifestações no Universo e nas coisas criadas.
É a partir desse processo do conhecer que os iorubás afirmam ser OLODUNMARE "o Único no céu e na terra, o Supremo sobre todos" e o chamam por esse nome referindo-se particularmente as suas características de "Senhor de todas as coisas", "o Soberano que está no Orun", "Aquele que tem a máxima autoridade sobre tudo".
Pensam que OLODUNMARE pode ser conhecido por muitos nomes - afinal de contas, muitas são as suas particulares manifestações nos diversos momentos e planos da Criação, e assim, muitas vezes, ele é chamado de OLOFIN ou OLORUN. Muitas vezes, querendo expressar uma emoção extrema ou apelo urgente, os iorubás reúnem os três nomes de OLODUNMARE em uma mesma exclamação: "L'oju OLODUNMARE! L'oju OLOFIN! L'oju
OLORUN!”“, significando "na presença de OLODUNMARE! na presença de OLOFIN! na presença de LORUN!".
Alguns atributos de OLODUNMARE podem ser aqui citados para demonstrar a profunda complexidade da reflexão teológico presente na cosmovisão iorubá, percebendo se, sem dúvida que seu pensamento religioso organizado enquanto sistema nada deixa a dever às religiões consideradas significativas na história da humanidade. Assim,
OLODUNMARE é Infinito.
·OLODUNMARE é infinito, ou seja, tem todas as perfeições em sumo e ilimitado grau.
A natureza é um conjunto indivisível no qual tudo está contido - a totalidade do Universo está presente em todas as partes e em todos os tempos que possam ser considerados.
Sem dúvida alguma, existe uma interação completa e misteriosa entre todos os elementos do Universo e essa interação une o Universo numa única totalidade.
Tudo o que ocorre em nosso pequeno mundo está em relação com a imensidão cósmica, como se cada parte de qualquer mundo considerado contivesse em si a totalidade do Universo. Conclui-se que o todo e a parte são uma única e mesma coisa. - tudo reflete todo o resto. Cada região do espaço, por menor que seja, contém a configuração completa do conjunto. O que quer que aconteça na Terra é ditado por todas as hierarquias das
estruturas do Universo.
OLODUNMARE é Imutável. A imutabilidade de OLODUNMARE consiste em que OLODUNMARE não está sujeito a mudança nem no seu ser, nem nos seus desígnios. OLODUNMARE é chamado de "OYIGIYIGI, OTA AIKU" - O máximo, Pedra Imutável que jamais morre OLODUNMARE é Eterno. Consiste a eternidade em que OLODUNMARE não teve princípio nem pode ter fim. Ora, OLODUNMARE é eterno porque é o ser necessário que em si tem a razão de existir e não pode deixar de existir. Consequentemente, para OLODUNMARE não há passado nem futuro - todas as coisas estão para ele em um eterno presente. No entanto, nós o vemos como o OLOJO ONI, o Senhor do Tempo, o gerador de todos os ciclos, e por isso falamos: "Oni, omo OLOFIN; ola, omo OLOFIN; otunla, omo OLOFIN; ireni, omo OLOFIN; orunni, omo OLOFIN" - "hoje é a descendência de OLOFIN; amanhã é a descendência de OLOFIN; depois de amanhã é a descendência de OLOFIN; o quarto dia é...; o quinto dia...". Um DEUS que não teve começo e que não conhecerá fim não está necessariamente fora do tempo - Ele é o próprio tempo, simultaneamente quantificável e infinito, um tempo em que um único segundo contém a eternidade inteira, sem que o conceito de tempo aí expresso implique na idéia de sucessão de acontecimentos.
OLODUNMARE é Imortal. Mais que Imortal OLODUNMARE é a Imortalidade e a esse atributo associa-se o atributo da invisibilidade. “OLODUNMARE não pode ser visto e assim é chamado de “OBA AIRI” - O Rei Invisível”.
OLODUNMARE é Imenso. Presença de OLODUNMARE. A imensidade de OLODUNMARE consiste em que ele está em todos os lugares e em todas as coisas. OLODUNMARE é imenso, porque, como causa universal de todas as criaturas, tem que atuar nelas, para criá-las, as conservar e governar, visto que nenhum ser pode agir onde não existe. Não nos esqueçamos, no entanto, que OLODUNMARE não está limitado nem contido em nenhum lugar, mesmo quando está em todos os lugares. Através desse atributo OLODUNMARE revela-se como vivente eterno, onipresente e imenso.
"OLORUN NIKAN L'O GBON" - "somente OLORUN está ciente". OLODUNMARE é onisciente, onipresente e onividente. Ele conhece todas as coisas e nenhum segredo lhe é ocultado. Assim também está no coração dos homens e os conhece. Muitas vezes o nome OLOKO, pelo qual OLODUNMARE também é conhecido, é traduzido por pesquisadores, literal e restritamente, como "Senhor da Fazenda" ou "Fazendeiro". Uma reflexão mais profunda leva-nos a entender que OLOKO refere-se à condição de OLODUNMARE enquanto "Senhor do Universo" que criou universo de infinita extensão, inimaginável ao pensamento humano. Assim, o título OLOKO nada mais é do que símbolo a refletir a extensão e a grandiosidade presentes na obra da Criação.
OLODUNMARE é o Criador. Sua condição de Pré-Existente a tudo e a todos os seres criados é muito bem expressa no seguinte texto de um Itan do Odu OYEKU-OGBE:
"E o mo Iya / K'enyin o ma tun sure puro mo; / E o mo Baba / K'enyin o ma tun sure
S’eke mo; / E o mo Iya, e o mo Baba OLODUNMARE / Eyi l'o d'IFA fun Tela-Iroko / T'o so wipe
on nre 'ki OLODUNMARE...",
cuja tradução no diz:
 "Você não conhece a Mãe / Pare com sua impetuosa mentira; / Você não conhece o Pai / Pare com sua impetuosa mentira; / Você não conhece a Mãe, você não conhece o Pai de OLODUNMARE / Este foi o veredicto do oráculo
de IFA para Tela-Iroko, / Aquele que propôs a origem do nome de OLODUNMARE..."

Ele é a origem de todo o Universo, o princípio de todos os princípios. Ele é o ELEDA, o Supremo Criador, e, ao mesmo tempo, é ele que mantém o Universo em movimento. Ele é o padrão e o movimento, origem de todos os ciclos e sua regulação.
Ele é OBA A-SE-KAN-MA-KU, o Rei que trabalha para a perfeição, Autor de todas as coisas e de todos os eventos. Por fim, Ele é o ELEMI, o Senhor do Espírito, o Senhor da Vida.
OLORUN, nome provavelmente resultante da contração OLOFIN + ORUN traduz-se literalmente por "o Rei ou Governante do Orun". É de entendimento que temos aí significativamente exposta uma particular manifestação de OLODUNMARE, enquanto "o Criador e Senhor da Suprema Realidade". Ora, a efetiva realidade da Criação é o "mundo sobrenatural", ou Orun, mundo em que a Criação se processa em que tudo é criado, em que a realidade concreta do Aiye preexiste no pensamento do DEUS Criador.
OLODUNMARE é Sagrado. Todos os atributos de OLODUNMARE levam necessária e obrigatoriamente à condição de reconhecer a sua natureza de Sagrado. É indissociável de sua condição de Criador Supremo a sua sacralidade. Acima de tudo e de todos, merece de toda a sua Criação louvor permanente e adoração. Ele define, por si mesmo, conceitos como pureza, retidão e transcendência. “Por isso ele é conhecido como “OBA MIMO” - o Rei puro”. OLODUNMARE revela-se como ser infinitamente santo, necessário e oniperfeito, absolutamente singular e único. Ele transcende todas as coisas. OLODUNMARE se mostra santo quando manifesta sua glória em obras prodigiosas. Costumam dizer que os trabalhos de OLODUNMARE são poderosos e maravilhosos usando a expressão "Ise OLORUN tobi" - "os trabalhos de OLORUN são poderosos".
OLODUNMARE é o Supremo Juiz OLODUNMARE é chamado de "OBA ADAKE DA JO" -
“O Rei que mora acima e que executa os julgamentos em silêncio”, significando que ele controla o destino dos homens e a ordem da Criação, onde cada um recebe o que é por ele determinado. OLODUNMARE revela-se como onisciente, onipresente e onipotente também em sua justiça e em seu juízo. Assim, assiste e acompanha a sua obra, mantém-se ativo e presente em todos os seus tempos.
Bolaji Idowu, em sua obra "OLODUNMARE - God in yoruba Belief", acrescenta a essa lista de atributos outros que considera igualmente importante e que, efetivamente, terminam por caracterizar OLODUNMARE em toda a sua dimensão e essência. Ora, se até aqui vimos que a concepção de um Deus único forma a base monoteísta da cosmovisão iorubá, podemos perguntar, indo além, se também a idéia de um DEUS trinitário, base
lógica presente em todas as religiões consideradas resultantes de superior elaboração teológica, absolutamente importante e significativa no entendimento de uma criação que se processa e se explica dialeticamente, está presente ou ausente na visão iorubá de DEUS e da sua relação com a Criação e sua obra? Acreditamos que está presente e vamos tentar demonstrar.
Na cosmogonia iorubá encontramos duas essenciais figuras que, pelo tratamento que recebem, pela dimensão e natureza com que se apresentam, pelas características do culto que lhes é prestado, merecem uma abordagem particularmente especial no que diz respeito ao seu papel e lugar no panteão geral das divindades. São elas: ELA OMO OSIN, ou ELA, e ORUNMILA.
Ambas são chamadas pelos iorubás de ELERI IPIN, IBIKEJI OLODUNMARE -
significando, o Testemunho do Destino, Aquele que estava presente no momento da Criação, Aquele que é a consciência ou o segundo em OLODUNMARE.
A Tradição milenar iorubá diz que, no início dos tempos, nos primórdios da Criação, tudo que OLODUNMARE criava era destruído por ELA OMO OSIN - como se forças de igual potência, agindo e reagindo em uma relação absolutamente íntima e essencial, terminassem por se anular mutuamente.
Apenas a intervenção de ORUNMILA que, por uma fração de tempo, parou a ação reativa de ELA permitiu que a Criação tivesse continuidade. As três pessoas presentes, interagentes do processo da Criação, demonstram que entre elas e o universo se estabelece uma relação particularmente especial. Essa visão cosmogonia, no nosso entender, diz claramente sobre o nível de abstração presente no pensamento teológico iorubá, elaboração altamente complexa e explicitadora do nível de profundidade a que chegaram suas reflexões teológicas. O que nos parece sumamente interessante é que a teoria científica mais moderna, construída na segunda metade deste século, para explicação da origem do universo, a teoria do "big bang", em um determinado momento, diz que nas frações de segundo iniciais, a cada partícula de matéria que se criava o equivalente em antimatéria era criado e ambas se eliminavam. Apenas um acidente, ou ação de uma inteligência superior, que provoca uma ruptura desta ordem inicial, permitiu que a criação
se processasse e o universo em que vivemos tivesse origem. ELA OMO OSIN, ou ELA, traz no seu nome o significado de "o preferido de OLODUNMARE", "o Filho de OLODUNMARE", considerando que o título OSIN significa Líder
dos Líderes, ou Rei dos Reis, referência com que se diz que OLODUNMARE está acima de todos e de tudo. Nós chamamos ELA OMO OSIN de "Aquele que mantém o mundo acertado (ou em ordem)", e dizemos "ELA IWORI ni ki jeki aiye ra 'ju" - ELA IWORI é quem salva o mundo da ruína. Assim, temos que ELA constitui-se em um princípio primordial que estava presente no início da Criação, preenchendo o universo com as ações mais adequadas,
estabelecendo a ordem e colocando todas as coisas em seus devidos lugares. No sacerdócio da religião tradicional iorubá, principalmente o sacerdócio de IFA/ORUNMILA, ELA é considerado de suma importância enquanto princípio primordial da ordem que precisa ser mantida no universo e na vida dos homens, em particular, e é sempre invocado nos cultos para que esteja "presente" e abençoe as oferendas e sacrifícios. A tradição iorubá também nos diz que ELA OMO OSIN esteve no mundo e viveu entre os homens trazendo-lhes a mensagem do correto caminho; rejeitado, voltou para junto de OLODUNMARE.
A seguir, transcrevemos parte de um adura (reza) feito para ELA OMO OSIN e que reflete muito da dimensão e natureza acima expostas:

ORUNMILA AJANA
IFA OLOKUN A SORO DAYO
Que faz o sofrimento tornar-se alegria
ELERI IPIN
O testemunho do destino
IBIKEJI ELEDUNMARE
A consciência do Pré-Existente
ORUNMILA AKERE FINU SOGBAN
ORUNMILA, que usa o próprio interior como fonte de sabedoria
A GBAYE GBORUN
Que vive no mundo visível e no invisível
OLORE MI AJIKI
O meu benfeitor, a ser louvado pela manhã
OKITIBIRI TI NPA OJO IKU DA
O poderoso que protela o dia da morte
KA MO E KA LA
Quem o conhece está salvo
KA MO E KA MA TETE KU
Quem o conhece não sofrerá morte prematura
IFA PELE O IFA,
Saudações a você
OKUNRIN AGBONMIREGUN
O homem chamado AGBONMIREGUN
OLUWO AGBAYE
OLUWO do universo
IFA A MO ONI MO OLA IFA,
Que sabe sobre o hoje e o amanhã
A RI IHIN RI OHUN
Que vê tudo, que está aqui e acolá
BI OBA EDUMARE
Como rei imortal (EDUNMAREE)
ORUNMILA TII MO OYUN INU IGBIN ORUNMILA,
Graças a seus muitos conhecimentos, é você quem sabe a respeito da gestação do igbin
IFA PELE O, ERIGI A BO LA IFA,
Saudações a você! ERIGI A BO LA, que ao ser venerado, traz a sorte
IFA PELE O, MERETELU IFA,
Saudações a você,
MERETELU NIBI TI OJUMO RERE TI NMO WA
De onde vem o sol. De onde vem o melhor dia para a humanidade
IFA PELE O, OMO ENIRE IFA,
Saudações a você! Filho de ENIRE
IWO NI ENI NLA MI
Você é o meu grande protetor
OLOOTO AYE
Aquele que diz aos homens a verdade
IFA PELE O, OMO ENIRE IFA,
Saudações a você, filho de ENIRE!
TI NMU ARA OGIDAN LE
Que faz forte o corpo
ORUNMILA TI ORI MI FO IRE ORUNMILA,
Fale bem através do meu ORI
ORUNMILA TA MI LORE
ORUNMILA me abençoe
A GBENI BI ORI ENI
Você, que como o ORI de uma pessoa, assim a apóia
A JE JU OOGUN LO
Cuja fala é mais eficiente do que a magia
OJUMO RERE NI O MO OJO
Vem o dia com bom sol
IFA OJUMO TI O MO YI IFA,
Neste dia que surgiu
JE KI O SAN MI S'OWO
Favoreça-me com prosperidade
JE KI O SAN MI S'OMO
Favoreça-me com fertilidade
OJUMO TI O MO YII
Que este dia me seja favorável em saúde e bem estar
JE O SAN MI SI AIKU
Que este dia me seja favorável em longevidade
ORUNMILA IBA O O
ORUNMILA, saudações a você!
A partir do que vimos até aqui, não podemos deixar de avançar sobre dois atributos presentes na religião iorubá e que a caracterizam dentro de um quadro que estabelece sua extensão e profundidade, garantindo-lhe lugar junto a todas as demais grandes religiões da história da humanidade. Ela é, sem dúvida, uma religião universal e revelada. É universal na medida em que seus princípios podem ser seguidos por quaisquer homens e sua cosmovisão tem caráter planetário. É revelada porque todo o conhecimento que a constitui encontra-se sistematizada no chamado Corpo Literário de IFA, conjunto milenar de todo o conhecimento religioso, esotérico, histórico, ético e moral entregue aos homens, ora por ORUNMILA, quando referentes às questões ligadas a Criação, as divindades e as relações
entre os mundos espiritual e concreto; ora transmitido pelos ancestrais míticos, quando referentes as questões históricas do povo iorubá, seus valores ético e morais de regulação das relações sociais.
Ora, para concluirmos, são evidente que todo o processo que resultou na degradação parcial das religiões africanas refletiu-se também nas chamadas religiões afro descendentes.
Esse fenômeno pode ser constatado no Brasil onde, ainda hoje, muitos sacerdotes da religião dos ORISA consideram sua religião como politeísta e os ORISA como Deuses, trazendo, por conseqüência, uma visão interna da religião que a reduz à dimensão de seita e uma visão externa que a define como panteísta, primitiva, bárbara e fetichista.
Perde-se, assim, sem dúvida, a dimensão do sagrado, o status de universalidade e de revelação que lhe são próprios e a respeitabilidade que ela merece ao lado das grandes religiões da humanidade. Retirar da religião afro-descendente seu caráter monoteísta significou, antes de tudo, retirar das diversas nações africanas sua identidade, sua força de unidade e coesão.

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